Entre apps e plantas

A Web Summit acabou, mas volta, e volta por mais dez anos, e isto são excelentes notícias. E não é por Marcelo ter reanunciado outra vez a sua recandidatura nem pela coisa em si e pelo bem que faz à cidade e ao país. É mesmo porque assim temos mais dez anos para ouvir, durante uma semana em novembro, que é sempre um mês difícil porque é o mais normal de todos, o mês em que as pessoas já trabalham e esqueceram o verão e ainda não foram para o Natal, de termos ali logo no início o privilégio, o prazer, o deleite, de ouvirmos na rádio, televisão e jornais, no digital e no papel, as grandes pérolas de sabedoria daqueles que são contra a Web Summit. Pena que não os possamos ouvir em meses tristes e normais, como um março ou até um abril, mas não se pode ter tudo e agora temo-los mais dez anos, na primeira semana de novembro.

No contexto da Web Summit, não na própria mas no seu contexto, e as coisas que ocorrem no contexto de mas não em na ou no ganham uma aura própria, ouvi três jovens a conversar, uma ela dois eles, numa mesa, vinte e poucos anos. Às tantas ouvi, sobre uma ausente, que ela nem sequer tinha avisado que tinha namorado novo, o que é muita mau. E ouvi também, um pouco mais à frente na conversa, que ainda por cima ele tinha vindo da Holanda para terminarem a relação. Não percebi, admito, se era sobre a mesma pessoa, o mesmo casal, a mesma relação, esta informação, sobretudo se era já o novo que tinha vindo da Holanda assinar a sua própria guia de marcha, ou se o novo veio apenas a existir. E fiquei com vontade de me juntar, como se sempre ali tivesse estado, e de saber mais, perguntar ela devia ter avisado porquê, ele na Holanda andava enrolado com a portuguesa com quem partilhava casa, se ainda se falam, se ela alguma vez tinha ido à Holanda ou se como tinha sido ele a querer ir de Erasmus ele é que tinha de vir cá, porque não acabaram por Skype, se tiveram sexo logo depois de acabarem, se o novo namorado dela sabe, este tipo de coisas, coisas destas, mas o dia continuou, sem respostas, ou com respostas mas a outras questões muito menos existenciais. Ele a querer closure formal, ela a querer andar para a frente sem marcar o facto.

Mas não me sai do ouvido, no resto da semana, aquela ela e aquele ele, ou aqueles eles, porque no fundo eram quatro, ou cinco, porque o problema é que as quadras e os pares muitas vezes são ímpares, ou quase nunca são pares, ao contrário do que contam e do que nos contam. É verdade que as quadrilhas também podem ser pares, como a de Carlos Drummond de Andrade, que era par porque Lili não amava ninguém, e só ficou outra vez ímpar quando Lili casou com J. Pinto Fernandes que ainda não tinha entrado na história que, agora que penso melhor, com sigla e apelido dobrado devia ser tão aborrecido que mais valia não ter casado, pobre Lili, devia estar farta de ouvir dizer que devia casar. Andou para a frente, mas se calhar andou para trás.

Entre apps que ainda não existem e plantas que sempre por cá andaram, Lisboa avançou muito nesta semana.

Nesta semana fui orador na primeira conferência sobre canábis medicinal organizada em Portugal. Com esta exceção (fica sempre bem alguma modéstia), estiveram em Portugal dos maiores especialistas mundiais sobre o tema, investigadores com décadas acumuladas de investigação, centenas de publicações e milhares de citações (Ethan Russo, Cristina Sanchez, entre outros). A conferência organizada pela associação Cannativa foi aberta pela presidente do Infarmed, e contou com um momento muito tocante, a exibição de parte do documentário Pacientes em que vários utilizadores de canábis medicinal, ou famílias, dão testemunho dos desafios que encontram diariamente na utilização de uma substância que lhes melhora a vida, por vezes de forma transformadora. O documentário, produzido pela Laura Ramos, está ainda em fase de produção, apenas com apoios financeiros particulares (para saber mais e ajudar: www.pacientes.pt). É também a espera destas pessoas por uma lei, e agora que a lei está em vigor, por uma regulamentação que lhes permita o verdadeiro acesso àquilo que, segundo os médicos, lhes possa aliviar as convulsões epiléticas, a dor e a espasticidade, a ansiedade. Um doente oncológico, de idade avançada, atribui à planta propriedades curativas da doença, fala do seu médico convencional com carinho, mas diz que não lhe vai dizer os efeitos que atribuiu à droga. Sentem-se presos pela inércia dos outros, pela nossa. Agora talvez vislumbrem caminho.

Na minha intervenção falei de uma Lili, não de Drummond lá atrás, mas na de Caneças. Disse que a canábis medicinal fez o seu percurso precisamente porque, por ser uma substância altamente disponível apesar de proibida, um conjunto cada vez maior de pacientes a usa, inteira ou em extratos, quer em automedicação quer com a ajuda de médicos, com efeitos comprovados. E aplicando a regra de Lili Caneças - estar vivo é o contrário de estar morto -, o facto de os pacientes continuarem vivos é evidência da falta de perigosidade da coisa. E esta constatação foi permitindo, um pouco por todo o mundo, que o estigma da segurança ficasse resolvido (paracetamol pode matar, canábis nunca mata). E foi a partir daí que as leis começaram a mudar abrindo a medicina de novo a uma planta, às suas propriedades, concentrando-se agora na questão da eficácia.

Numa semana em Lisboa os melhores daqueles que ousam vir dizer que se tem de olhar para a frente. Mas também daqueles que nos obrigam a admitir que por vezes só conseguimos andar para a frente se tivermos coragem de revisitar o que deixámos apressadamente para trás. Entre apps que ainda não existem e plantas que sempre por cá andaram, Lisboa avançou muito nesta semana. Apesar do que dizem.

Advogado

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