Premium O tiro no pé

Não é a maneira ideal para cometer suicídio. Mas Bolsonaro está tentando - só que com o pé dos brasileiros.

Dorothy Parker, jornalista, contista e poeta americana (1893-1967), disse certa vez num poema: "Lâminas doem muito/ Rios são húmidos/ Ácidos mancham/ E drogas provocam desmaio./ Armas são ilegais/ Nós escorregam/ Gases cheiram mal./ É melhor viver." Este é o problema do suicídio - a maioria de suas formas tem um inconveniente. A tal ponto que, se o suicida ficar pensando muito e analisando os prós e contras de cada modalidade, acabará mudando de ideia. A própria Dorothy Parker tentou-o duas vezes, tomando comprimidos na primeira e cortando os pulsos na segunda, sem sucesso. Seu amigo Robert Benchley, ao visitá-la no hospital depois da segunda tentativa, avisou-a: "Dottie, se você não parar com essa história de querer se matar, vai acabar se machucando."

Os escritores, habituados a ganhar a vida com sua criatividade, às vezes veem-se obrigados a transferir essa criatividade para a maneira como escolhem morrer. Não há mal nenhum nisso, desde que a tentativa seja bem-sucedida. Um tiro na têmpora, como o de Camilo Castelo Branco, aos 75 anos, em 1890, ou cinco frascos de estricnina, como os ingeridos pelo poeta Mário de Sá-Carneiro, aos 26 anos, em 1916, nem sempre são suficientes - pode-se errar o tiro ou ser salvo por uma lavagem estomacal. Daí alguns terem optado por métodos mais radicais.

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