Água pela barba

Noé celebra o fim da quarentena indo viver sozinho para uma gruta, onde passa os dias todo nu e a embebedar-se com vinho artesanal, tal como Jesus ensinou.

A Semana Santa já foi um dos períodos mais importantes do calendário litúrgico televisivo. Tradicionalmente, era uma altura de recolhimento e ascetismo, durante a qual os fiéis se preparavam para a Reconciliação do fim-de-semana, simbolizada pelos seus sacramentos mais urgentes - a Ingestão do Ovo de Chocolate, a Disputa da Última Fatia de Folar - celebrando a partir do sofá a eucaristia do épico bíblico. Os catecúmenos eram baptizados na alegria de descobrir a separação das águas em Technicolor, e ouviam pela primeira de muitas vezes um tio-avô a explicar que a pega de caras em Quo Vadis era obra do forcado português Nuno Salvação Barreto. Os iniciados tinham tempo para reflectir sobre pequenos prazeres já familiares: ver homens de sandálias a correr no deserto, ou figurantes iluminados por holofotes a gritar "apedrejem-no!"; e também para contemplar o profundo enigma da consubstancialidade, em que uma única figura - Charlton Heston - podia ser simultaneamente Moisés (Os Dez Mandamentos), João Baptista (The Greatest Story Ever Told), e o fornecedor de água de Cristo (Ben-Hur).

Esses tempos penitentes fazem parte do passado. Tal como Babilónia, o emissor de Monsanto caiu, e o seu lugar ocupado por toda a sorte de pestilências e abominações digitais. Os canais terrestres limitam-se hoje a cumprir a quadra retransmitindo a infame produção do canal História sobre a vida de Jesus Cristo, na qual Diogo Morgado interpreta o redentor com o sorriso constante de quem está no Coliseu dos Recreios a agradecer um Globo de Ouro ("Obrigado, os milagres significam muito para mim, gostaria de dedicar este leproso curado ao meu agente"). No resto da grelha, espraiando-se vasta e plana como as areias do Sinai, é mais provável encontrar uma sequela dos Transformers do que uma reencenação do Calvário.

Mas os épicos bíblicos ainda existem, e o grande templo da Netflix permite encontrar um dos mais recentes. Noé, de 2014, custou apenas 130 milhões de dólares, e trata-se do dinheiro mais bem gasto desde que os romanos pagaram trinta moedas de prata por uma delação premiada.

A história começa, como vários livros da Bíblia, com uma exaustiva recapitulação genealógica - que vai surgindo no ecrã num tipo de fonte que parece Comic Sans. Adão e Eva geraram Caim, Abel e Seth. Caim matou Abel com uma pedrada nas trombas e iniciou uma linhagem que culminou na triunfante figura de Ray Winstone. O irmão menos interessante, Seth (versão hebraica de "Martim Afonso"), deu origem ao nosso protagonista, Noé, a última boa pessoa à face da Terra.

A primeira cena mostra-o a passear com o pai numa paisagem estéril e calcinada (muito semelhante à que ladeia a Estrada Nacional 221, que liga Castro Daire a Cinfães). O jovem Noé está a ser preparado para a idade adulta, mas a cerimónia é interrompida pela chegada de um bando de estranhos, descendentes de Caim, que prontamente pregam uma bofetada nos queixos ao pai de Noé e o deixam a largar molho no alcatrão. O jovem Noé foge, e lá consegue formar família. Os anos passam. A cena seguinte é quase uma réplica da primeira: Noé, agora com 600 anos, a passear com os filhos no mesmo cenário vulcânico, enquanto colhem bagas minúsculas para o jantar. Uma gota de água cai com estrondo na terra árida, como se tivesse sido largada de um B-52. Três caçadores aparecem, perseguindo o seu próprio jantar (que tem quatro patas). Noé, um vegetariano radical, não consegue salvar a criatura, mas avia o trio de esfomeados com uma valente carga de porrada. "O que é que tu queres?", pergunta um deles, enquanto se esvai em sangue. A pergunta é eminentemente razoável.

Noé começa a ser atormentado por visões e convence-se de que Deus se prepara para instaurar um processo disciplinar à raça humana. Mas Deus (que no filme inteiro é sempre referido como "o Criador") tem um plano para Noé e para a sua família e, na boa tradição do Antigo Testamento, não perde tempo em explicar esse plano da forma mais enigmática possível. Noé decide consultar o avô, Matusalém, e arrasta a família numa viagem longa através de montes de destroços e crânios esmigalhados, resultado de uma longa batalha entre o director de efeitos especiais e o seu Macbook Pro.

Quando chegam à montanha sagrada, encontram não Matusalém, mas Anthony Hopkins, que interpreta o papel de Anthony Hopkins. Noé pergunta-lhe como vão as coisas, e Anthony Hopkins responde "Anthony Hopkins", antes de lhe servir um chá de Anthony Hopkins com propriedades alucinogénicas. Noé compreende finalmente que a destruição do mundo vai ser provocada por um dilúvio, e que a sua missão é construir uma colossal arca de madeira num sítio onde não há uma única árvore.

A falta de matéria-prima, felizmente, é resolvida por Anthony Hopkins, que lhe entrega uma semente de Anthony Hopkins capaz de criar uma floresta em segundos. A empreitada segue a bom ritmo a partir daí, em parte por causa da ajuda de uma tribo de aglomerados rochosos com faróis no lugar dos olhos. Os aglomerados rochosos já foram anjos, mas o estatuto foi revogado pelo Criador devido a eles terem um bocado a mania. O segundo acto do filme é dedicado ao projecto de construção, e enquanto os adultos e os aglomerados rochosos se ocupam dos serrotes e dos andaimes, os mais novos andam a correr pelo bosque à procura de namoradas. O filho mais velho de Noé encontra uma (a ex-namorada de Harry Potter), mas o mais novo, Ham, não tem a mesma sorte e limita-se a espreitar as suas sessões de amasso atrás dos arbustos, enquanto tenta convencer os pais d que é imperativo encontrar alguém para acasalar. Isso é um problema, pois Noé convenceu-se de que o seu propósito é salvar os animais e extinguir a raça humana.

Quando a ex-namorada de Harry Potter anuncia que está grávida, Noé informa-a tranquilamente de que, caso dê à luz raparigas, não terá outro remédio senão matá-las.

Entretanto a construção da arca é concluída e a novidade chegou aos ouvidos de Ray Winstone, líder de um plantel de experientes violadores que passam o tempo a cometer algumas violações, mas que não têm grande vontade de morrer afogados. As hordas tentam assaltar a arca, mas são esmigalhadas pelos aglomerados rochosos. O dilúvio chega, permitindo ao realizador concretizar a sua ambição de se tornar o Terence Malick dos tsunamis.

O ambiente na arca é tenso, e as profundas diferenças ideológicas entre Noé (que quer que toda a gente morra) e os filhos (que querem ter imenso sexo) chegam a um ponto de crise, culminando no assassinato de unicórnios, na utilização de bolas mágicas para incendiar um bote salva-vidas, e no nascimento de um par de gémeas, que Noé não consegue assassinar porque a ex-namorada de Harry Potter canta uma canção de embalar. Quarenta dias passam, e uma pomba anuncia terra firme. Noé celebra o fim da quarentena indo viver sozinho para uma gruta, onde passa os dias todo nu e a embebedar-se com vinho artesanal, tal como Jesus ensinou. É um exemplo que todos poderemos seguir em breve.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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