Baby boom: as guerrilheiras das FARC que trocaram as armas por bebés

Nas FARC só havia duas hipóteses: abortar ou entregar o bebé. A fotógrafa Catalina Martín-Chico retratou as mulheres que se tornaram mães depois de deixarem a guerrilha, com o acordo de paz assinado em 2016.

Aos oito meses, esta é a sexta gravidez de Yorladis, e a única que levaria até ao fim. Abortou nas restantes cinco. Afinal, é difícil imaginar uma guerrilheira com um bebé nos braços ou, mesmo antes da sua chegada, com tudo o que o corpo feminino atravessa até ao fim da gestação (e sobretudo no fim). Na última vez, abortou aos seis meses, e teve de enterrar o feto na selva, perto de uma tenda.

Membro das marxistas Forças Armadas Revolucionários da Colômbia (FARC), ela é um dos rostos do baby boom que se seguiu ao acordo de paz assinado com o governo colombiano em 2016. Acordo esse que veio pôr fim a um conflito armado de cinco décadas que matou 220 mil pessoas e que fez mais de cinco milhões de deslocados.

Até então, as guerrilheiras que engravidavam, apesar de as injeções com contracetivos serem habituais, abortavam ou entregavam os seus filhos. Foi o caso de Dayana, que aos 15 anos se juntou à guerrilha, deixando para trás o filho de quatro meses, que só recentemente voltou a ver, agora como o jovem de 19 anos em que se tornou e de cujo crescimento ela não teve qualquer notícia.

"Estas são as histórias das minhas raparigas. Aquilo", a guerrilha, entenda-se, "era mais importante", diz ao telefone a fotógrafa franco-suíça Catalina Martín-Chico (n. 1969). Autora da série Colombia, (Re)Birth , ela fixou estes rostos, e estas histórias, que agora mostra no festival de fotojornalismo Visa Pour L'Image, em Perpignan, França, até dia 16.

"Li um pequeno artigo num jornal que dizia que muitas mulheres guerrilheiras tinham engravidado. Comecei a fazer pesquisa em jornais colombianos para perceber se era um assunto, e depois fui, por minha conta, sem o apoio de nenhuma publicação. Nunca faço isso, porque não somos ricos." Mas naquela vez foi. Partiu de Paris, onde vive, em direção às zonas veredales da Colômbia, onde os guerrilheiros faziam a transição para uma vida nova.

"Os guerrilheiros das FARC iam entregar as armas no final de maio ou junho do ano passado. Eu queria ir antes de eles deixarem os uniformes, porque precisava de contar isto visualmente, para se ver que estas pessoas vivem na selva, eram guerrilheiros."

Nessa primeira vez em que visitou os campos, "as pessoas viviam em condições de guerrilha, isolados, na selva ou nas montanhas, tomavam banho todos juntos, e por vezes já só usavam metade do uniforme. Podíamos ver que as mulheres estavam grávidas, outras estavam mas ainda não conseguíamos ver".

Perguntamos-lhe se aquelas mulheres ansiavam por ser mães. "Parte delas queria, estavam frustradas por não terem conseguido ser mães nestes anos e por a maternidade ser proibida. Outras engravidaram só porque quando estavam na guerrilha vinham enfermeiras injetar-lhes contracetivos o tempo todo e depois deixaram [de o fazer]. Então algumas delas engravidaram assim." E ressalva: "Todas estavam muito felizes, mas para algumas apenas aconteceu."

Ao lado destas mulheres Catalina encontrou os pais dos bebés. "Estavam a viver com elas, também são ex-guerrilheiros. Todos se conheceram nas FARC. Juntaram-se à guerrilha quando tinham 10, 14 anos, e cresceram juntos." Hoje estas mulheres têm "entre 20 e 35 anos", explica a fotojornalista da agência Cosmos, com trabalho publicado no The New York Times, no Le Monde ou na Der Spiegel, e conhecida pelo trabalho que fez no Iémen ou pela série em que retrata os nómadas do Irão.

"Uma paisagem completamente diferente"

Voltou a encontrar ex-guerrilheiros em fevereiro deste ano, com a bolsa que lhe valeu ter o Canon Female Photojournalist Award, atribuído no ano passado no Visa Pour L'Image. Nos nove meses que separaram uma e outra viagem, Catalina e "as suas raparigas", como lhes chama carinhosamente, correspondiam-se sobretudo por WhatsApp, através de imagens e gravações áudio. Ainda hoje o fazem, aliás, apesar de algumas delas viverem em áreas muito isoladas, com pouca ligação ao exterior. "Durante aqueles nove meses criámos laços. Elas contavam-me a vida delas, eu contava-lhes a minha."

"Nenhuma delas é vitima das FARC, elas são as FARC. Dizem: 'Sim, fizemos abortos, numa guerra não há espaço para bebés.'"

"Na verdade, eu não reconheci o sítio", diz Catalina ao descrever o regresso àqueles campos que visitara em 2017. "Até havia uma estrada para lá chegar. Antes tinha de ir a pé. Metade tinha deixado os campos por outros lugares, em cidades, no campo. Tentaram construir uma vida nova, foram à procura das respetivas famílias, e começaram a viver com elas. Havia casas construídas, a comunidade já não tomava banho em conjunto, não havia armas. Era uma paisagem completamente diferente. Alguns estão a viver da agricultura, outros estão a tornar-se seguranças. Eles não estudaram..." E, claro, nessa paisagem agora tão diferente havia bebés, como mostram as fotografias de Catalina. Vemo-los a mamar, a tomar banho ou apenas a olhar para nós, como que a dizer "estou aqui".

A pergunta é óbvia: depois de terem os bebés nos seus braços, que relação têm estas mulheres com o seu passado? "Nenhuma delas é vitima das FARC, elas são as FARC. Elas sentem-se as FARC e estão orgulhosas das suas vidas, das suas escolhas. Dizem: 'Sim, fizemos abortos, numa guerra não há espaço para bebés.'"

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