Onde está Jamal? Jornalista crítico de Riade entrou no consulado saudita e desapareceu

Há mais de uma semana que não há sinal de Jamal Khashoggi, que foi visto pela última vez a entrar no consulado do seu país em Istambul. Riade repete que deixou o edifício, mas Ancara acredita que foi morto no interior.

O jornalista saudita Jamal Khashoggi entrou no dia 2 de outubro no consulado do seu país em Istambul e nunca mais foi visto. As autoridades turcas acreditam que foi morto no interior do edifício, por causa das críticas constantes ao governo de Riade, mas a Arábia Saudita diz que ele deixou o consulado antes de desaparecer.

Mais de uma semana depois, continua sem haver rasto de Jamal, mas as versões sobre o que aconteceu são muitas. Uns alegam que foi raptado e enviado de volta para a Arábia Saudita, outros que foi morto por um "esquadrão de assassinos" enviado por Riade e esquartejado com uma serra de ossos, com o corpo a ser retirado em pedaços dentro de malas numa carrinha diplomática.

Os sauditas continuam a rejeitar qualquer crime e deram autorização para a polícia efetuar buscas no local, à medida que se aperta a pressão internacional para tentar perceber o que terá acontecido.

Quem é Jamal Khashoggi?

O jornalista e comentador de 59 anos, que nasceu em Medina e estudou na Universidade Estatal de Indiana (EUA), era um rosto familiar em programas políticos nas televisões por satélite árabes. Começou a carreira nos anos 1980, tendo feito a cobertura da invasão soviética do Afeganistão e trabalhado em vários eventos de relevo no Médio Oriente. No currículo tem várias entrevistas a Osama bin Laden, o já falecido líder da Al-Qaeda.

Foi por duas vezes diretor do jornal Al Watan, mas acabaria despedido - primeiro em 2003, após dois meses no cargo, por publicar histórias críticas dos clérigos sauditas, e depois em 2010, três anos depois de ter regressado. Depois do primeiro despedimento, foi viver para Londres, tendo trabalhado como conselheiro de imprensa do príncipe Turki al-Faisal, ex-diretor dos serviços de informação sauditas que era então embaixador no Reino Unido. Quando este foi nomeado para a embaixada dos EUA, seguiu-o para Washington.

No verão de 2017, resolveu deixar a Arábia Saudita e autoexilar-se nos EUA em rutura com o governo saudita (terá alegadamente sido pressionado a deixar de usar o Twitter onde tem 1,8 milhões de seguidores depois de criticar a receção "excessivamente entusiasta" à eleição de Donald Trump). Já tinha dado entrada com os documentos para pedir a cidadania.

Colaborava atualmente com o jornal The Washington Post (o jornal publicou no dia 4 de outubro uma coluna em branco no espaço que normalmente lhe era reservado),tendo escrito vários artigos de opinião a criticar o governo de Riade, particularmente do príncipe herdeiro Mohammad bin Salman al Saud, de 33 anos. Em setembro de 2017 escreveu na primeira pessoa sobre os amigos que estavam a ser detidos pelas autoridades.

"Com a ascensão ao poder do jovem príncipe herdeiro, ele prometeu abraçar a reforma social e económica. Ele falou em tornar o nosso país mais aberto e tolerante e prometeu que abordaria as coisas que impedem o nosso progresso, como a proibição de as mulheres conduzirem [algo que já foi levantado]. Mas o que vejo agora é a recente onda de detenções", escreveu então, falando de "novas e extremas políticas" que estão a ser aplicadas.

Admitindo que no passado ficou calado por medo de perder o emprego, a liberdade ou possíveis consequências para a família, Khashoggi indicava nesse texto que desta vez seria diferente. "Agora fiz uma escolha diferente. Deixei a minha casa, a minha família e o meu emprego e estou a levantar a minha voz. Fazer outra coisa seria trair aqueles que definham na prisão. Eu posso falar quando tantos não podem. Quero que saibam que a Arábia Saudita nem sempre foi o que é agora. Nós, os sauditas, merecemos melhor."

O que aconteceu?

Khashoggi foi visto pela última vez a entrar no consulado saudita em Istambul, no dia 2 de outubro, por volta das 13.00. Ia levantar um documento que pedira na primeira visita ao consulado, a 28 de setembro, que provava que estava divorciado da primeira mulher (que ficou na Arábia Saudita), para poder casar com a noiva, a turca Hatice Cengiz, 23 anos mais nova do que ele. Conheceram-se em maio, numa conferência em Istambul.

Num artigo no The Washington Post, Cenzig contou nesta terça-feira que antes de visitar o consulado pela primeira vez ele estava preocupado por poder estar em perigo. "Contudo, ele lembrou que não existia qualquer mandado para a sua captura no seu país natal", escreveu a noiva, dizendo que Khashoggi acreditava que os sauditas não o poderiam forçar a ficar no consulado. Depois da primeira visita, na qual foi bem recebido, Cenzig disse que ele não estava preocupado com regressar ao edifício.

Cenzig ficou à porta à espera que Khashoggi saísse e quando já tinham passado três horas, perguntou por ele (tinha-lhe deixado os seus dois telemóveis). Foi informada que já teria saído. Preocupada, depois de ter falado com amigos, contactou Yasin Aktay, um grande amigo do jornalista saudita que é assessor do presidente turco Recep Tayyip Erdogan. Tinha sido o próprio Khashoggi a dizer-lhe para lhe ligar caso não regressasse.

Mostrando-se confiante no trabalho desenvolvido pelas autoridades turcas para encontrar o noivo, Cenzig pediu contudo a intervenção do presidente norte-americano Donald Trump para ajudar a esclarecer o que se passou.

Versões contraditórias

Dois dias após o desaparecimento de Khashoggi, o consulado emitiu um comunicado a dizer que estava a cooperar com a investigação das autoridades turcas, reiterando que o jornalista tinha desaparecido "após deixar o prédio do consulado".

O próprio príncipe herdeiro disse, numa entrevista à Bloomberg, que a Arábia Saudita está "muito interessada" em saber o que aconteceu, alegando que continuarão a dialogar com o governo turco para descobrir o que aconteceu. "Segundo sei, ele entrou e saiu depois de alguns minutos ou uma hora. Não tenho a certeza, estamos a investigar", indicou Mohammed, reiterando que ele não está no interior do edifício.

O presidente Erdogan pediu à Arábia Saudita na segunda-feira para provar que Khashoggi deixou o edifício, com a polícia turca a dizer que não há registo nas imagens das câmaras de vigilância que tal tenha acontecido.

O porta-voz do chefe da diplomacia turca, Hami Aksoy, disse que as investigações "continuam intensivamente". A Convenção de Viena, que gere as relações diplomáticas, permite que o consulado seja revistado pelas autoridades do país de acolhimento, mas sempre com a autorização do chefe de missão. Aksoy disse num comunicado que o edifício será alvo de buscas.

O que dizem os media?

Oficiais turcos que falaram anonimamente com o The New York Times, concluíram que Khashoggi foi morto numa operação ordenada ao mais alto nível da família real saudita. Segundo o jornal norte-americano, uma equipa de 15 agentes sauditas desmembrou o seu corpo com uma serra para ossos levada de propósito para o consulado.

As câmaras de vigilância à porta do consulado não mostram Khashoggi a sair, mas revelam que no interior do edifício de dois andares estaria parte dessa equipa de 15 pessoas. De acordo com o jornal turco pró-governamental Sabah, pelas 03.00 de dia 3 de outubro um avião privado Gulfstream que transportava nove membros dos serviços de informação sauditas aterrou no aeroporto de Ataturk, oriundo de Riade. Os oficiais terão feito o check-in em dois hotéis diferentes, numa reserva para três noites, mas acabariam por sair nesse mesmo dia.

O jornal Sabah publicou na quarta-feira os nomes, fotos e data de nascimento de 15 sauditas, apelidando a equipa de "esquadrão de assassinos". Além dos nove que tinham chegado de madrugada, houve um segundo grupo de seis que aterrou noutro avião particular pelas 17.15, voltando a partir cerca de uma hora depois com destino ao Cairo, antes de voltar a Riade. O primeiro avião partiu perto das 23.00 para o Dubai.

Entre o grupo, que seria formado por membros dos serviços de informação sauditas, estará um médico legista militar, Salah Mohamed Tugaiby, de acordo com o jornal Hürriyet.

A televisão estatal TRT passou vídeos (muito editados) que mostram o que alegadamente aconteceu desde que os aviões aterraram em Istambul até que partiram, passando pela entrada de Khashoggi no consulado e cerca de duas horas depois a saída de uma carrinha preta Mercedes Vito com matrícula diplomática. O veículo percorre os dois quilómetros até à casa do cônsul - cujos funcionários teriam alegadamente recebido o dia de folga -, estacionando dentro da garagem.

Há contudo alguns jornais que falam que o jornalista terá sido sequestrado e levado de volta para a Arábia Saudita (uma versão defendida também pelo tabloide britânico Daily Mail, citando uma fonte próxima da família real saudita). Outros alegam que existe um vídeo do momento em que Khashoggi foi morto.

Por seu lado, os media sauditas como o jornal Al-Yaum (citado pela BBC) acusam os media internacionais de "espalhar veneno" e "explorar um incidente para transmitir mentiras contra o reino saudita".

Relações tensas

As relações entre Turquia e Arábia Saudita, assim como com outros países da região, têm estado tensas desde junho de 2017, quando Erdogan ficou ao lado do Qatar depois de os países árabes terem cortado relações com Doha pela sua alegada ligação ao terrorismo. Além disso, Riade também tem trabalhado com o Irão (o principal rival saudita no Médio Oriente) em relação à Síria.

Apesar disso, a Arábia Saudita é um dos grandes investidores na Turquia, razão pela qual Erdogan ainda não terá acusado publicamente o governo saudita de matar Khashooggi.

O caso do jornalista saudita está a ter impacto internacional, com EUA e Reino Unido a pedirem respostas sobre o seu desaparecimento. O secretário de Estado norte-americano, MIke Pompeo, pediu a Riade que "apoie uma investigação completa" e "seja transparente quanto aos resultados".

Já o chefe da diplomacia britânica, Jeremy Hunt, questionou diretamente o homólogo saudita, Adel al-Jubeir, avisando que "as amizades dependem da partilha de valores".

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