O ambiente e a busca por referências éticas

A preocupação da sociedade contemporânea com o ambiente, e a consequente adesão ao sem-número de causas que essa preocupação pode envolver - porque é um sem -número de desafios que a questão ambiental coloca -, é muito mais do que uma preocupação científica, técnica. Essa componente científica existe, como é evidente, mas está longe de explicar a crescente relevância do tema, sobretudo nas novas gerações. E é um enorme erro político, provavelmente dos maiores erros políticos do momento, não tentar perceber a origem desta adesão tão completa à causa ambiental - cada vez mais transversal, implicando alterações ao estilo de vida e ao nosso comportamento social - ou confundi-la com uma espécie de moda, algo a que não podemos politicamente ceder porque cedo passará.

A preocupação com o ambiente é a manifestação mais atual da permanente busca da sociedade laica por referências éticas e morais. Não se trata, por isso, de uma moda conjuntural, embora haja quem por aí ande, mas de algo bem mais estrutural e fundo numa sociedade que além de laica é viciada em tecnologia: qual é o papel do homem numa ordem que o transcende, que padrões éticos e morais devem orientar a nossa presença num planeta que existia antes de nós e que temos obrigação de preservar para quem vier a seguir a nós, como podemos assegurar que tudo o que fazemos e que o caminho que trilhamos nos dignifica e enobrece?

Há muito de religioso aqui, sim, e isso só reforça a necessidade de compreender esta adesão à causa ambiental, que não conhece fronteiras partidárias, mas que pode impor ou desenhar novas fronteiras se os partidos não entenderem a força do que está a passar-se ou se, de alguma forma, relativizarem ou secundarizem o que leva as novas gerações a escolher o ambiente e o clima como preocupações políticas centrais.

Quando falo em relativizar não me refiro apenas à já inaceitável secundarização do tema, mas também, e este ponto é essencial, ao enquadramento do ambiente como matéria técnica, espaço natural para respostas baseadas na ciência. Como é evidente, não pode desligar-se a política pública de ambiente da ciência, e não é esse o meu ponto. O que não pode é ignorar-se que a adesão social, e por isso política, vai muito além disso e exige respostas e compromissos que vão muito além disso, e que estão a trazer o modo de vida, a qualidade de vida, o estilo de vida, para o debate político, sobretudo o debate político urbano, espaço físico para onde conflui a maioria da população.

O risco que a direita corre, neste âmbito, é duplo: o primeiro, mais evidente, é o de permitir por contumácia que o ambientalismo se confunda com o anticapitalismo, e de com isso quase convidar as novas gerações a ser contra um dos maiores fatores de progresso da humanidade - que foi mesmo o capitalismo; o segundo, tão perigoso quanto este, é o de se transformar num espaço político que tem problemas com a contemporaneidade, que não entende, e por isso perde, a sociedade dos nossos tempos.

Advogado

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