Supremacistas brancos versus grupos de defesa dos negros: desta vez o palco é Washington

Sem autorização para nova manifestação em Charlottesville, um ano depois de confrontos entre supremacistas brancos e contramanifestantes terem feito três mortos, a Unite the Right marcou o protesto para este domingo na capital federal. Polícia está em alerta para evitar violência com três contraprotestos.

O parque Lafayette fica a poucos metros da Casa Branca. É neste parque de Washington DC que este domingo o grupo Unite the Right convocou uma manifestação para reivindicar "os direitos cívicos dos brancos". O protesto assinala o primeiro aniversário de uma manifestação semelhante em Charlottesville, Virgínia, que terminou em violência após confrontos entre supremacistas brancos e contramanifestantes negros terem feito três mortos.

Sem autorização para protestar na Baixa de Charlottesville, o grupo liderado por Jason Kessler decidiu convocar os apoiantes para Washington. A polícia espera duas mil pessoas nas ruas, entre supremacistas brancos e contramanifestantes. Três grupos de defesa dos direitos dos negros também obtiveram autorização para protestar ali ao lado, na Freedom Plaza. Agrupados sob a bandeira Shut It Down DC, estes lançaram um apelo a que "todos os antifascistas e todas as pessoas de boa consciência" saiam às ruas no domingo em solidariedade.

Em alerta máximo, as autoridades da capital federal americana prometem fazer tudo para evitar que manifestantes e contramanifestantes se cruzem. O chefe da polícia metropolitana Peter Newsham anunciou ainda à Reuters que as armas estão totalmente proibidas durante o protesto, mesmo para quem tem licença.

"Temos pessoas a caminho da nossa cidade com o único propósito de cuspir ódio. Nós denunciamos o ódio, denunciamos o antissemitismo e denunciamos a retórica que se espera ouvir-se este fim de semana", disse o Muriel Bowser, a presidente da Câmara de Washington. Citada pelo USA Today, a autarca afro-americana, à frente de uma cidade de 700 mil habitantes, metade dos quais negros, garantiu que a cidade já ativou os sistemas de emergência e está em alerta.

Culpa "dos dois lados"

Há um ano, a 160 quilómetros de distância do parque Lafayette onde este fim de semana são esperados manifestantes e contramanifestantes, um protesto da Unite the Right terminava em mortes. Heather Heyer, uma técnica jurídica de 32 anos, morria após ser atingida por um carro conduzido por James Alex Fields Jr., um supremacista branco de 21 anos, entretanto acusado de homicídio em segundo grau. Este acelerou em direção aos contramanifestantes que denunciavam a mensagem racista da Unite the Right.

Dois polícias estaduais também perderam a vida quando o helicóptero em que seguiam se despenhou junto ao protesto.

Na altura, o presidente Donald Trump causou polémica e gerou críticas, tanto da esquerda como da direita, ao recusar culpar os supremacistas brancos pela violência, garantindo antes que a culpa era "dos dois lados".

Charlottesville bloqueada

Um ano depois dos confrontos que começaram devido a um protesto contra a retirada de uma estátua do general Robert E. Lee, comandante das tropas confederadas derrotadas durante a Guerra Civil americana (1862-65), Charlottesville não espera este fim de semana qualquer protesto organizado. A Unite the Right não obteve autorização para repetir a sua marcha, mas a Baixa da cidade da Virgínia não deixa de estar em alerta máximo.

Os veículos estão proibidos de circular na Baixa e mesmo os peões terão de passar por dois checkpoints. E se as armas não estão proibidas para quem tem licença, a polícia promete apreender tubos de metal, espadas, fogo-de-artifício ou mesmo pranchas de skate - todos considerados objetos potencialmente perigosos.

Depois da violência de 2017, as autoridades da cidade pediram ao Congresso da Virgínia que proibisse as armas em grandes eventos públicos, mas a medida acabou por ser chumbada pelos legisladores.

Depois das críticas de que foram alvo no ano passado por não terem travado a violência logo na raiz - quando surgiram os primeiros empurrões e murros entre manifestantes e contramanifestantes, os polícias de Charlottesville prometem não deixar nada ao acaso desta vez.

O governador Ralph Northam declarou o estado de emergência em Charlottesville e noutras partes do norte do estado da Virgínia. Uma medida preventiva, explicou, que permite mobilizar a guarda nacional e outras forças de segurança em caso de confrontos.

Quem é Jason Kessler e o que quer o ativista da alt-right?

Aos 34 anos, Jason Kessler é o homem por detrás dos protestos da Unite the Right. Formado em Psicologia pela universidade da Virgínia, o autor do blogue JasonKessler.net organizou o protesto de 2017 em Charlottesville e é agora o cérebro da manifestação em Washington.

O ativista da alt-right, um dos mais poderosos grupos da extrema-direita americana, garante que passado um ano sobre os acontecimentos de Charlottesville, a alt-right está muito diferente, tendo-se afastado da "obsessão doentia" com os judeus.

Em declarações ao The Christian Science Monitor , Kessler garantiu que este ano não quer armas, nem sprays de pimenta, nem cartazes antijudeus, negros ou muçulmanos. Muito menos quer no protesto imagens de suásticas ou confrontos com membros de grupos da extrema-esquerda, como o Antifa. O objetivo, explica, é apenas defender "os direitos cívicos dos brancos".

"Tenho explicado às pessoas que temos de abraçar a resistência não violenta, como Jesus Cristo ou o Mahatma Gandhi, porque é a única forma de contrariar o Antifa", explicou. E acrescentou: "Se respondermos, tornamo-nos os maus da fita."

Quem são os supremacistas brancos e neonazis na América hoje?

Condenados por políticos de esquerda e de direita, com a sua presença online limitada devido às restrições impostas por empresas como o Twitter ou Facebook que lhes bloquearam as contas ou a PayPal que lhes cancelou os pagamentos, os grupos de extrema-direira na América sofreram no último ano as consequências da violência em Charlottesville.

Mas os vários grupos que compõem a nebulosa, a que se chama quase indiscriminadamente extrema-direita ou supremacistas brancos ou neonazis, continuam a proliferar.

Eis alguns:

- O Ku Klux Klan, ou KKK, por exemplo, apesar de fundado em 1865 como um clube social por seis soldados confederados, rapidamente evoluiu para se tornar um grupo terrorista que intimidava, perseguia e matava negros no sul dos EUA após a abolição da escravatura na sequência da Guerra Civil americana.

Famosos pelos chapéus bicudos e vestes brancas que envergam nas cerimónias para esconder a sua identidade, os klansmen (os seguidores do KKK) foram perseguidos pelo governo, tendo o grupo ressurgido em 1915. Nos anos 20, espalharam-se por outras regiões dos EUA, juntando os cristãos e os judeus à lista dos seus alvos.

Mas foi nos anos 60 que se tornou mais ativo, protagonizando atentados mortíferos e espancamentos de ativistas negros e também de alguns brancos envolvidos no movimento pelos direitos cívicos dos negros.

Hoje estima-se que o KKK seja constituído por largas dezenas de pequenos núcleos, totalizando entre cinco mil e oito mil membros. Muitos deles, incluindo o ex-Grande Feiticeiro David Duke, apoiaram Donald Trump na corrida às presidenciais de 2016.

- Os neonazis, por seu lado, inspiram-se em Adolf Hitler, não escondendo o saudosismo da época nazi e apropriando-se dos seus símbolos, como a cruz suástica. O antissemitismo é a sua principal característica, apesar de também assumirem outras maiorias como alvo do seu ódio.

A Frente Nacionalista, um movimento que junta vários grupos de ideologia neonazi, defende o estabelecimento de um etno-Estado nos EUA e a erradicação dos judeus e de todas as outras raças.

Uma das suas maiores inspirações é o livro de William Luther Pierce, The Turner Diaries, escrito em 1978 e que terá servido de base para justificar vários ataques na América e no mundo.

- Os neoconfederados são também conhecidos como nacionalistas do sul e são saudosistas dos tempos da Confederação, quando 11 estados do sul esclavagista se separaram da União, levando à Guerra Civil americana.

Muitos destes neoconfederados gostariam de ver o sul dos EUA separar-se de novo, formando um país independente. Para eles, a guerra foi mais em torno dos direitos dos estados do que da escravatura e muitos acreditam que a religião cristã é uma das forças que os une.

- Supremacistas brancos e nacionalistas são também parte integrante destes grupos, referindo-se a todos aqueles que acreditam que todas as outras raças são inferiores aos brancos. Alguns fazem questão de evitar símbolos nazis, afastando-se dos neonazis.

Richard Spencer, que criou o termo alt-right, a direita alternativa, gostam de sublinhar que o supremacismo branco tem bases intelectuais, por exemplo. E o American Freedom Party, fundado por skinheads que queriam deportar todos os imigrantes e criar uma América para os brancos, até apresentou candidatos às últimas duas eleições presidenciais. Em 2016, tratou-se de Kenn Gividen, substituído a meio da corrida pelo seu candidato a vice, Bob Whitaker, que viria, ele próprio, a desistir meses antes do escrutínio, devido ao apoio dado pelo partido a Donald Trump.

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