A nova cultura do iPhone

Antes e durante a pandemia de covid-19, o uso dos smartphones tem gerado novos modos de entender o que vemos, ou não vemos, numa imagem. Ou como a cultura cinéfila já não é o que era.

Consulto a promoção online do mais recente modelo de iPhone. Encontro considerações sobre as variantes das respetivas lentes fotográficas: "teleobjetiva", "grande angular", "ultra grande angular". E leio um curioso esclarecimento: "Usamos um campo de visão mais aberto, para ver o que está a acontecer fora do enquadramento."

A cultura visual do iPhone - e, em boa verdade, de todos os smartphones de todas as marcas - fundamenta-se na ideia de que escolher um determinado enquadramento é apenas integrar "mais" ou integrar "menos" elementos na própria imagem. Desapareceu a noção de que enquadrar é, afinal, um ato seletivo que não se esgota numa mera contabilidade do visível, antes corresponde à construção de um ponto de vista.

Há outra maneira de dizer isto, que, entenda-se, não envolve qualquer juízo de valor decorrente do facto de sermos ou não utilizadores deste tipo de objetos (o autor deste texto usa um iPhone). É uma maneira que envolve, isso sim, o valor primordial da memória: a cultura visual dos smartphones é totalmente estranha à herança plural da cultura cinematográfica. O texto promocional desemboca mesmo num princípio estético associado à ideologia figurativa dos videojogos. Assim, não nos dizem, por exemplo, que ao vermos "mais" podemos ver "tudo", antes nos garantem outro tipo de totalidade, supostamente gratificante como nenhuma outra: "A imersão é total."

Não haveria modo mais direto, porque também mais perverso, de nos fazerem acreditar que as imagens já não servem para ver. A sua vocação é projetarem-nos numa alternativa de êxtases sem equivalente: o valor ancestral e crítico do olhar está desqualificado; produzimos imagens, não para ver mas para nelas "imergir".

Esta reorganização do labor dos olhares gerou um novo sistema de perceção. Veja-se a proliferação de imagens - smartphones, Skype, FaceTime, etc. - neste tempo de pandemia. Ninguém discute a oportunidade, a pertinência ou mesmo a urgência de muitas mensagens passadas através de tais recursos. Acontece que a dramática conjuntura que estamos a viver permite compreender que o nosso conceito de sociedade passou a existir menos através de um aparato de regras éticas e jurídicas e mais em função do sistema de comunicações que utilizamos (e não será necessário sublinhar que tudo isso é anterior à eclosão do covid-19).

De um ponto de vista cinéfilo - ponto de vista hiperminoritário, não tenho dúvidas sobre isso -, há alguns bizarros efeitos de normalização das imagens através do iPhone e, genericamente, dos smartphones. Chamar-lhe-ei a perda do gosto da abrangência do olhar.

Não é uma questão abstrata, antes a constatação de um fenómeno muito concreto. Assim, oferecem-nos a possibilidade de abrirmos o ângulo de construção de uma imagem ("ultra grande angular"), mas proliferam as imagens com o telefone em posição vertical. De novo em linguagem cinéfila: as possibilidades (e a beleza!) do chamado "formato largo" são ignoradas por muitos utilizadores. A postura do telefone "ao alto" obriga mesmo, quase sempre, a uma procura desenfreada de tudo aquilo que, desta vez, literalmente, não "cabe" no enquadramento.

A história do cinema lembra-nos que conhecemos James Dean através do "formato largo" da década de 1950, isto é, do glorioso CinemaScope. Ou que Lawrence da Arábia (1962) só faz sentido na esplendorosa amplitude das cópias de 70 mm. Não há nada de saudosista em tais referências. Encontramos a mesma sedução das imagens que exploram as mesmas proporções em filmes modernos tão populares como Seven (1995), de David Fincher, e Relatório Minoritário (2002), de Steven Spielberg, ou ainda nos desenhos animados de Ratatouille (2007), de Brad Bird.

Em 2018, Steven Soderbergh, autor de todas as ousadias e experimentações, realizou Unsane, com Claire Foy, extraordinário filme de suspense, precisamente sobre o modo como vemos e representamos a realidade (ou aquilo a que damos o nome de realidade). Era uma proeza tanto mais fascinante quanto a sua rodagem decorreu, a 100%, com um iPhone (modelo 7 Plus). Entre nós, não passou pelas salas, permanecendo "incógnito" nos circuitos televisivos, com o título Distúrbio. Sem imersão.

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