O título fala mais forte

Tem de caber tudo num título, insistem. Tudo o que for além do título perde-se, apaga-se, não interessa. E se não couber naquelas poucas letras, mais vale não avançar. E se o título não for bom, se for daqueles assassinos, daqueles que por desdém ou engano se encarrega de massacrar a mensagem, ainda é pior, mais vale não falar, não apresentar. E são estas as regras, a intensificar-se dia após dia.

Não se trata já de comunicar por títulos, de apresentar ideias com frases fortes, que com isso sempre nos conseguimos arranjar. Muita gente se queixou disto ao longo dos anos, mas não me custa perceber que os jornais o peçam ou que as pessoas o prefiram, e que nos caiba o esforço de resumir uma reforma ou uma proposta numa frase que a potencie.

Trata-se já de outra coisa muito distinta: trata-se de apenas decidir, ou apresentar, ou executar, ou governar, ou propor o que pode caber num título, e o título tem de ser bom. Tudo o mais fica para depois, ou para nunca, porque não podemos arriscar, porque em política já não há espaço para o que não cabe num título, porque o título mata, arruína, dissolve. Não é a comunicação que se resume ao título, é a própria da proposta, da reforma, de decisão que só vale se couber numa frase.

E tudo isto é já assumido sem contemplação, as regras do jogo, ou jogas ou sais. De que se fala? Dos títulos. O que se comenta? Os títulos. Há sempre quem entrecorte a exigência de títulos com o lamento sobre o estado a que isto chegou, a política e os políticos e as propostas e os programas, mas esse lamento serve para aliviar a consciência de quem, no fim do dia, não só procura e pede o título como critica, julga, quem propõe para além disso, quem se arrisca, quem não percebe que os tempos são outros.

Já ninguém perde tempo a ler ou a ouvir o que as pessoas dizem e propõem. E, pior, quem o faz, quem procura ir mais longe, é tido como alienígena, fora de tempo. Se não cabe no título, não serve. Se o título matou a ideia, descarte-se a ideia, que o título fala mais forte. E ficamos com os títulos e deitamos fora as propostas, um absurdo sem nome num tempo que os desafios que temos pela frente, marcados pela imprevisibilidade, obrigam a reformas e mudanças, e nenhuma delas cabe numa frase.

Não vai correr bem nem está a correr bem, porque só há duas consequências possíveis deste estado de coisas, e nenhuma é boa: ou a governação e a oposição e a legislação e regulação passam a resumir-se a declarações que enchem títulos mas pouco alteram, aprovando ora leis desnatadas ora leis platónicas, ou tudo o que interessa, tudo o que de facto é política e reformas e decisões, passa a ser feito às escondidas, sem publicidade, para não arriscar um título. Nenhuma das opções é boa, e é delas que está a ser feita a política.

Advogado

Exclusivos

Premium

Líderes europeus

As divisões da Europa 30 anos após o fim da Cortina de Ferro

Angela Merkel reuniu-se com Viktor Orbán, Emmanuel Macron com Vladimir Putin. Nos próximos dias, um e outro receberão Boris Johnson. E Matteo Salvini tenta assalto ao poder, enquanto alimenta a crise do navio da ONG Open Arms, com 107 migrantes a bordo, com a Espanha de Pedro Sánchez. No meio disto tudo prepara-se a cimeira do G7 em Biarritz. E assinala-se os 30 anos do princípio do fim da Cortina de Ferro.