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É a minha loja chinesa preferida, fica na Almirante Reis e fui lá comprar mais um carregador de telemóvel, já que insisto em deixá-los pelos quartos de hotéis como os evangélicos deixam bíblias.

Enquanto eu puxava da carteira uma senhora cega descrevia à empregada o artigo de que precisava.

"Um saco com fecho, com fecho, um saco pequeno."

"Saco fecho? De cola?"

"Não, de fecho, de fecho..."

Mediei o colóquio fazendo um gesto simples, correndo os dedos para simular um fecho éclair. A empregada soltou um "ah" e lá foi buscar o artigo.

A senhora agradeceu-me e disse ainda: "Uns são cegos dos olhos e outros surdos da língua."

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.