Premium O estado da nação ou a nação dos vários estados?

Nesta semana o Parlamento fará - como todos os anos - um balanço do Estado da Nação. E não é muito difícil de antecipar o debate, sobretudo quando estamos a um ano de eleições. O governo e o PS tenderão a olhar para o copo meio cheio. A oposição para o copo meio vazio. O Bloco de Esquerda e o PCP ficarão no limbo habitual: o que esta governação tem de bom é mérito deles. O que tem de mau é culpa do PS e, claro, da herança do PSD e do CDS. Não esperemos, por isso, grandes novidades.

O Portugal de 2018 é, em muitos aspetos, melhor do que o de 2017. A economia continuou a crescer, o desemprego continuou a cair, o défice é um dos mais baixos da história da democracia e parte substancial dos rendimentos que foram cortados durante a troika foram repostos. Mas um dos problemas mais graves - e mais antigo - do país continua por resolver: as desigualdades.

Esta nação não tem um estado, tem vários. Em função da classe social, da conta bancária, da zona do país onde se vive e até das escolhas de cada um. E se é verdade que é impossível resolver tantas desigualdades num só mandato, não é menos verdade que no último ano - para não dizer nas últimas décadas - o país pouco ou nada avançou em muitas áreas que deviam ser prioritárias.

A começar na saúde. Há um estado que defende um Serviço Nacional de Saúde livre, de qualidade e universal e outro que faz depender a saúde da nossa conta bancária. Um estado que, tantas vezes, atira todos aqueles que não têm seguro ou dinheiro para ir ao privado para a indignidade das salas de espera, dos corredores e dos quartos de alguns hospitais públicos. À espera daquela consulta ou daquele exame que foi pedido há meses e que ainda paga uma taxa moderadora, para evitar que lá voltemos muitas vezes.

Há um estado para os funcionários públicos e outro para os trabalhadores do privado. Um Estado que exige 35 horas semanais de trabalho a uns e 40 a outros, mesmo que depois não consiga dar resposta aos cidadãos nem tenha dinheiro para contratar mais gente. Há um Estado que se abstém de avaliar a produtividade dos seus funcionários e mesmo assim os promove em função dos anos de serviço. E um outro que enche a boca para exigir às empresas maior produtividade. Há um estado que quer combater a precariedade no trabalho e outro que contrata falsos recibos verdes... para o Estado.

Há um estado implacável a cobrar taxas, impostos e juros de mora. Que não perdoa um esquecimento e ainda ameaça com listas negras e tribunais a quem se atrasa. Mas depois há outro que paga quando quer, que se liberta a si próprio do pagamento de multas e de juros, mesmo que isso signifique asfixiar financeiramente um contribuinte ou uma empresa.

Há um estado para o litoral e outro para o interior. Um estado que passa a vida a falar na descentralização e outro que nunca se esquece onde estão os que verdadeiramente decidem eleições. Há um estado que reconhece nas tragédias da interioridade as falhas que cometeu nas últimas décadas, e outro que faz por esquecê-las rapidamente, preocupado que está em sobreviver politicamente.

Qual é o estado da nação? Continua a ser muito desigual. E se este é um debate importante - ainda que interminável - é ainda mais importante que, a um ano de eleições, o país comece a perceber as propostas de cada partido para combater as várias desigualdades que ainda temos. Que em vez de estarmos a discutir numa lógica de mercearia a ver quem dá mais, ou a teorizar sobre coligações pré e pós-eleitorais, estivéssemos a debater a reforma do Estado. Um slogan político que dura há vários anos, mas que nunca passou disso mesmo.

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