Sim, temos de ser virgens ofendidas, cara deputada

Temos mesmo de ser todos virgens ofendidas, sim. Pegando na expressão que a deputada do PSD Emília Cerqueira usou para acusar quem a acusara de ter assinado as presenças do secretário-geral do seu partido na Assembleia da República. Expressão infeliz, sobretudo pelo que não diz e dá a entender. Que o esgaçar das regras é comum. Toda a gente sabe, o conhece, e, pior, o desvaloriza.

É essa a faceta mais grave do caso que podia ser ser apenas ridículo. Porque sim, são características virginais as que se exigem a quem lida com coisas comuns, privadas ou públicas. O pudor, o rigor, o respeito. E, aos políticos, temos o dever de julgá-los através desse crivo. Se não for assim, lá vem o jeitinho, o entorse da norma, o fechar de olhos. E é isso que é perigoso na metáfora de Emília Cerqueira.

Voltemos às virgens. Chamar a atenção para este caso não é ser snob ou ser picuinhas. É ter noção do mundo em que hoje vivemos, onde há sempre alguém à espreita de uma falha para pôr mais um pouco em causa a ordem das coisas, as instituições democráticas, os políticos, as elites. Por esta altura já todos conhecemos bem a narrativa.

Chamar a atenção para esta falha - que, sim, vale 138 euros - não é roçar o populismo. Quem alerta para o perigo dos populismos não está, como dizem os seus críticos, a querer fechar os olhos a práticas pouco corretas. Pelo contrário. O ponto de partida dessa defesa da democracia tem de ser, pelo contrário, e para usar mais uma metáfora politicamente famosa, expurgar a má moeda.

Num mundo perigoso, sobretudo para eles, tem de exigir-se mais aos políticos. Que não se desculpem por serem "do Alto Minho" e não terem ideia de que uma password abre uma presença na sessão. Que sejam serenos e assumam os erros sem se porem aos berros ou se desculpem com "sim, mas". Que não usem o ataque aos jornalistas e ao jornalismo como defesa de pedras no sapato - valham elas 138 euros ou milhões.

Por outro lado, exige-se também que uma Assembleia da República cumpra melhor o seu papel de farol institucional. Que seja mais rigorosa nos bons comportamentos e mais inovadora nas boas práticas. Se este sistema é tão falível, porque não foi já escolhido outro? Aproveitando a ironia de este caso ter explodido na semana da Web Summit em Lisboa - na era da inteligência artificial, da cibersegurança, da biométrica, faz sentido as faltas serem marcadas com um login facilmente copiável? Faz sentido esconderem-se por detrás de uma impronunciável Comissão Eventual para o Reforço da Transparência no Exercício de Funções Públicas? E porque é que os deputados têm de ganhar à sessão, quando o trabalho deles é tão mais diversa. Não é isso, também, um gatilho do populismo?

Chegámos onde chegámos no caminho da diluição do respeito pelas instituições que criámos para proteger a democracia, não foi por excesso de rigor. Foi por deixar andar. Por, tantas vezes, desconhecermos quem nos representa. Para usar bem a expressão que Emília Cerqueira usou mal, nenhum político é uma virgem ofendida nesta matéria. Esticaram a corda, pisaram o risco, transmitiram perceções erradas. E de poucos sabemos o que pensam para o país, para o mundo.

Talvez por isso nos surpreendamos tanto com a performance de Emília Cerqueira, que aqui, para voltar à figura de estilo, serve apenas de metáfora.

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