Premium Mini sobre o Fernando Pessoa do imperialismo americano

Como Fernando Pessoa Salvou Portugal é uma gloriosa curta-metragem que chega hoje aos cinemas. Comédia com piadas delicadas sobre um Portugal da ditadura e um poeta a fazer slogans para o "imperialismo americano".

Numa semana em que há mais de dez filmes a chegarem aos cinemas, talvez seja essencial não deixar escapar um minifilme (é assim que tem sido descrito). Chama-se Como Fernando Pessoa Salvou Portugal, de Eugène Green, e é uma curta-metragem que foge das amarras da sua duração. É cinema puro, duro e gracioso. Um filme, mini ou não, que apetece abraçar - o melhor trabalho do mais português dos cineastas lá de fora. O franco-americano Eugène Green, que é sempre irregular (o "português" A Religiosa Portuguesa, de 2009, era até à data o seu melhor cartão-de-visita no que toca a abordagens ao nosso país), finalmente parece ter encontrado o tom certo do seu cinema todo aperaltado em vénias a Manoel de Oliveira.

E é precisamente como pequena peça delicada que Como Fernando Pessoa Salvou Portugal se apresenta. A história de como Fernando Pessoa, nos anos 1920, foi o responsável para a campanha de uma bebida americana e imperialista chamada Coca-Louca (olá Coca-Cola!). Uma campanha que recebeu o slogan "primeiro estranha-se, depois entranha-se" para depois fazer alergia ao clero e ao regime fascista. A Coca-Louca foi retirada do mercado e o trabalho do nosso poeta censurado. Pelo meio, vemos Pessoa a ter um encontro com Álvaro de Campos, o seu heterónimo, e a confessar-se enojado pelo refrigerante escuro.

O filme é construído em pequenos quadros, em que os atores e os não atores (por exemplo, encontramos o crítico Ricardo Gross a fazer de padre mau da fita ou o cineasta Manuel Mozos como patrão da agência de Pessoa) debitam diálogos com uma frieza muito espartana e onde o humor destila um charme situacional capaz de nunca nos atirar fumaça de caricatura. É como se houvesse um pacto de gangues com elegância de sátira, capazes de um retratar uma tacanhice portuguesa deliciosa. Fica-se com a sensação de que havia aqui material para longa e que esta secura de humor pode ser francamente acessível a vários quadrantes de espectadores. São 24 minutos que passam a correr e que divertem sem manias nem ambições dogmáticas. E é mais uma prova do imenso talento de Carloto Cotta, um dos atores portugueses que melhor compreende uma câmara de cinema. É fácil, em poucos segundos, acreditar neste Pessoa. E não esquecer que vem aí Diamantino, de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, nova transformação do ator português que interpreta um megacraque de futebol que vai ser associado a Cristiano Ronaldo...

Como Fernando Pessoa Salvou Portugal teve a sua estreia mundial no Curtas Vila do Conde e foi um ai-jesus na secção Signs of Life, do Festival de Locarno. Mais uma coprodução internacional da O Som e a Fúria, também a produtora da coprodução luso-francesa, Nove Dedos, de J. F. Ossang, que também integra a sessão do filme de Green. Trata-se de uma longa-metragem que veio da competição do Festival de Locarno, embora o bilhete valha mesmo pelo tal minifilme...

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