Premium Quem são os protagonistas do "Tea Party democrata"

Os rebeldes de esquerda ameaçam o establishment do Partido Democrata nas primárias para congressista ou para governador. Na quinta-feira pode escrever-se um novo capítulo em Nova Iorque, com a candidata Cynthia Nixon, a Miranda de O Sexo e a Cidade.

A Miranda de O Sexo e a Cidade foi a personagem que lhe deu mais fama, mas agora o palco é outro. Na quinta-feira Cynthia Nixon concorre com o atual governador do estado de Nova Iorque, Andrew Cuomo, nas primárias do Partido Democrata. O vencedor irá defrontar em novembro o republicano Marc Molinaro.

Se é verdade que as sondagens dão uma folga a Cuomo de 30 pontos percentuais, Nixon é encorajada pelas recentes vitórias de candidatos mais à esquerda do partido, que desafiam o establishment e a lógica eleitoral do partido. "Continuam a subestimar os candidatos rebeldes, principalmente candidatos que se estreiam", comenta a atriz que fez o papel de Nancy Reagan no filme Killing Reagan, do National Geographic.

Cynthia Nixon, de 52 anos, acusa Cuomo, que concorre para um terceiro mandato, de não representar a diversidade do partido e de estar demasiado alinhado com os conservadores e os interesses das grandes empresas.

O Partido Democrata é palco de uma luta ideológica entre candidatos com um discurso mais sóbrio - ou que têm Donald Trump como tema central, caso de Cuomo - ou a de um novo perfil de candidatos, alinhados mais à esquerda e que exigem para hoje o sonho da mudança da primeira campanha presidencial de Barack Obama.

A atriz e os seus partidários dão o exemplo de três nomes: Alexandria Ocasio-Cortez, Andrew Gillum e Ayanna Pressley.
O trio faz parte de candidaturas bem-sucedidas da esquerda do partido e as sondagens davam vitórias aos candidatos que desafiavam. A latina Ocasio-Cortez (autointitulada socialista democrática) e a afro-americana Pressley derrotaram os atuais congressistas democratas de Nova Iorque e do Massachusetts. Já Gillum, um negro, venceu as primárias abertas na corrida democrata a governador da Florida.

Gillum junta-se a Stacey Abrams, na Geórgia, e Ben Jealous, no Maryland: três candidatos negros a governador em novembro num país em que só dois foram eleitos na sua história (Douglas Wilder, na Virgínia, em 1990, e Deval Patrick, no Massachusetts, em 2006).

"É óbvio que a era dos políticos centristas negros está em declínio. O tempo dos progressistas negros está em ascensão (...) a velha ortodoxia política que permitiu aos democratas centristas negros dominar a política dos negros está a ser destronada", escreveu Melanye Price no The New York Times .

A ascensão da esquerda progressista não é apenas o produto de uma maior consciencialização e ativismo político dos afro-americanos. Por exemplo, na vitória da vereadora de Boston Ayanna Pressley para congressista: se é verdade que cativou o voto negro e jovem (tradicionalmente abstencionista), contou igualmente com os votos dos democratas brancos, que constituíam 55% dos votos registados.

"A mudança não pode esperar"

"Claramente o distrito eleitoral queria uma grande mudança. Ayanna Pressley vai ser uma boa congressista e digo-vos que o Massachusetts vai ser bem servido", afirmou o candidato derrotado, Mike Capuano, eleito para a Câmara dos Representantes desde 1998.

"Não chega ver os democratas de volta ao poder. Importa quem são esses democratas", afirmou Pressley aos seus apoiantes. Na noite de terça-feira, durante o discurso de vitória, a vereadora perguntou: "Estão prontos para levar a mudança para Washington?", ao que a multidão respondeu em canto "A mudança não pode esperar".

Semelhanças com o Tea Party

Ao Politico , dois republicanos encontram semelhanças entre o momento vivido no Partido Democrata, com as vitórias da esquerda, e o movimento Tea Party que tomou de assalto o Partido Republicano em 2010. Sal Russo, que trabalhou na equipa de Ronald Reagan, diz que de início não encontrava parecenças, mas agora vê os progressistas "muito mais focados". "Agora há uma agenda: acabar com o corte dos impostos, levar o sistema de seguros de saúde Medicare para todos e proporcionar ensino superior gratuito."

Howard Kaloogian, outro fundador do Tea Party na Califórnia, afirmou que o atual clima político do Partido Democrata, tal como para os republicanos em 2010, reflete um "sentimento anti-establishment".

No entanto, os democratas rejeitam a comparação entre a esquerda democrata e o Tea Party.

"Isto é apenas as bases a aparecerem", disse também ao Politico Michael Blake, vice-presidente do Comité Nacional Democrata. "As pessoas estão genuinamente entusiasmadas com Ayanna, com Andrew e com Alexandria. O sentimento de raiva não chega."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.