Premium São José deixou de garantir urgência de cirurgia vascular todos os dias

Hospital é obrigado a assegurar 24 horas por dia urgência na especialidade de cirurgia vascular, mas ainda no sábado teve de encaminhar casos para Santa Maria. Ordem dos Médicos visita hoje o serviço, depois de denúncias em carta de demissão dos chefes de equipa.

As urgências de São José deixaram de garantir assistência 24 horas por dia a doentes na área da cirurgia vascular. Ainda no fim de semana, o serviço teve de encaminhar os casos desta especialidade para Santa Maria, denunciam fontes do hospital, que apontam a falta de médicos e enfermeiros como a causa para as falhas nas escalas.

A Ordem dos Médicos confirma a informação ao DN e vai hoje a São José para discutir com o conselho de administração os problemas denunciados por uma carta dos chefes de equipa de medicina e cirurgia geral. No texto tornado público no final da semana passada, e em que apresentaram as suas demissões, os 15 especialistas alertam para a falta de condições das urgências, que estão muitas vezes entregues a um interno e que ultrapassam "os limites mínimos de segurança aceitáveis para o tratamento dos doentes críticos que diariamente a ele recorrem".

Profissionais contactados pelo DN detalham agora alguns desses "limites mínimos" aflorados na carta. "Ainda no último sábado não tivemos cirurgia vascular, os casos estavam a ser encaminhados para Santa Maria. Isto já acontece há dois ou três meses e ainda foi agravado com a entrada em vigor da lei das 35 horas para os enfermeiros", garante um desses trabalhadores.

A mesma fonte explica que a situação é especialmente grave porque o São José é um hospital de fim de linha e um centro de trauma: ou seja, tem de garantir resposta 24 horas por dia, sete dias por semana, na área da cirurgia vascular - que trata doenças nas veias, artérias e vasos linfáticos, como aneurismas na aorta. "O potencial de risco é enorme, porque o patamar de doente complexo aumenta muito em relação a todos os outros hospitais." Sublinhe-se que esta é uma área diferente da neurocirurgia, onde o São José é um dos quatro hospitais da Grande Lisboa que garantem de forma rotativa as urgências aos fins de semana, nomeadamente a vítimas de acidente vascular cerebral.

O presidente da secção sul da Ordem dos Médicos, Alexandre Valentim Lourenço, confirma os problemas na cirurgia vascular e adianta que o mesmo se passa, por exemplo, em otorrino, "que está para fechar". Os especialistas usam ainda o recurso recente à telerradiologia para ilustrar a falta de profissionais no serviço. Nos cuidados intensivos, foram encerradas 15 camas, "mais do que as que têm alguns hospitais", destaca um profissional. O DN questionou o Centro Hospitalar de Lisboa Central sobre estas falhas, mas não obteve resposta até ao momento.

Equipa envelhecida

Na carta enviada à administração, os médicos alertam que "a diminuição dos recursos humanos não se tem verificado apenas nas equipas de medicina interna e de cirurgia geral, mas também nas restantes especialidades implicadas na assistência aos doentes que recorrem ao serviço de urgência". Um problema que podia ser ainda maior se os médicos que têm mais de 55 anos se recusassem a fazer bancos de urgências. Para se perceber o envelhecimento no corpo clínico, a média de idades no serviço está acima dos 60 anos e metade dos cirurgiões tem mais de 55 anos. Entre os chefes de equipa, não há mesmo nenhum abaixo desse patamar.

Para o bastonário dos Médicos, a situação no São José "espelha o que está a acontecer no país todo", com profissionais a trabalhar no limite, estimando que ocorram mais demissões noutros hospitais. Miguel Guimarães está preocupado nomeadamente com os relatos de internos a fazer urgência sozinhos, sem apoio direto de médicos especialistas, questões que espera ver esclarecidas na visita que vai fazer hoje ao hospital.

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