Quem está mais forte? A que jogador ficar atento? Guia para o fim da fome de bola

FC Porto bicampeão? A reconquista do Benfica? Um Peseiro redentor no Sporting? Um Sp. Braga candidato? Luís Cristóvão e Pedro Bouças ajudam a olhar ao pormenor para a Liga 2018-19 e escolhem equipas e jogadores aos quais estar mais atento até maio do próximo ano.

Volta o campeonato, volta o nervoso miudinho para os adeptos do futebol em Portugal, ansiosos por começar a aferir no terreno as expectativas criadas ao longo do defeso. É altura de perceber se as equipas ficaram mais fortes ou não, o que valem os novos jogadores, a falta que faz quem saiu e também, inevitavelmente - desiludam-se já os ingénuos -, de renovar os debates e as polémicas que semana a semana condimentam a Liga portuguesa.

Entre os tradicionais candidatos ao título, cabe ao Benfica, em época internamente assumida como de reconquista - como atesta a hashtag utilizada em todas as publicações do clube da Luz nas redes sociais -, dar nesta sexta-feira (20.30, na Luz) o pontapé de saída na I Liga 2018-19, com a receção a um Vitória de Guimarães que, agora treinado por Luís Castro, se apresenta à partida como uma das equipas que geram maior curiosidade para a nova época.

Benfica-Vitória de Guimarães é o jogo de arranque da Liga 2018-19, nesta sexta-feira, às 20.30, na Luz.

Depois de uma época sem troféus, a equipa de Rui Vitória reforçou-se para tentar superar um FC Porto que voltou aos títulos com Sérgio Conceição, o treinador de mentalidade vencedora e futebol dominador que fez Pinto da Costa retomar o hábito de conquistas no Dragão, enquanto o Sporting tenta reerguer-se do caos em que mergulhou no final da época passada, com a crise diretiva e as rescisões de vários jogadores fundamentais, e o promissor Sp. de Braga de Abel Ferreira espreita a oportunidade de se intrometer esta época na luta pelo título desejada pelo seu presidente António Salvador.

Para ajudar a apresentar esta 85.ª edição do campeonato português, recorremos a dois analistas de futebol com presença regular nos media e ampla atividade nas redes sociais no acompanhamento do universo futebolístico.

Luís Cristóvão, coautor do podcast Linha Lateral e habitual comentador de futebol na Eurosport, e Pedro Bouças, treinador que já foi campeão nacional de futebol feminino ao comando do Futebol Benfica e fundador do blogue Lateral Esquerdo, lançam um olhar sobre o que esperar da maratona de 34 jornadas que agora começa e se prolonga até ao fim de semana de 19 de maio de 2019, respondendo aos temas lançados pelo DN.

Quem parte melhor na luta pelo título?

Para Luís Cristóvão, claramente Benfica e FC Porto. "O Benfica porque tem o plantel com mais soluções, o FC Porto porque tem a ideia de jogo mais bem definida", justifica.

Pedro Bouças tem "a sensação de que o nível dos três grandes está nivelado por baixo" e que "só no fim do mercado [de transferências] se pode responder com mais exatidão", mas "recuperando Krovinovic e mantendo Jonas, o Benfica tem um ligeiro ascendente", considera. "Embora no imediato não pareça uma equipa forte, creio que tem condições para crescer ao longo da prova com o emergir do talento de alguns dos seus jogadores", explica o autor do blogue Lateral Esquerdo.

Cristóvão inclui Sporting e Sp. Braga no lote de concorrentes que podem lutar pelo título, embora "o contexto do Sporting fragilize a equipa e faça com que tenha muitas decisões para tomar ainda". Já o Sp. Braga, "que cresceu muito ao longo da época passada com o Abel", será "num primeiro momento sobretudo candidato ao pódio, mas poderá solidificar-se como candidato ao título ao longo da época", diz, principalmente se não tiver um percurso muito longo (logo, mais desgastante) na Europa.

FC Porto. Campeão está mais forte ou mais fraco?

"Não é um FC Porto tão forte porque perdeu elementos de enorme qualidade, como o são Ricardo e Marcano. É uma equipa que tem jogadores que irão crescer ao longo da época, mas houve perda de qualidade", considera Pedro Bouças. E Luís Cristóvão concorda: "Neste momento inicial da época está mais fraco do que terminou a época passada."

Ainda assim, se o fecho de mercado em Inglaterra, nesta quinta-feira, ajudar a estabilizar o plantel - leia-se permanências de Marega e Brahimi -, o coautor do podcast Linha Lateral sublinha que o FC Porto "mantém-se muito forte". E identifica um "talento de nível mundial" entre os reforços portistas para a temporada: o defesa brasileiro Éder Militão.

"Há dúvidas sobre a posição para que foi contratado, se para lateral direito ou para o eixo central (defesa central ou médio defensivo), mas penso que tem melhores características para o corredor central, apesar de no São Paulo ter sido utilizado sobretudo como lateral", refere. A lesão de Mbemba (central ex-Newcastle), outro dos reforços, pode "acelerar esse processo de adaptação a central, o que me parece o melhor para ele e para o FC Porto", acrescenta.

De resto, a continuidade de Sérgio Conceição é, para Luís Cristóvão, "o grande trunfo" do FC Porto. "Nos últimos dez anos da Liga portuguesa ele terá sido o treinador que melhor partido tirou das limitações de um plantel entre os grandes. Partiu das fragilidades da equipa, e não das forças, para construir o sucesso", diz. E para este ano "mantém as mesmas condições, não foi premiado". Ou seja, "continua a ter um plantel curto e a ser obrigado a gerir as poucas soluções".

Pedro Bouças entende que "o trabalho que [Sérgio Conceição] fez na primeira época foi muito valioso". "Mas creio que para o FC Porto dar um salto para o nível seguinte precisaria de aproveitar melhor jogadores como Óliver e Corona, e para isso precisaria de ideias de um jogo menos vertical e rápido, o que não me parece que seja o que pretende o Sérgio". Por isso, prossegue, "embora tenha realizado um trabalho meritório e seja o grande obreiro do título, não creio que o treinador possa ser encarado como o trunfo principal".

Nos últimos dez anos da Liga, Sérgio Conceição terá sido o treinador que melhor partido tirou das limitações de um plantel.

O que falta nesta altura ao campeão, que entretanto já ganhou a Supertaça ao Aves no primeiro jogo oficial da época? Pedro Bouças identifica a necessidade de "um pouco mais de qualidade e quantidade nos jogadores do setor mais avançado". Luís Cristóvão aponta à lateral direita, onde "a perspetiva de Maxi Pereira a titular - o jovem reforço João Pedro é ainda uma incógnita e Éder Militão a lateral implica outra ideia de futebol - é uma perda de qualidade face a Ricardo Pereira", o titular da época anterior.

Benfica. Reforço para a reconquista?

Luís Cristóvão não tem dúvidas: a questão Jonas é, nesta altura, o ponto fundamental em torno do qual giram as expectativas no Benfica. "Foi o melhor jogador das últimas temporadas e pelo que se viu já do Benfica nesta época, como frente ao Fenerbahçe, continua a fazer falta no onze", justifica.

Pedro Bouças também salienta a importância do avançado brasileiro que arrebatou os corações encarnados nos últimos anos. "Saindo o Jonas, o Benfica terá sobretudo muitas dificuldades para vencer os jogos em que não se apresente a bom nível, porque o brasileiro resolve individualmente problemas de forma sucessiva. Caso não esteja, obrigará a que o Benfica seja mais capaz de criar coletivamente".

Questão Jonas à parte, os dois analistas consideram que o Benfica se "reforçou bem". "Sobretudo porque fez ali uma aposta no ataque, com as contratações de Ferreyra e Castillo, que permitem à equipa uma evolução notória em relação às opções da época passada", diz Luís Cristóvão. "Ferreyra é um avançado de grande qualidade", frisa Pedro Bouças, que aponta também "a chegada à equipa principal do Gedson" como um elemento que "ajudará a aumentar o nível da equipa".

Ponto de interrogação para ambos é ainda a qualidade de Odysseas Vlachodimos para ser o dono da baliza encarnada. "Está por perceber ainda a sua valia", avisa o fundador do Lateral Esquerdo. "Não sei se Vlachodimos foi contratado com a ideia de ser o titular. Vamos ver se não será um bocado curto para jogos de maior dimensão, contra os outros grandes e na Champions", questiona o comentador do Eurosport.

De resto, há a pressão aumentada sobre o treinador Rui Vitória, depois de um ano sem títulos em 2017/18. "Para quem esteve no Estádio da Luz [frente ao Fenerbahçe], é óbvio que o crédito de Rui Vitórias nas bancadas é muito curto", adverte Luís Cristóvão. "Esse é um problema com que ele tem de lidar neste momento: as bancadas não confiam nele."

"O Rui Vitória está obrigado a vencer. Se não o fizer, é praticamente garantido que não continuará no lugar. Tem condições para o voltar a fazer, mas precisa de fazer a equipa crescer rapidamente para que possa iniciar a Liga em bom nível. Porque, caso contrário, a intranquilidade que se vive nas bancadas da Luz, prejudicará a equipa", vaticina Pedro Bouças.

Qualidade de Vlachodimos para ser o dono da baliza do Benfica ainda levanta interrogações.

O que falta nesta altura ao Benfica? "Creio que ainda falta um lateral direito e um médio centro de inegável qualidade, porque o 11 do Benfica tem perdido qualidade de ano para ano", considera Bouças. "Falta garantir a permanência de Jonas e uma aposta mais segura quanto a guarda-redes", defende Cristóvão.

Sporting. Como reerguer do caos?

A crise diretiva, a debandada de jogadores, a (dupla) mudança de equipa técnica. A conjuntura do Sporting está longe de ser a mais aconselhada para um clube que se quer candidato ao título.

"Não havia uma forma fácil de enfrentar esta situação", reconhece Luís Cristóvão, que ainda assim, no meio do caos, salienta a boa notícia de se ter conseguido a "permanência/regresso de Bruno Fernandes e de Bas Dost, dois jogadores fundamentais". "A indefinição complica tudo. Acho que o Sporting tem jogadores que permitem formar uma equipa para lutar pelo título, mas ainda não tem essa equipa para lutar pelo título", desenvolve.

Já Pedro Bouças diz que, "ao contrário do que talvez se poderia supor, o Sporting recompôs-se de forma bastante rápida". "Conseguiu reunir um lote de jogadores de qualidade e, embora me pareça que faltem mais opções para compor o plantel, consegue reunir um 11 inicial capaz de se bater com qualquer equipa", analisa.

"Para uma época longa, efetivamente parece uma manta curta, mas com ventos favoráveis no que não é passível de se controlar (ausência de lesões, castigos e fadiga acumulada), poderá perfeitamente intrometer-se na luta pelos primeiros lugares", acrescenta o treinador.

Luís Cristóvão acrescenta aos pontos positivos o regresso de Nani, "um dos grandes reforços da Liga", pois mantém uma qualidade capaz de "marcar diferenças" no contexto da Liga portuguesa. E arrisca o nome do regressado Matheus Pereira como "peça importante" para este ano, após o empréstimo ao Chaves na época passada.

Aos comandos deste Sporting em reconstrução está José Peseiro, treinador que volta assim a ter uma oportunidade num grande, depois de passagens anteriores por Alvalade, há mais de dez anos, e Dragão, mais recentemente.

"Parece que a oportunidade aparece já um bocadinho fora de prazo. Não surge na sequência de qualquer bom trabalho recente, mas antes num contexto quase de missão impossível. Mas até por isso há pouca coisa a perder nesta aposta. Há tanta justificação possível para o caso de as coisas não correrem bem que não será o Peseiro o rosto de um eventual falhanço", observa Luís Cristóvão.

José Peseiro volta a ter, no Sporting, oportunidade num grande, depois de passagens anteriores por Alvalade e Dragão.

Bouças considera o técnico uma boa solução: "O José Peseiro conhece a nossa liga, tem experiência de clube grande e, acima de tudo, muita vontade de ser solução e não problema."

O que falta então ao Sporting nesta altura? "Tenho muitas dúvidas sobre a qualidade das laterais defensivas. No mais, o onze tem nível elevado", refere Pedro Bouças. "Sobretudo um médio para a posição 6 e também um lateral esquerdo de qualidade", aponta Luís Cristóvão.

Sp. Braga. Candidato ao título?

"Creio que sim. As perdas de Vukcevic e André Horta fazem muita diferença, e enfraquecem de uma forma geral a equipa, mas o Braga de Abel é neste momento a equipa mais bem trabalhada do ponto de vista coletivo em toda a Liga", defende Pedro Bouças sobre a legitimidade do Sp. Braga em sonhar com a luta do título.

Luís Cristóvão também confia nas capacidades da equipa minhota. "Parece ter mais opções ainda do que na época passada, tendo colmatado bem as saídas. Reforçou-se com jogadores como o Ailton para a lateral esquerda, Palhinha e Claudemir para o meio-campo, além do João Novais, um bom trunfo nas bolas paradas, mais um bom central que veio do Marítimo, o Pablo Santos", enumera sobre os reforços.

Mas é a figura do treinador Abel que mais atenções e elogios capta. "O trabalho dele demonstra bem que há ali uma vontade de criar uma identidade de jogo que valoriza os jogadores da equipa e a posiciona nessa luta pelo título. É possivelmente o treinador da história recente do Sp. Braga que está mais alinhado com o discurso ambicioso do presidente", refere o autor do podcast Linha Lateral.

"O Abel trouxe ideias novas e uma equipa com soluções coletivas em todos os momentos do jogo. Pelo crescimento que o Abel trouxe ao Sp. Braga, e porque nos três grandes parece ainda procurar-se elevar o nível, a equipa parte para a presente temporada como uma equipa a seguir de muito perto", acrescenta Pedro Bouças.

O resto do pelotão, com um destaque

Abaixo da luta pelo pódio, que outras equipas geram maiores expectativas à partida para novo campeonato? Desde logo, Luís Cristóvão e Pedro Bouças identificam uma equipa que faz crescer água na boca aos adeptos do bom futebol: Vitória de Guimarães.

"Há um sentimento quase unânime de expectativa em redor do V. Guimarães, não só pela contratação do Luís Castro como pela ação do clube no mercado, onde recrutou vários jogadores identificados como tendo potencial para um patamar mais alto", explica Luís Cristóvão, salientando naturalmente "a ideia de jogo que Luís Castro tem evidenciado nas equipas em que tem trabalhado".

Pedro Bouças reforça: "Quando se contrata Luís Castro, contrata-se uma ideia de competência e atratividade, e os próprios bons jogadores se mostram interessados em fazer parte do projeto, porque sabem que serão mais vistos e valorizados."

Além dos vimaranenses, Cristóvão destaca o Portimonense, também aqui pela ideia de bom futebol associada ao seu treinador, António Folha, um dos técnicos estreantes na I Liga [o outro é Cláudio Braga, no Marítimo]. "Fez um excelente trabalho na época passada no FC Porto B, representado na II Liga uma ideia de bom futebol semelhante ao que representaram Chaves e Rio Ave na I Liga. Agora, há a expectativa para perceber se Folha vai manter esse nível noutro contexto, na I Liga", justifica.

"Depois há o Chaves, do Daniel Ramos, um treinador muito ligado à ideia de um Marítimo defensivo, na época passada, e que agora passa para Chaves, onde se mantêm muitos dos jogadores que desenvolveram uma ideia completamente diferente com o Luís Castro na época passada. Estou curioso para ver quem vai adaptar-se a quê", interroga o comentador do Eurosport, que nomeia ainda "o Tondela, de Pepa, treinador que já fez um grande trabalho na época passada e tem tido grande evolução"

Pedro Bouças acrescenta "o Belenenses do Silas" - Belenenses SAD, que se transferiu para o Jamor após rotura definitiva com o Belenenses clube. " A um nível inferior, em termos de qualidade individual, relativamente ao V. Guimarães, poderá aproximar-se também das ideias de um futebol que valorize o jogador e o jogo. O Silas já provou ser capaz de surpreender positivamente pela forma como procura fazer diferente e impor um estilo próprio"

Figuras individuais. A quem há que estar atento?

Fora do universo dos quatro clubes de topo, onde os jogadores são já quase todos sobejamente conhecidos, Luís Cristóvão e Pedro Bouças elencam também uma lista de talentos aos quais convém ficar atento durante a temporada.

Cristóvão elege: Galeno, avançado brasileiro cedido pelo FC Porto ao Rio Ave; o defesa Maras e o médio Stephen Eustáquio, do Chaves; o médio David Simão, do Boavista; outro médio, João Carlos Teixeira, no V. Guimarães; e o guarda-redes Cláudio Ramos, do Tondela.

Bouças converge em duas das escolhas, Stephen Eustáquio e João Carlos Teixeira. E acrescenta outras: o avançado brasileiro Bruno Tabata, do Portimonense; os atacantes do Marítimo Jorge Correa e Joel Tagueu; o médio Chiquinho, do Moreirense; e o médio brasileiro Bruno Lamas, do Santa Clara.

Feitas as apresentações, só falta agora que a bola nos comece a surpreender. Afinal de contas, se tudo fosse previsível, o futebol não teria metade da piada, certo?

Programa da 1.ª jornada:

Sexta-feira
Benfica-V. Guimarães, 20.30. BTV
Sábado
V. Setúbal-Desp. Aves, 16.30, Spor TV 5
Marítimo-Santa Clara, 16.30, Sport TV 1
Tondela-Belenenses SAD, 19.00, Sport TV 5
FC Porto-Chaves, 21.00, Sport TV 1
Domingo
Feirense-Rio Ave, 16.00, Sport TV 5
Moreirense-Sporting, 18.30, Sport TV 1
Sp. Braga-Nacional, 20.30, Sport TV 2
Segunda-feira
Portimonense-Boavista, 20.15, Sport TV 1

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