Um professor é mais do que uma folha de salário

Não se aguarda um final de ano letivo calmo nas escolas portuguesas. Os professores já afiam as facas, com Mário Nogueira renascido das cinzas de uma luta partidária em que jogou mais do que devia e perdeu mais do que podia, mas que, por ter havido quem fosse mais trapalhão, acabou por ter uma derrota com sabor a vitória. Os professores, por seu lado, terão visto no gorar dos seus intentos a força de que precisavam para endurecer a luta? E manterão uma luta de greves tradicionais, graves mas sem incomodar muito? Ou aprenderam no clima radical de chora-que-logo-bebes (a imaginária aldeia onde nasceu João sem Medo, protagonista do livro homónimo de José Gomes Ferreira)? Veremos, e provavelmente em breve, uma vez que a época de exames está à porta.

Nesta altura há muitas perguntas e poucas respostas. Quem ganhou e quem perdeu, por exemplo. No curto prazo, António Costa ganhou. Vergou sindicatos e oposição - e foi de tal maneira que ele nem precisou de atacar, ou hostilizar, os parceiros de coligação. E como precisava de se distanciar deles, de se recolocar ao centro - desesperadamente em busca de uma maioria. Isso foi-lhe oferecido de bandeja pelo CDS e pelo PSD, que o empurraram para esse lugar tão confortável.

No longo prazo, ver-se-á quem ganhou. Por muito que Rui Rio atire a "irresponsabilidade" para cima do primeiro-ministro, o que ficará desta história é a irresponsabilidade do seu próprio partido e do CDS, que nunca conseguiram justificar por que votaram um diploma quando a medida mais importante para eles tinha sido retirada. E embora assumir que erraram e voltar atrás nem lhes fique assim tão mal - os tempos que correm exigem sinceridade mais do que golpes cínicos - ter-lhes-ia ficado melhor não se meterem em qualquer coisa a que se pudesse dar o nome de trapalhada.

Porque trapalhada é uma palavra que leva a várias interpretações, a maior parte das quais más, em política. E piores nos tempos perigosos que vivemos. Os movimentos antipolítica, antidemocracia e pró-confusão salivam por todas elas. Têm sorte, os políticos portugueses, mais sorte, talvez, do que os portugueses com os seus políticos. Até agora, o país tem mostrado uma maturidade que permite alguns desvios de escrutínio - o que nem sempre é mau, porque o mundo está de tal forma rígido que por vezes parece mais uma camisa-de-forças.

Há outra certeza: esta será uma discussão que tomará conta das próximas eleições e não da forma que devia. Discutir-se-ão tempos de serviço e não ensino. Professores e não aprendizagem. E escalões em vez de escolas. Como, aliás, aconteceu em toda esta legislatura, e nas anteriores, por outras razões. Os professores têm de ser dos profissionais mais importantes que uma sociedade tem. Não podem ser arma de arremesso. Nem se podem contentar em sê-lo, mas para isso têm também de valorizar-se, apresentando-se ao mundo como mais do que um recibo de salário. Não devem temer ser avaliados - as nossas crianças e os jovens merecem que se separe o trigo do joio no futuro deles.

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