Volta ao mundo: direção científica portuguesa e homens de nove países da Europa

"Se não fosse Juan Sebastián Elcano, não teria sido concluída, de uma única vez, a primeira volta ao mundo, iniciada por Fernão de Magalhães", defende neste texto o autor de A Viagem de Fernão de Magalhães e os Portugueses (2007).

Que fique bem clara esta afirmação: não tivesse sido Juan Sebastián Elcano e não teria sido concluída a primeira volta ao mundo feita de seguida. Resta explicar como é que tal aconteceu.

A 6 de setembro de 1522, a nau Victoria,com 18 tripulantes sob o comando do capitão Juan Sebastián Elcano, chegou a San Lucas de Barrameda, porto de onde partira quase três anos antes. Ela acabava assim de dar a primeira volta ao mundo em continuidade e realizando um dos feitos mais notáveis da história da humanidade, cujas complexas circunstâncias vamos explicar sucintamente.

Tudo começou quando Fernão de Magalhães, em outubro de 1517, decidiu ir para Espanha agravado com D. Manuel I, por este não lhe ter aumentado em mais cem reis mensais a sua moradia (ordenado) e não o ter autorizado a ir por uma via oriental às ricas ilhas em cravinho chamadas Molucas (na Indonésia), onde já havia estado quando da sua descoberta, em 1512. Foi esta a razão pela qual ele foi oferecer os seus serviços a Carlos V, propondo-lhe, talvez a 2 de março de 1518, um muito ambicioso projeto que ele concebeu em Lisboa entre 1516 e 1517.

Ele pretendia ir a essas ilhas por uma nova via ocidental, que queria descobrir, e através dela provar que pertenciam ao rei de Espanha, de acordo com o que estava estipulado no Tratado de Tordesilhas, que em 1494 dividira o mundo em dois hemisférios, um para Portugal e outro para Espanha. Segundo os seus cálculos, tais ilhas estariam a oriente de um antimeridiano de Tordesilhas que passava a leste de Malaca.

Carlos V acreditou na teoria de Fernão de Magalhães e, vendo que ele era o único com capacidade científica e conhecimentos para a poder provar, deu-lhe uma armada de cinco navios com 237 homens, que a 20 de setembro partiu para aquela que seria a segunda parte da sua volta ao mundo. Com efeito, Magalhães sabia que navegando para ocidente, pelo hemisfério que só os espanhóis podiam percorrer, estaria a realizar uma circum-navegação do mundo, a qual veio a concluir de forma indireta a 16 de março de 1521, quando então descobriu as Filipinas.

De facto, a primeira etapa dessa epopeia já havia sido por si realizada quando em 1505 partira de Lisboa para a Índia e em 1512 chegara às Molucas, situadas a uma longitude semelhante à das Filipinas. Mesmo admitindo que ele soubesse estar a dar uma volta ao mundo em duas etapas, há que sublinhar o facto de ele nunca ter querido fazer uma circum-navegação da Terra, pois a sua missão era apenas a de provar que as Molucas eram de Carlos V e assim permitir que esse monarca e os espanhóis (e ele) enriquecessem com o seu muito lucrativo comércio do cravinho.

Que em 1519 Magalhães não queria dar uma volta ao mundo completa prova-se pelo simples facto de Carlos V lhe ter proibido repetidamente e, de forma incisiva, que a sua expedição passasse de qualquer forma que fosse pelo hemisfério oriental dominado pelos portugueses, isto é, pelas águas do oceano Índico.

No entanto, tal volta ao mundo feita de seguida acabou por se concretizar, sob a direção de Elcano, por circunstâncias que resultam de ele não ter arriscado regressar a Espanha pelas águas espanholas do Pacífico, como Gonzalo Gómez de Espinosa na Trinidad tentou fazer em vão, mas sim pelas águas do hemisfério português, as quais já eram conhecidas, mesmo que ele soubesse estar a infringir as ordens de Carlos V, que o proibia de tal procedimento.

Elcano embarcara na armada como mestre da nau Concepción sob o comando de Luis de Quesada e participou a 1 de abril de 1520 no motim de Puerto de San Julián contra Magalhães, o qual se fizera para fazer regressar a armada a Espanha. Depois da execução do seu capitão, Elcano foi perdoado e a sua nau passou para o comando do português Duarte Barbosa.

Após a morte de Magalhães, nas Filipinas a 27 de abril de 1521, e da morte também aí verificada de Duarte Barbosa, a 1 de maio de 1521, a sua nau foi incendiada e ele passou para a Victoria, que ficou sob o comando de Espinosa, enquanto a expedição passou a ser comandada pelo piloto português João de Carvalho. Só quando este foi demitido em Bornéu a 16 de setembro de 1521 é que Elcano assumiu o comando da Victoria, tendo Espinosa passado para a Trinidad.

Depois de estes navios terem chegado às Molucas a 8 de novembro, a Victoria partiu a 21 de dezembro para Espanha, arriscando fazer a volta pelas águas proibidas do hemisfério português, embora seguindo pela parte sul do Índico até dobrar o cabo da Boa Esperança, para assim não ser apanhada pelos portugueses. É de realçar que tal atuação realizada contra as ordens dadas por Carlos V não voltou a ser repetida pelos espanhóis.

Por este facto bem se vê que a justa glória de Elcano ter concluído a primeira volta ao mundo feita de seguida foi o fruto das circunstâncias da vida de um homem que se viu enredado naquela que foi a mais longa e difícil viagem marítima de todos os tempos.

Durante a sua chefia da armada, Magalhães, com a sua tenacidade, teve o grande mérito de conseguir descobrir a parte da Terra que até então ainda não havia sido descoberta, o que foi a parte mais original da viagem que seguiu por mares "nunca antes navegados" a descobrir a terra a sul do rio da Prata, o estreito de Magalhães, toda a extensão do oceano que passou a chamar Pacífico e finalmente as Filipinas.

Ele ficou assim como símbolo de um empreendimento que, tendo sido organizado e financiado sob a direção de Espanha, com a oposição de Portugal, expressou uma direção científica portuguesa e uma participação de homens de nove países da Europa, naquele que se tornou um marco da mundialização então em curso e está na origem do atual processo da globalização que agora vivemos.

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