Aparvalhado diante de Pelé

Pelé fez 78 anos no outro dia. Não houve grandes comemorações - certamente estão esperando pela data redonda, a dos 80, para que lhe rendamos todas as homenagens. Tem sido comovente vê-lo nos últimos anos, de andador ou cadeira de rodas, ainda se recuperando de uma cirurgia no fémur. Faz-nos pensar que o jogador mais completo que já existiu, o inventor de jogadas, o homem dos 1281 golos, o atleta do século, nivelou-se a todos nós ao descer ao seu nível de humanidade. E isso é injusto. Assim como Edson - Edson Arantes do Nascimento, sua persona, você sabe - sempre se referiu a Pelé como Pelé, na terceira pessoa, não está certo que Pelé, finalmente, tenha passado a se ver como Edson.

O Brasil já fez as pazes com Pelé. Essa afirmação pode ser uma surpresa para os que, não sendo brasileiros, nunca imaginariam que o Brasil tivesse algum problema com Pelé. Mas teve. Durante muitos anos, apesar de admirá-lo por sua genialidade no relvado e lhe ser grato por três Copas do Mundo que ele nos ajudou a ganhar, o brasileiro parecia ressentido com Pelé. Pelé era rico, Pelé era poderoso, Pelé namorava as grandes mulheres - uma delas, Xuxa. O brasileiro o comparava com Garrincha, que morreu pobre, "abandonado", encharcado em álcool, e preferia-o a Pelé, que não tinha culpa do destino de Garrincha. "O brasileiro prefere o coitadinho. No Brasil, vencer na vida, ficar rico, é uma ofensa pessoal", dizia Tom Jobim, ele próprio, por muito tempo, também alvo do desapreço nacional.

Houve o episódio em que, ao fazer o milésimo golo da sua carreira, contra o Vasco da Gama, em 1969, no Maracanã, Pelé, abraçado à bola dentro da meta e cercado por microfones, dedicou o golo "às criancinhas". E acrescentou, chorando: "Precisamos olhar pelas criancinhas do Brasil!." Pelé referia-se às crianças miseráveis que já se viam soltas pelas ruas das nossas cidades. Mas, por algum motivo, parte da imprensa não gostou do que ele disse. E o motivo era que o Brasil não precisava de filantropia, mas de uma sangrenta revolução popular, que acabasse de vez com a riqueza, digo, a pobreza. Como se não bastasse, Pelé também afirmou, certa vez, que o brasileiro "não sabia votar" - e isso em plena ditadura militar, quando, sabendo ou não, não podíamos votar.

O Brasil, finalmente, fez as pazes com Pelé. Sim, já houve um problema entre Pelé e o Brasil.

Riram de Pelé quando ele falou das criancinhas, mas, se o tivéssemos ouvido na época, teríamos talvez evitado que, hoje, quase 50 anos depois, os bisnetos daquelas crianças continuassem nas ruas - três gerações dessas crianças se passaram desde então. Quanto a não saber votar, de facto Pelé não deveria ter dito aquilo. Não naquele momento. Mas a normalidade democrática foi instituída em 1989 e, desde então, tendo eleito alguns dos piores presidentes, governadores, prefeitos, senadores e deputados do mundo, não há dúvida de que Pelé tinha razão. Não sabemos votar. Mas temos de continuar votando até aprender.

Pelé, ao microfone, é um perigo. Já confundiu Michael Jordan com Michael Jackson. Às vezes, faz comentários estapafúrdios sobre futebol. E recomendou a Romário, no auge da carreira deste, que se aposentasse - o que motivou a grande resposta de Romário: "Pelé, calado, é um poeta." Mas quem já não se distraiu alguma vez? E porque Pelé, depois de ter jogado o que jogou, precisa entender de futebol? Quanto a Romário, recém-candidato (derrotado) ao governo do Rio, falou mais asneiras durante a campanha do que Pelé seria capaz de dizer em mil anos. E, ah, sim, há o ex-craque argentino Maradona, que se julga maior do que Pelé e só o chama, pejorativamente, de "negro". Pelé, elegantíssimo, ignora a maioria dos insultos - e desde quando Pelé tem tempo a perder com Maradona?

Estive com Pelé algumas vezes, a bordo de um avião e em casa de amigos, mas nunca havia falado com ele. Então, em 1996, quando do lançamento da edição brasileira de meu livro Estrela Solitária, a biografia de Garrincha, vi-me sentado a seu lado na plateia do programa de Jô Soares, na TV Globo. Ambos seríamos entrevistados. Foi quando, contrariando a minha objetividade profissional, pensei em pedir-lhe um autógrafo. Hesitei - peço ou não peço? Mas nem tive tempo para decidir. Ao me ver, ele abriu um sorriso, tirou um exemplar do livro - do meu livro - de dentro de um envelope, e disse:

"Olá, Ruy! Pode me dar um autógrafo?".

Autografei o livro para Pelé. E, de tão aparvalhado que fiquei, não lhe pedi o autógrafo no exemplar que trazia comigo.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, Estrela Solitária - Um brasileiro Chamado Garrincha (Tinta da China)..

Ler mais

Exclusivos