As obras voltaram a Troia - à custa de pinheiros

A península de Troia chega aos 30 mil nos meses de verão. Os residentes misturam-se com os emigrantes, os estrangeiros e outros veraneantes, beliscando o sossego que os fez escolher aquele canto à beira-mar, há cerca de 30 anos.

O extenso areal que permite estender a toalha sem estar em cima do vizinho, o mar calmo que descansa os pais mesmo quando os filhos brincam em zonas sem nadador-salvador, os espaços verdes, são as vantagens de quem escolhe as praias de Troia. Mas há veraneantes e veraneantes. E quem fez ou comprou casa tem críticas a fazer.

"Fomos dos primeiros a morar aqui, somos dos que construíram as nossas casas", comenta um grupo de moradores da urbanização Soltroia, apenas um ainda está no ativo. Construir as casas significa terem comprado um terreno há mais de 20 anos, alguns há mesmo 30. Lotes em que depois construíram habitações de segunda residência e que os faz voltar à praia todos os fins de semana de verão, mas também nas férias do Natal e da Páscoa e noutros feriados.

É o caso de Fernando Beatriz, 71 anos, com residência habitual no Montijo e que comprou um lote de terreno na Soltroia há 29 anos, quando os amigos Jacinto Aleixo, 74, de Lisboa, e Augusto Almeida, 70, já tinham um ano de propriedade. Maura, 72, e João Pires, 71, no ativo, foram os últimos a entrar para o grupo, há 20 anos. Primeiro com as filhas, agora também com as netas Essling, a Alice, de 12, e a Laura, de 14. "Estamos na casa dos avós sempre que podemos, gostamos muito da praia e também de encontrar os amigos." Os avós também gostam, mas têm algumas arrelias com que se preocuparem. Uma delas tem que ver com os calabouços que estão a abrir para uma moradia mesmo em frente ao mar. Faz muito barulho e também pó. "O regulamento interno impede obras em agosto e aos fins de semana, o que é natural, é uma zona de descanso", protesta Maura Pires, 72 anos, de Setúbal.

O presidente da Câmara Municipal de Grândola responde ao DN que estão a cumprir a lei geral e que as questões do condomínio têm de ser resolvidas entre as duas entidades que fazem a gestão do espaço: a Aprosol - Associação de Proprietários de Troia e a InfraTroia (empresa municipal responsável pelas infraestruturas).

Voltou a construção

As conversas desde que começaram as obras são "o desembargo" das construções nas dunas junto à praia. E o corte de pinheiros, que também tem como função impedir a erosão das areais.

"A habitação tem licença de construção e insere-se num processo com uma longa história", começa por explicar o presidente da Câmara Municipal de Grândola, Figueira Mendes, acrescentando: "Esse lote faz parte de todo um loteamento cujos alvarás para construir se iniciaram em 1985 e terminaram em 1990. Duas ou três habitações foram construídas, mas, com a aprovação da REN [Reserva Ecológica Nacional], 14 lotes ficaram dentro do limite de reserva e os proprietários contestaram em tribunal por serem impedidos de construir. Em 2013, com a revisão do Plano Diretor Municipal de Grândola e, tendo em conta um decreto-lei de 2008 que permite a alteração do REN, foi delimitada uma nova zona de reserva e esses lotes ficaram de fora. Como decorria o processo em tribunal, houve um impasse, que foi desbloqueado em 2015, com um parecer do Tribunal Administrativo de Lisboa em como não havia obstáculos à construção."

A vivenda que agora inicia a construção faz parte desses lotes, estando nove por construir, informa o autarca. Já quanto aos pinheiros, sublinha que os proprietários dos terrenos só podem deitar abaixo os que ficam na zona de construção. E há mais duas novas urbanizações programadas para a zona.

Neste caso, foram cortados dois pinheiros, segundo disse o responsável da obra, que tem como alvará de licenciamento o n.º 60/18, com início da obra a 26 de junho de 2018 e o fim previsto um ano depois.

Para o grupo dos residentes, nada a contestar quando é legal, o que contestam é o barulho e o pó quando o tempo convida ao descanso, Aliás, entre eles há quem tenha vendido um lote no ano passado e que pertencia a seis pessoas, entre eles, os primos Fernando e Augusto. Fizeram questão de não vender uma parcela com três metros de largura para servir de passadeira para a praia a quem vive numa das pontas da urbanização.

Faltam acessos

É uma passadeira ilegal, sabem disso, mas a única legal está na outra ponta. "A praia tem um quilómetro e só há uma passagem, as outras duas estão ilegais, mas nunca mais fizeram passagens e esta é a única acessível aos idosos e pessoas com problemas de mobilidade. A única legal tem escadas", explica Jacinto Aleixo. Salienta que pagam uma renda de condomínio elevada, além de todos os impostos com a habitação, sem ter a correspondência a nível das acessibilidades e outros equipamentos.

Ao rol de protestos, Maura Pires junta um outro: "Neste ano não há caixotes do lixo, as pessoas é que são civilizadas, levam o lixo para casa, porque na praia não há recolha."

O acesso legal, os caixotes de lixo e, também, o nadador-salvador estão na praia Atlântica, uma frente de 20 metros, a única com os equipamentos necessários aos veraneantes.


Na Troia Mar, na outra ponta da península, junto ao rio Sado, são três as praias com acesso e vigilância. A família Leitão, o pai Luís, 59 anos, a filha Ana, 24, e a mãe Ana Domingues, 58, não dispensam a praia Bico das Lulas. Moram no Barreiro e deixam o carro em Setúbal, onde apanham o barco para fazer a travessia, uns dez minutos de viagem por cerca de sete euros por pessoa, ida e volta.

"As viagens sempre foram caras, mas preferimos pagar porque gostamos muito desta praia", justifica Ana Domingues. O Luís elogia: "É sossegada, a água é impecável, o ambiente é tranquilo, não há ondas, é muito bonito."

Qualidades que descobriram há mais de 40 anos, quando havia um parque de campismo e o ferry com os carros atracava onde hoje é a marina. Transformações que o espaço sofreu ao longo dos anos e que merecem o elogio da família, apesar de terem agora muito mais turistas na praia e no barco. "Gosto da transformação que fizeram, está muito engraçado", diz a Ana.

Quem faz a travessia do rio com o carro paga 20,10 euros por ida (27,90 ida e volta) e muitos passageiros acabam por ir até à Comporta, entre eles muitos emigrantes.

Ana Veiga, 60 anos, reformada, e a filha Paula Nunes, 42, professora, ainda não sabem se ficarão por Troia ou se irão até à Comporta, aproveitando as férias da filha que vive com a família em Abu Dhabi, a capital dos Emirados Árabes Unidos.

Viajam com o marido de Paula, Bruno Conceição, 40 anos, técnico da linha área nacional, e as filhas do casal, a Sofia, de 6 anos, e a Joana de 10. Explica a matriarca, já reformada: "Moro em Oeiras, mas a praia aqui é completamente diferente, muito maior. Estamos a aproveitar os últimos dias de férias para dar uma volta."

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