Pinhal de Leiria, um ano depois do fogo: técnicos denunciam que "está tudo por fazer"

O Observatório para o Pinhal do Rei reuniu apenas duas vezes, uma delas com a comissão científica, que hoje apresenta na Marinha Grande um programa de recuperação das matas nacionais do litoral. Um ano depois, a maioria acredita que "está tudo por fazer".

"O que temos, passado um ano, é uma mão-cheia de nada e outra de coisa nenhuma." Gabriel Roldão - o investigador que antes do incêndio de 15 de outubro do ano passado alertara para o perigo no Pinhal de Leiria - não acredita em milagres. E por isso vai sem grande expectativa para a reunião de hoje à tarde, com o ministro da Agricultura, Capoulas Santos, e o secretário de Estado das Florestas, Miguel Freitas. Na sessão - marcada para as 16 horas, no auditório da resinagem, na Marinha Grande, a comissão científica constituída depois do fogo vai apresentar o relatório do Programa de Recuperação das Matas do Litoral. E tanto o Ministério da Agricultura como o ICNF (Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas), assim apontam todas as baterias para essa reunião. Mas o que andaram a fazer, ao longo de um ano, os diversos organismos criados na sequência do incêndio, bem como aqueles que já existiam. "O que nos parece é que está tudo por fazer", disse ao DN o engenheiro agrónomo Ricardo Vicente, membro do Observatório Local do Pinhal do Rei e da Comissão Popular O Pinhal É Nosso.

Criado por iniciativa da Câmara da Marinha Grande, em articulação com a Secretaria de Estado das Florestas, a ideia era reunir um conjunto de especialistas que pudessem observar, ao longo do tempo, o trabalho produzido pela comissão científica. Mas isso só haveria de acontecer numa única reunião, a 18 de junho, e a maioria dos participantes saiu de lá com a sensação de "uma operação de cosmética". "Era um conjunto de coisas sem nexo, como se tivesse sido tudo feito à pressa só para haver alguma coisa", afirma Ricardo Vicente.

A bióloga Sónia Guerra também estava nessa reunião, enquanto membro do Observatório e da Comissão Popular O Pinhal É Nosso e guarda desse dia uma conclusão: "Não é um plano de uma comissão científica que vai efetivar a recuperação do Pinhal do Rei e das matas nacionais do litoral." Nascida e criada na Marinha Grande, acabaria por fazer muita investigação naquele território, a que continua ligada, agora em projetos de voluntariado.

A bióloga fala de uma "estratégia de desinvestimento na floresta e descapitalização dos serviços, que já vinha desde há uns 15 anos, mas que a tragédia poderia ter travado. Só que não", disse ao DN. "A sensação que tenho é que, ao longo deste ano, tudo o que foi feito foram medidas avulso, em cima do joelho e para encher o olho", com consequências que se avizinham graves do ponto de vista ambiental: "Não vejo ninguém a monitorizar. E isso bem poderia ser feito por jovens das universidades, pois temos diversos cursos nessa área." Sónia Guerra fala de implicações sérias, decorrentes do incêndio, para as quais não vê reação.

"A limpeza - como lhe chamam - é um termo que me arrepia. Devíamos falar antes em gestão de vegetação e combustível. Uma acácia não é igual a um medronheiro, por exemplo." Por outro lado, a bióloga alerta para alguns efeitos que já se fazem sentir: "Os ventos na Vieira já são muito mais fortes. Estamos a comprometer a qualidade do ar que respiramos, dos aquíferos e dos solos também. Sem aquela mancha florestal vamos passar a ter temperaturas muito mais altas também. Às vezes isto parece coisa de um país de terceiro mundo, não estarmos ainda a atuar."

Hugo Simões, engenheiro florestal e também membro do Observatório Local, alinha no mesmo raciocínio. E alerta para outro problema - a retirada em massa de toneladas de madeira, "que deveria ser acautelada, porque temos a regeneração natural a acontecer, e que pode ficar comprometida".

A ameaça das espécies invasoras

Como se não bastasse a destruição de 80% do Pinhal, com o fogo, há uma preocupação que cresce entre os técnicos que há anos acompanham essa "política de desinvestimento nas matas nacionais": o avanço de plantas e árvores invasoras. Hugo Simões aponta o exemplo das acácias, que estão a ocupar rapidamente todas as clareiras do pinhal, uma espécie potencialmente perigosa para um novo incêndio. E apesar de não estar ainda classificado oficialmente como invasor, o eucalipto vai-se instalando também no terreno. Esta semana o DN viu-o em vários locais, até em Vieira de Leiria, perto de fábricas e habitações.

Essas também são as preocupações da Comissão Popular O Pinhal É Nosso, que em finais de setembro foi (finalmente) foi recebida na Assembleia da República pela Comissão de Agricultura e Mar. Maria Loureiro é uma das promotoras desse movimento cívico, que a cada dia 15 continua a reunir-se, todos os meses, para não deixar esquecer o que aconteceu ao Pinhal. "Ouviram-nos, concordaram com muitas das nossas propostas, mas a verdade é que passou um ano e não vemos avançar um pacto de regime, como se impunha, para a reflorestação do Pinhal", sustenta Maria, em nome da comissão que promoveu uma petição com 6500 assinaturas, mas que nunca chegou a ser discutida na AR.

Reflorestação "foi a possível"

"Claro que todos gostaríamos de ver mais. Ver mais limpeza e ver mais replantação. Mas quer uma ação quer outra não podem ser feitas sem planeamento e sem o necessário ajustamento à nova realidade que temos no Pinhal do Rei", afirma Cidália Ferreira, presidente da Câmara da Marinha Grande. E de certa forma desculpabiliza os organismos responsáveis: "Parece que agora todos somos entendidos em agricultura, em silvicultura, em florestação, em espécies ripícolas, em fauna e em flora. Agir sem pensar e sem planear, pode trazer mais problemas do que soluções. A reflorestação feita até agora foi a possível, atendendo a que entre abril e maio, com início das temperaturas mais elevadas, não se pode fazer plantação. Além de que há uma forma de plantação que não pode ser esquecida: a que a própria natureza se encarrega de fazer." A autarca admite que poderia sim "ter havido mais cuidado na limpeza, sobretudo na prevenção contra a proliferação das espécies invasoras. De resto, é importante que a curto prazo o ICNF clarifique, através da Comissão Científica ou não, o que vai fazer em concreto, qual o plano de ação para os próximos 5, 10, 20 anos, para a reconstrução do Pinhal do Rei. Quais as alterações que se propõe fazer seja no ordenamento da floresta, seja na sua gestão, seja na sua relação com as restantes entidades com interesse sobre o Pinhal, a começar pela câmara municipal".

E há ainda o financiamento deste empreendimento, "que importa clarificar, o que só podemos esperar que seja através da afetação ao Pinhal do Rei da verba resultante da venda da madeira queimada, conforme compromisso assumido pelo senhor ministro da Agricultura, quando visitou a Marinha Grande após o incêndio".

11 milhões em madeira queimada

Confrontado pelo DN, o ICNF confirma que o Estado encaixou um valor na ordem dos 11 442 500,00€, resultado acumulado nas vendas da lenha queimada. Na Mata Nacional de Leiria, aquele organismo tem apenas um técnico superior. No verão passado, "antes do início do período crítico, os serviços do ICNF no Pinhal do Rei foram reforçados com cinco equipas de assistentes operacionais (cerca de 20 trabalhadores) provenientes de outras áreas operacionais dos departamentos do centro, do norte e de Lisboa e Vale do Tejo do ICNF. Em 16 de julho de 2018 foram contratados mais cinco assistentes operacionais, na sequência da abertura de concursos destinados ao preenchimento de 20 vagas, para trabalharem na área operacional da Marinha Grande". As restantes vagas ficaram por preencher.

Quem percorre a Estrada Atlântica e atravessa a Mata Nacional do Urso, a Mata de Leiria e o Pinhal do Rei - entre os concelhos de Pombal e Alcobaça - entra num cenário triste. A grande maioria das árvores morreu de pé, e ali continua. Os populares interrogam-se muitas vezes sobre o comprometimento da regeneração natural da mata, mas o ICNF explica que não é assim. "Em regra, a regeneração natural de pinheiro-bravo atinge a germinação plena do banco de sementes ao fim de quatro a cinco anos, com um número de plântulas germinadas superior a dez mil exemplares por hectare. Como tal, a realização de operações de exploração florestal nos primeiros 18-24 meses pós-incêndio não interfere com o estabelecimento dos povoamentos de futuro."

Em resposta ao DN, os serviços do ICNF lembram que nos 9508 hectares (com um volume de material lenhoso com valor comercial a ultrapassar os
600 mil metros cúbicos) "é impensável estabelecer um procedimento de abate do material lenhoso disponível em tempo recorde com o único objetivo de potenciar a regeneração natural nos talhões ardidos".

Da área ardida que registava povoamentos de pinheiro-bravo com valor comercial (6540 hectares), "já foram alienados e estão a corte mais de 2150 hectares, e encontram-se preparados para alienação cerca de 1550 hectares". O resto da área alienada nos próximos meses. O Ministério da Agricultura adianta ainda que, em 2018, o ICNF centrou a sua intervenção na área ardida do Pinhal do Rei, procedendo à inventariação e alienação de arvoredo queimado, e "providenciando as condições para que possa proceder-se à reflorestação, uma vez que arderam mais de 6000 hectares de povoamentos de pinheiro-bravo".

Quanto ao plano de reflorestação do Pinhal do Rei, que será apresentado amanhã, o ministério adianta que "foram já executadas ações de arborização numa área superior a 400 hectares".

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