Boca-River, o superclássico que Maradona comparou a dormir com Julia Roberts

Os dois grandes rivais argentinos vão discutir a partir deste sábado a final da Taça Libertadores. Em declarações ao DN, Javier Saviola garante que nenhum outro clássico no mundo tem a mesma atmosfera e paixão. São mais de cem anos de história, em que não faltam tragédias e episódios insólitos.

Fanático e ex-jogador do Boca Juniors, Leandro Paredes, argentino do Zenit, da Rússia, foi acusado esta semana de ter visto propositadamente um cartão vermelho para estar livre neste sábado e poder assistir ao superclássico do futebol argentino, entre o Boca e o River Plate, relativo à primeira mão da final da Taça dos Libertadores (às 20.00, em direto na SportTV3). Também esta semana, Maurício Macri, presidente da Argentina que já foi líder do Boca, admitiu que preferia um clube brasileiro na final para evitar três semanas sem dormir. "A equipa que perder vai demorar 20 anos a recuperar", atirou, meio a sério, meio a brincar.

Houve ainda uma televisão argentina que avançou que Vladimir Putin queria assistir ao jogo. E há poucos dias foi noticiado que uma discussão entre dois homens, a propósito do jogo, terminou numa enorme discussão e com um deles a pegar fogo à casa do outro. A expectativa e o mediatismo para este jogo até levou o guarda-redes italiano Gianluigi Buffon a pronunciar-se e a confessar por quem ia torcer: "Sou grande amigo do Carlos Tévez [jogador do Boca]. Perdemos uma final da Liga dos Campeões juntos e espero que ele agora possa fazer o seu povo feliz." Há também registos de casamentos, batizados e férias adiadas. E de centenas de bilhetes para o espetáculo de Roger Waters (este sábado, em La Plata) postos à venda em sites e nas redes sociais.

Estes são apenas alguns exemplos do fanatismo e da loucura em torno do Boca Juniors-River Plate da final da Libertadores, um jogo por muitos considerado o maior clássico do mundo. Mais do que um Real Madrid-Barcelona, um Lazio-Roma, um Al Ahly-Zamalek, um Fenerbahçe-Galatasaray ou um Nacional-Peñarol. Os dois clubes rivais de Buenos Aires, que têm um percurso centenário repleto de histórias e episódios nem sempre marcados pela positiva, vão defrontar-se pela primeira vez na final da Taça Libertadores (o equivalente à Liga dos Campeões sul-americana). A primeira mão é já este sábado, no La Bombonera, casa do Boca; o segundo jogo está agendado para o dia 24, no Monumental de Núñez.

"É sem dúvida o clássico mais importante do mundo. Pela paixão, o fervor, o fanatismo dos adeptos, o colorido do estádio e pela entrega dos jogadores. Não há comparação com outros grandes clássicos do futebol mundial. Os dias que antecedem um jogo entre o River e o Boca são vividos intensamente por toda gente. Há uma expectativa enorme e a Argentina entra numa completa roda-viva, numa verdadeira loucura", descreveu ao DN Javier Saviola, antigo jogador argentino do Benfica, que fala com conhecimento de causa: "Tive a oportunidade como jogador de participar em grandes clássicos. Em Espanha vivi o Real Madrid-Barcelona pelos dois clubes e em Portugal joguei pelo Benfica contra o FC Porto e Sporting. E garanto que não há comparação. São atmosferas completamente diferentes. O superclássico é um jogo especial para os jogadores que têm a sorte de o jogar e para os adeptos."

"No dia dos jogos, a Argentina e boa parte do mundo vai parar. Os superclássicos não são assim tão frequentes, e este, ainda por cima, decide uma taça, o campeão da América do Sul, o que o torna ainda mais mediático e extraordinário", concluiu Saviola, que se formou no River Plate e por lá ficou até 2001, ano em que se transferiu para o Barcelona. Entre 2007 e 2009 representou o Real Madrid e depois da capital espanhola para o Benfica, onde esteve três temporadas.

Em declarações à imprensa argentina, Gabriel Batistuta, que jogou nos dois rivais, fala de um jogo com muita história: "A nível de clubes, o Boca-River foram os jogos mais importantes e com mais paixão que joguei em toda a minha vida. É preciso perceber que a rivalidade entre estes dois emblemas confunde-se com a história de mais de cem anos do futebol argentino. O Boca-River é uma consequência do que aconteceu há mais de cem anos, não é um produto inventado pelos media. E os futebolistas que o jogam sentem isso."

River e Boca são ambos de Buenos Aires e foram fundados no mesmo bairro - La Boca -, respetivamente em 1901 e 1905. Anos mais tarde, em 1923, o River Plate acabou por mudar-se mais para norte da capital, para o bairro de Núñez. Aquilo que era uma rivalidade de bairro passou a ter também contornos de confronto social, porque o rival se instalou num espaço mais conotado com a classe média/alta da cidade. Desde a fundação que o Boca é um clube mais associado à classe operária, que ganhou a alcunha de xeneizes por ter tido muitos adeptos provenientes da comunidade imigrante italiana, sobretudo de Génova. Já o River ficou conhecido por Los Millonarios, precisamente por se ter mudado para o bairro de Núñez.

A expectativa em torno deste superclássico não está limitada à América do Sul. O Boca Juniors recebeu mais de 1800 pedidos de acreditação, de 25 países, para o jogo deste sábado. Todos os países da América do Sul pediram credenciais, mas também chegaram pedidos de Cuba, El Salvador, Estados Unidos, França, Itália, Espanha e Eslovénia. Um dos mais insólitos foi feito por um meio de comunicação social do Sultanato de Omã. Obviamente nem todos os pedidos foram atendidos.

Apesar de terem existido algumas tentativas no sentido de contornar a lei (até por intermédio do presidente da República argentino), as duas mãos do superclássico da Libertadores não vão ter adeptos visitantes. Ou seja, no La Bombonera não vão estar hinchas do River e no Monumental não vão estar adeptos do Boca. Esta lei foi criada em 2013 para pôr termo à crescente onda de violência nos estádios argentinos, que resultou em vários mortos em estádios ou nas imediações dos recintos.

A história deste clássico é feita de jogos históricos, de bom futebol, mas também de polémicas e episódios tristes. Um jogo sobre o qual Diego Armando Maradona fez um dia o seguinte comentário: "Já joguei um Barcelona-Real Madrid, mas um Boca-River é muito diferente. É como se o nosso peito inchasse. É como dormir com a Julia Roberts." O palco do primeiro jogo, já neste sábado, é o La Bombonera, um estádio que Pelé chegou a dizer que foi onde sentiu mais pressão em jogar e que Romário considerou ser "o lugar que mais se aproxima do inferno".

A rivalidade entre os dois clubes é tanta que chegou às equipas de sub-14. Em 2009, numa partida de jovens, uma decisão do árbitro levou a uma verdadeira batalha campal dentro do campo. Mas a maior tragédia de sempre entre os dois rivais argentinos aconteceu em junho 1968, com 71 mortos e 120 feridos, todos adeptos do Boca, a maioria menores de idade, que foram esmagados junto à porta 12 - por isso ficou conhecida como tragédia da porta 12.

Um dos jogos mais marcantes entre as duas equipas aconteceu em maio de 2015, na segunda mão dos oitavos-de-final da Taça dos Libertadores. Quando as duas equipas regressavam dos balneários para o relvado na segunda parte, adeptos do Boca lançaram gás pimenta na direção dos jogadores do River que se encontravam ainda no túnel. Os atletas tiveram de ser assistidos em pleno relvado, pois a maioria não conseguia parar de coçar os olhos. "Estão queimados, não podem jogar", avisou logo o médico. O árbitro esperou alguns minutos, mas deu por encerrado ali o jogo. Na secretaria, o River acabou por ser apurado.

Outro jogo histórico (provavelmente um dos mais emocionantes) entre os dois rivais realizou-se em 1997. No River Plate jogavam craques como Ayala, Astrada, Berizzo, Francescoli e Solari, numa equipa treinada por Ramón Díaz. Pelo Boca atuavam jogadores como Arruabarena, Riquelme e Latorre. Aos 29 minutos, o Boca vencia por 3-0 na casa do rival. Mas a equipa da casa foi buscar forças não se sabe bem onde e conseguiu empatar o jogo, com Ayala a marcar o terceiro golo muito perto do final. Tudo isto numa partida, à boa maneira de um Boca-River, que acabou com três jogadores expulsos.

Foi também num Boca-River que nasceu uma das imagens mais icónicas de sempre do futebol mundial: o beijo na boca entre Diego Maradona e Claudio Caniggia. A 14 de julho de 1996, na Bombonera, a equipa da casa goleou o rival por 4-1. Caniggia vestiu a pele de herói e marcou três golos. Mas o beijo em pleno relvado foi dado logo após o primeiro golo, da autoria de Basualdo, após assistência de... Caniggia.

Os dois emblemas viveram em determinados períodos da sua história situações mais delicadas em termos desportivos. O mais grave aconteceu com o River Plate, que a partir de 2009 entrou em declínio e acabou por ser despromovido à II Divisão, em 2011, naquela que é a página mais negra da história do clube. Até aí com 34 títulos de campeão, o River deixava de pertencer ao restrito clube das equipas que nunca tinham descido de divisão na Argentina, que ficou então limitado ao Boca e ao Estudiantes.

Pelos dois clubes passaram alguns dos melhores jogadores sul-americanos de sempre. Pelo River atuaram Di Stéfano, Mario Kempes, Daniel Passarella, Enzo Francescoli, Marcelo Salas, Hernán Crespo, Sorín, Mascherano, entre outros. Pelo Boca brilharam Diego Maradona, Riquelme, Palermo, Tévez, Batistuta, Burdisso e Caniggia. Alguns jogadores dos dois rivais chegaram a atuar em Portugal, casos de Javier Saviola, Pablo Aimar (River/Benfica) e Gaitán (Boca/Benfica); Lucho González, Radamel Falcao e Pizzi (River/FC Porto) e Facundo Quiroga (River/Sporting), Bruno Giménez e Jonathan Silva (Boca/Sporting).

Hoje, o Boca não tem Maradona, nem o River Plate Enzo Francescoli. Mas de um e outro lado há jogadores que podem fazer a diferença, logo à partida os mais experientes, como Enzo Pérez (ex-Benfica), Fernando Gago (ex-Real Madrid) ou Carlos Tévez (ex-Manchester United e City). A que se juntam talentos mais novos. No River Plate destacam-se o extremo Pity Martinez, que no jogo das meias-finais com o Grêmio saltou do banco para apontar o golo decisivo; Quintero, ex-jogador do FC Porto que renasceu e é o principal organizador de jogo da equipa. Ou ainda Santos Borré, o colombiano que é o melhor marcador da equipa na prova, e o guarda-redes Franco Armani, que foi decisivo com boas atuações no caminho até à final.

No Boca Juniors, Tévez ainda é a figura maior. Mas há mais craques, casos de Cristian Pavón, o extremo que mais desequilíbrios cria e que se diz estar muito perto de ingressar no futebol europeu. Há ainda Wilmar Barrios, médio defensivo colombiano que já foi associado ao Real Madrid e, claro, Dario Benedetto, o goleador da equipa, que esteve muito tempo afastado por lesão, mas que foi decisivo nos dois jogos das meias-finais com o Palmeiras, quando saltou do banco e marcou três dos quatro golos à equipa treinada por Luiz Felipe Scolari. Peça fundamental no Boca é também Pablo Pérez, o patrão do meio-campo.

A última vez que os dois clubes se encontraram na Taça Libertadores foi na edição de 2015, nos oitavos-de-final da prova. O River venceu por 1-0 no jogo da primeira mão e o segundo jogo foi interrompido devido ao lançamento de gás pimenta por parte dos adeptos do Boca aos jogadores adversários. O Boca Juniors já conquistou seis vezes a Libertadores (1977, 1978, 2000, 2001, 2003 e 2007); o River apenas três (1986, 1996 e 2015). Mas a nível interno, o River tem mais títulos de campeão argentino: 36 contra 33 do Boca.

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