A cultura e a luta pela validação da verdade

Há palavras difíceis de definir. "Cultura" é uma delas. De uma forma simples, sem pretensões académicas, "cultura" será a palavra que todos sabemos o que é, mas que temos dificuldade em concretizar, talvez porque saibamos (uns mais do que outros...) que a cultura de um não poderá ser, em absoluto, a cultura de todos, mas sim o conjunto dos contributos de cada um. A aceção de "cultura" terá de ser coletiva e, nesse sentido, sempre sinónima de democracia.

A cultura do nosso país, ao longo da nossa história, tem sido pautada pela capacidade de aglutinar várias culturas, fundindo-se essa habilidade numa identidade em si mesma. É também isso que nos permite, hoje, apresentar ao mundo uma Web Summit sinergética de identidades, oportunidades e descobertas, como naus e caravelas, também agora carregadas de inovação.

Portugal democrático é cada vez mais global, aqui podemos debater livremente temas relativos a género, cultura e identidade, bem como as suas aceções e concretizações. Chegamos inclusivamente ao ponto de discutir exaustivamente os mais variados faits divers da ordem dos nossos dias. Mas existe um perigo, também ele global: a ameaça de falência das instituições que, em democracia, validam e verificam a verdade.

A notícia falsa, como todos sabemos, sempre existiu. Mas surge agora amplificada pelas novas tecnologias e pelas redes sociais que permitem que o boato, ao falar mais alto e soar mais longe, se torne facto e que deste se dê tanta notícia, que a mentira, de tão repetida, se badala por verdade. Ann Mettler, responsável do Centro de Estratégia Política da Comissão Europeia, chamou até a atenção na Web Summit para as já chamadas deep fake, ou seja, material áudio e vídeo falso, mas aparentemente tão verdadeiro que não se consegue detetar. Como harmonizar, em democracia, a liberdade de imprensa com a notícia falsa e as deep fake? Esta é que devia ser a hot discussão do momento. E respostas? E estratégias?

A madrugada chegou na quarta-feira passada a Portugal com uma notícia feliz e felizmente verdadeira - Trump perdeu, nas eleições intercalares, o controlo sobre a Câmara dos Representantes. A onda democrata azul elegeu um número recorde de representantes da diversidade cultural que sempre matizou a América. Para a vitória democrata, muito contribuiu a resposta da comunidade democrática, artística, cultural e intelectual da América à estratégia do medo de Trump. A cultura sempre ajudou e vai continuar a ajudar.

Essa luta é também da lusofonia. Fala-se que as recentes eleições no Brasil originarão uma fuga de intelectuais e artistas do Brasil para Portugal. A acontecer, essa espécie de "braxit" cultural seria um imerecido tributo a uma Europa que histórica e episodicamente ofereceu os seus fascistas à América do Sul. Mas não acredito que Buarque e Caetano neguem o novo chamado da democracia.

A via soft adotada para enfrentar as ondas de notícias falsas revelou-se insuficiente. Como se fará a luta da democracia pela verdade? Em Portugal, uma resposta possível será talvez a amplificação da responsabilização já constitucionalmente consagrada. Outra, a revisão de códigos e práticas deontológicas. Outras mais haverá.

Deputada do PS

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