Ricos vs. pobres, pessoas e países

Há dois anos, numa visita a Portugal que coincidia com o centenário da organização que dirige, Guy Ryder lembrava: "Não se esqueçam de que antes de a OIT nascer, em 1919, os operários trabalhavam 65 horas por semana" (título de uma entrevista publicada no DN). Mas apesar do balanço muito positivo do progresso dos direitos dos trabalhadores, o britânico acrescentava continuar a haver no mundo tanto trabalho infantil como trabalhos forçados, e, portanto, um século de cooperação internacional e de legislação progressista não chegou para acabar com esses flagelos.

Passados dois anos, e de volta a Portugal para a Cimeira Social no Porto, Ryder deu agora uma segunda entrevista ao jornal, já refletindo a análise que a OIT, sigla para Organização Internacional do Trabalho, fez da covid-19. E o título escolhido mostra bem a gravidade da situação que o mundo vive: "Impacto da pandemia no mundo do trabalho é quatro vezes maior do que foi em 2008 com a crise financeira".

E esse impacto chega sobretudo sob a forma do acentuar de desigualdades. Desigualdades sentidas no âmbito de cada país, com as mulheres, os trabalhadores jovens e as pessoas com baixos rendimentos a serem os mais afetados, assumindo boa parte da quebra estimada de 8,3% do rendimento global do trabalho; e desigualdades entre os países, pois, e cito Ryder, "no final do próximo ano, 2022, a expectativa é que os países desenvolvidos tenham recuperado, em termos de crescimento, até onde estavam antes da pandemia, e o resto dos países estejam 6% abaixo".

Ora, apesar do sucesso reclamado pela Comissão Europeia e pelo governo português em relação à Cimeira Social no Porto, estas desigualdades, e em especial as que aumentam o fosso entre países ricos e pobres, trazem desafios. Num contexto onde a xenofobia surge cada vez mais à luz do dia mas em que as migrações não dão sinais de parar, os desafios podem tornar-se ameaças para a construção de um mundo justo e em paz.

Volto à origem da OIT, que desde 1946 se tornou uma agência das então recém-fundadas Nações Unidas, para sublinhar que a sua criação em 1919 deu-se sob a égide do Tratado de Versalhes que pôs fim à Primeira Guerra Mundial e, pode ler-se no site da organização sediada em Genebra, "encarnando a convicção de que uma paz universal e durável não se podia construir sem ter na base a justiça social". Palavras, afinal, tão atuais. Não é o trabalhadores de todo o mundo uni-vos, é antes uma espécie de trabalhadores de todo o mundo respeitai-vos e não deixeis que os vossos governantes se conformem com que depois da pandemia se fique pior do que se estava antes.

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