Telessaúde é uma prioridade mas o número de consultas já foi maior

Portugal é um dos quatro países do mundo com um plano estratégico para investir nas consultas à distância. A telessaúde tem sido uma das linhas de ação definidas pelo governo na área da saúde - até expressa no Orçamento do Estado -, mas o número de consultas do ano passado foi inferior ao de 2017.

Um atleta amador e campeão de pesca com doença pulmonar obstrutiva crónica voltou a correr, e um padre, com a mesma doença, conseguiu continuar a rezar a missa. Fizeram os dois parte do projeto de medicina de reabilitação à distância do Hospital Pulido Valente, em Lisboa. O atleta recebeu em casa uma bicicleta, uma pedaleira e um tablet por onde a fisioterapeuta o acompanhava, a ele e a outros três doentes em simultâneo. E o padre, um sensor para colocar no dedo e controlar os seus níveis de oxigénio, que usava mesmo durante a homilia. Dados recebidos, em tempo real, no hospital.

"É uma forma de chegarmos mais longe. Há pessoas que não conseguem vir todos os dias aos hospitais", explica Fátima Rodrigues, coordenadora da unidade de reabilitação do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (onde estão inseridos os hospitais Pulido Valente e o Santa Maria). Usam a telessaúde para monitorizar doentes crónicos, para sessões de fisioterapia e para dar consultas. Começaram em 2009 com um grupo de utentes com insuficiência respiratória, que levaram para casa um sensor ligado a um telemóvel por bluetooth para registar dados de oxigenação e a pulsação. E, segundo a médica, "deu logo para perceber que era uma ferramenta muito útil para prescrever as quantidades de oxigénio e os doentes serem mais bem controlados".

"Nas doenças cardíaca e pulmonar temos dados concretos que demonstram a redução dos internamentos. Mas a telemedicina pode ser usada em muitas áreas, até no processo de hospitalização domiciliária ou no desenvolvimento de resposta à população envelhecida. Nós ainda estamos muito aquém das respostas que podem ser dadas", sugere Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH). A aposta na medicina através da tecnologia é feita a nível nacional, mas os números das consultas não a acompanham. No ano passado, foram atendidos 27 706 utentes até ao final de novembro, quando em 2017 tinham sido 28 448, segundo dados dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, enviados ao DN.

"O que me parece é que esta matéria, nos últimos dois anos, não foi tida como prioritária, apesar de este tipo de estratégias poderem ser uma solução para vários problemas do sistema de saúde. Um exemplo claro é o acesso a consultas de especialidade, que podem reduzir os tempos de espera ou as barreiras geográficas", indica o presidente da APAH.

"Plano nacional não é implementado no terreno"

Portugal é um dos quatro países no mundo com um plano estratégico nacional dedicado à telessaúde (2019-2022) e a proposta de Orçamento do Estado para 2020, votada na generalidade no Parlamento nesta sexta-feira, prevê a implementação de mais tecnologias que permitam às unidades de saúde aumentar a oferta de cuidados à distância. As ações de incentivo à telessaúde preveem a inclusão dos cuidados de saúde primários e continuados nas "políticas de incentivos", a criação de uma "oferta estruturada e regular" de formação e qualificação dos profissionais de saúde, horários específicos para médicos e enfermeiros exercerem medicina através de um computador nos centros de saúde e hospitais, revisão legislativa e novas ferramentas de trabalho.

"A questão é que o plano nacional não é implementado no terreno. Não é só enunciar, é preciso desenvolver. A telemedicina tem de estar presente nos programas de cada doença: quando estamos a desenvolver um plano nacional de doenças cardiovasculares, temos de dizer que a monitorização remota de doentes com insuficiência cardíaca é uma estratégia e que vamos atingir mil doentes com esta patologia. Depois é preciso ter lideres clínicos que se dediquem e que criem equipas", aponta Alexandre Lourenço.

Atualmente, a maioria das consultas acontecem no norte do país, segundo informação disponível no Portal do SNS. A instituição onde é mais usado este método é a Unidade Local de Saúde de Matosinhos, seguida do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, onde está a equipa que Fátima Rodrigues coordena. Uma das teleconsultas mais antigas é a de cardiologia pediátrica e fetal do CHUC. Em 1998, já tinham sido realizadas 19 consultas.

Falta de regulamentação

O bastonário da Ordem dos Médicos tem defendido uma maior regulamentação da telemedicina nos hospitais portugueses. "A medicina à distância é uma questão que já existe, mas é nova. A regulamentação que existe nesse momento para a medicina à distância ainda é incompleta", alertava, em junho, Miguel Guimarães, em declarações à agência Lusa, na sequência da morte de uma doente examinada por telerradiologia no Centro Hospitalar do Oeste.

"Este tipo de incertezas causa algumas barreiras ao desenvolvimento deste processo. Estas tecnologias podem ser um caminho para reduzir barreiras geográficas e financeiras, mas têm de ser regulamentadas", indica Alexandre Lourenço.

A telessaúde prevê consultas em tempo real (quando profissionais e utentes fazem videochamadas) e em tempo diferido (quando os médicos estão a receber imagens via digital no hospital e a partir destas fazem recomendações aos doentes). A linha do SNS24 é considerada o maior serviço de telessaúde do país, uma vez que permite, entre outras coisas, fazer a triagem, o aconselhamento e encaminhamento na doença aguda não emergente, o aconselhamento sobre medicação não sujeita a receita médica, a marcação de consultas nos centros de saúde e pedir a isenção da taxa moderadora. O atendimento telefónico é feito por enfermeiros 24 horas por dia.

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