Nada contra

A limitação do tempo, a finitude e a incompatibilidade das escolhas, a necessidade das próprias escolhas, tudo isso se torna mais claro quando temos de ir onde pensamos já não ter de ir. Foi assim que a semana passada acabei por dar por mim em Copenhaga, onde já tinha estado duas vezes e pensei que não estaria três. Nada contra os senhores, que deram ao mundo a Helena Christensen e o Peter Schmeichel, que guardava redes e marcava golos, e os ós com tracinho ou bolinhas amorosas em cima, e os vikings ou parte deles e os contos do H. C. Andersen. Por falar nisso, lá fomos ver o senhor no cemitério. No Cemitério Assistens, belo nome, onde está também o Kierkegaard e em frente dele uma estudante de Filosofia, muito compenetrada no banco de madeira a olhar para a campa do mestre, em crise existencial. Kirkegård é como se diz cemitério - o Kirkegård do Kierkegaard, como na primária, o marco do Marco, raio de língua. A culpa não é deles, mas há tanto sítio.

Mas lá se esteve, a conferência era lá e não era noutro lado, aquela gente muito loira, muito saudável, muito tranquila, os miúdos na cama cedo, os glúteos bem bicicletados, carros nem vê-los, transportes a horas, muita criança na rua, todos com ar tranquilo, pouca ranhoca, bochecha bomboca, deve ser dos leites, ou das mães, que já se sabe nos países nórdicos têm licenças maternais de muitos séculos, por cada filho, e a gente aqui o que gosta é de generalizar os países nórdicos isto e aquilo, ou quando quer generalizar na mesma mas parecer mais esperto diz na Escandinávia, ou na Escandinávia os escandinavos fazem assim assado: têm tudo de graça do Estado, as multas são indexadas aos rendimentos, não têm crime, integram muito bem os imigrantes, e às cinco já está tudo em casa, não ficam a fazer horas nos trabalhos como nós cá, tudo a engonhar para o chefe ver. E depois voltam a casa, montados nas bicicletas, os glúteos com mais milímetros de estrutura e menos milímetros de gordura.

Voltei a Christiania, o bairro que era um estado independente, ou que achava que era, onde tinha estado há vinte anos, tudo mais limpinho, a malta mais velha, aquela estética woodstokiana que magoa nos olhos, mas a ser um bom contraste ao arrumadinho da cidade, design nórdico lá está, outra boa generalização, ou escandinavo que é diferente de nórdico. Há também a generalização dos povos do norte da Europa, que é diferente da Europa do Norte, porque aí já cabe uma loiraça de Lille ou mesmo um rapagão de Milão.

Por falar em Milão, no avião para cá tentei acabar uma New Yorker daquelas que o tempo que não há nunca deixa saírem da pilha, mas também não podem ir para o lixo porque um dia vai haver tempo para tudo, vinha um texto do Ian Frazier, "Never going to Italy" (ou apenas "Italy" na edição em papel, de 11 de março), em que ele conta como tem sido difícil cumprir o seu desejo de criança de nunca ir a Itália. E ao ler aquilo percebi que tinha de ser mais metódico e determinado na minha resolução de não gastar as viagens que me faltam na Dinamarca, ou nos países nórdicos. Ou mesmo na Escandinávia. Nada contra. Mas há tanto mundo.

Advogado

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