Rui Horta: "A dançar é que sou mesmo feliz"

Passou de bailarino a coreógrafo muito jovem, e aos 60 anos estreou A Vespa, um solo em que se expõe totalmente. Nasceu em Lisboa em 1957 e começou a dançar aos 17 nos cursos do Ballet Gulbenkian de Jorge Salavisa. Aos 20 criou o Grupo Experimental Dança Jazz, foi para Nova Iorque, voltou, fundou a Companhia de Dança de Lisboa, uma escola, um coletivo. Em 1990 foi convidado para trabalhar em Frankfurt e quando voltou, dez anos mais tarde, instalou-se com os três filhos em Montemor-o-Novo, onde criou O Espaço do Tempo, no Convento da Saudação. Uma constante aventura de criação, sobrevivência, trabalho, trabalho, comunidade. Criou muitas coreografias, para "os melhores entre os melhores bailarinos". A Vespa é o contraponto de uma vida em que os outros são constantes, indispensáveis. Deem-lhe um microfone e desata a falar sobre a perfuração de petróleo na costa algarvia. Foi o que fez há poucos dias, quando recebeu o Prémio Gulbenkian de Conhecimento, diante do poder político. Onde é que ele é feliz? A dançar, também.

Ana Sousa Dias
Rui Horta no Convento da Saudação, em Montemor-o-Novo.© Carlos Santos/Global Imagens

Recebe há dias o Prémio Gulbenkian de Conhecimento. É um prémio de vida?

É muito especial. Claro que estou muito contente, tal como a minha equipa: é um prémio coletivo para O Espaço do Tempo, que fez 18 anos nesta semana. É a maioridade, é passar a ter responsabilidade civil, mas nós resvalámos para a maioridade aos três ou quatro anos de idade. O prémio reconhece um percurso e um tempo e também reconhece o tempo atual. Tivemos várias fases, o deslumbramento do regresso e da conquista, da chegada e da poética. Depois foram as naturais dores de crescimento e de ganhar densidade. Veio a fase da crise que nos tornou fortíssimos porque sobrevivemos, fizemos candidaturas, fomos buscar dinheiro a todos os países da Europa menos Portugal. Agora é a velocidade de cruzeiro e a questão é que não podemos banalizar-nos. É uma estrutura que está sempre a questionar-se, a inventar coisas novas, em descontinuidade e rutura, e o prémio reconhece isso. Mas pessoalmente nunca estou à espera de reconhecimento.

Porquê?

Quando fazemos isto nunca partimos para ser reconhecidos. Uma coisa é a arte e quando se faz arte é normal...

... querer as palmas?

Eu não sou um bipolar que necessita, como dizia o Kundera, de que o mundo todo me dê palmadas nas costas. Escondi-me atrás das minhas obras, como um serial killer. Mas há uma exposição, como um icebergue que brilha - esse é o que aparece nos jornais, dá entrevistas. Mas o meu trabalho n'O Espaço do Tempo é o trabalho da massa de gelo silenciosa que empurra o icebergue para a superfície - é a cultura. Sem cultura não há arte. A arte é a parte visível que brilha nos media, mas a cultura é completamente silenciosa. Uma pessoa não se mete a fazer uma coisa no Alentejo para ter visibilidade, mas para ter invisibilidade. Montemor é extraordinário porque é um espaço silencioso. Por isso lhe chamámos O Espaço do Tempo.

E aí é possível criar sem constrangimentos?

Para haver criação tem de haver uma distância crítica do fenómeno. Os fenómenos da criação, historicamente, são urbanos, na Grécia Antiga, nos egípcios, no Renascimento e até hoje, nas grandes cidades dos séculos XX e XXI. A arte precisa de distância crítica, de reflexão e Montemor é bestial porque deixas o telemóvel e só pensas na criação, acordas com as pessoas com quem trabalhas e vais por aí fora só a pensar na criação. Isto vai muito bem com o que os alemães chamam o zeitgeist, o espírito do tempo. Temos pouco tempo, a vida é tramada, as pessoas nas cidades têm vidas muito densas e de repente há ali ilhas criativas onde cristalizam todo o seu conhecimento, a sua criatividade e aparecem as criações mais improváveis. Isso é maravilhoso.

Têm recebido artistas de todo o mundo?

De todo o lado. Hoje vão chegar residências da Finlândia e de Portugal. De manhã estávamos a limpar os estúdios e a preparar o almoço. Temos a nossa maravilhosa cozinheira Maria, que faz comidas vegetarianas e vegan, com glúten, sem glúten. Fazer dez mil refeições por ano é um equilibrismo.

Conseguiram integrar-se com a população?

Temos uma equipa fantástica, sólida. A distância crítica é fácil de encontrar num convento que, já de si, é um sítio bom para a reflexão, não reflexão do sacral mas do transcendental, porque a arte é a coisa mais próxima do sagrado que temos. É o que não entendemos. Aquele espaço continua a ser perfeito, com comunicação no claustro e depois as partes de total intimidade.

Disse que está sempre a questionar-se. A contestação da perfuração petrolífera ao largo de Aljezur é isso?

Tem sido uma parte importante da minha vida. O que é isto de envelhecer? A vida é uma coisa que se vive, que está para a frente. Não vale a pena viver se não tivermos causas. Abracei esta causa porque não faz sentido transformarmo-nos numa potência petrolífera em pleno século XXI. Temos a serra de Monchique a arder. O que tem mandado aqui é o aquecimento descontrolado. Que sentido faz continuarmos a tirar aquilo que devia ficar debaixo do chão? Se tirarmos 20 por cento do que lá está, isto vai aquecer 1,5 a 2 graus. Deixemos lá estar, não vamos abrir novas explorações. Um país que arde desta maneira devia dar o exemplo, tal como é um exemplo nas renováveis. Este furo assume um bocado os contornos de Ferrel, da central nuclear, há 40 anos, quando o Adriano Correia de Oliveira e o Sérgio Godinho, toda uma geração de artistas e de militantes foi para lá - eu era um miúdo - e isso parou o nuclear em Portugal. Isto hoje é idêntico, temos de parar o petrolífero em Portugal e somos cada vez mais. Vamos lutar até ao último dia para que o governo caia na real e diga que não pode ser.

Estava a relacionar isso com a inquietação do criador. Tem agora um solo, A Vespa. Precisa de dançar?

Sempre dancei, embora não publicamente, tenho obras em dezenas de companhias e projetos independentes. Estar no palco é diferente de pôr pessoas no palco, é oposto até ideologicamente. Eu não tenho a necessidade neurótica de me expor.

Mas começou por ser bailarino.

Porque queria mexer-me, não foi por querer expor-me. Hoje o palco é um desafio para mim, um desafio existencial, uma espécie de prova de vida porque tenho 61 anos. Estreei no dia em que fiz 60 anos. É um desafio à minha capacidade física, intelectual, de sublimação das minhas dificuldades, do tempo que vivo. Estou a fazer A Vespa há um ano e tal, foram 30 espetáculos num ano. Tenho uma versão inglesa, outra portuguesa e agora uma espanhola porque vou estar em Madrid daqui a um mês. Isto de envelhecer tem de ser bestial, não pode ser uma tragédia. Se pensamos no fim, claro que a vida é uma história que acaba mal, mas não se pode viver assim. É preciso ter a capacidade de envelhecer ou, pelo menos, de viver com uma felicidade que é misteriosa. A Yourcenar dizia que o passado é um tição queimado. O que provoca combustão, o que vai fazer a chama é o que está para a frente, é preciso continuar a ter projetos.

E o que faz com o passado?

O problema dos nossos dias é que a maioria das pessoas não é construtora, é consumidora, e cai na armadilha de deixar de ter direito à memória. Um construtor exerce a memória como quer, de uma forma proativa. Para me lembrar da minha maravilhosa avó Felisbela, é só ao segundo ou terceiro dia de férias, quando estou calmo, em Sagres. Ela vem-me ao pensamento, mergulho na minha infância, numa data de memórias. A arte faz-te entrar nas memórias através da associação mental, não reflexiva, e consegues exercer o controlo. Um consumidor vive a escapar para a frente, apaga tudo. Aí a cultura é importante, porque desacelera o teu ritmo e abre o horizonte, passas a ser refletido.

A cultura é um meio de mudar a realidade?

Os políticos dizem que querem ter massa crítica e uma qualificação mas isso é uma enorme hipocrisia na maioria das vezes. Os políticos estão fartos das pessoas. Quanto mais opacas e menos cabeça tiverem, melhor para eles fazerem os seus jogos de poder. Não querem uma sociedade civil forte. O meu projeto de vida é lutar por uma sociedade civil forte em Portugal, seja na cultura - e O Espaço do Tempo é a minha ferramenta de trabalho - seja nesta luta contra o petróleo. Se nos habituarmos a estar juntos, a lutar e a pensar no país dificilmente seremos manipulados. É uma atitude de contrapoder.

Tem tido o reconhecimento, também do Estado.

Sou reconhecido pela sociedade civil, a Gulbenkian é da sociedade civil. É a beleza deste prémio. Quando recebi o Prémio Almada, do Estado [ex-Instituto das Artes], disse: "É bestial, mas renovem o convento, que nunca foi renovado." Foi tão importante ter o prémio como termos passado no crivo de uma candidatura anónima, como 600 pessoas fizeram, também da Gulbenkian. Acredito imenso na democracia. A democracia é difícil de exercer, é cara, é uma grande chatice termos de ouvir os outros, mas é tão mais perfeita... Nós vivemos uma democracia de serviços mínimos: és eleito e a partir daí fazes o que queres. Acordas e um dia está no jornal uma decisão que afeta a tua vida. Não pode ser assim.

Essa é a sua atitude, procurar soluções para os problemas?

Foi sempre, porque não tenho poder nenhum. Não tenho dinheiro, não tenho uma empresa, não sou um político. Sou um tipo com um pensamento de esquerda muito enraizado, o mais aberto possível. Só tenho a minha independência e a minha opinião. Só tenho esta vida e é assim que decidi vivê-la. É muito importante que cada cidadão sinta que faz a diferença. Temos um país incrível, com uma potencialidade enorme, com tudo. Só não usamos o que temos porque não o sabemos, e não saber é uma venda - está ali à nossa frente mas temos uma venda chamada ignorância e essa venda tem de sair. No dia em que não formos ignorantes e tivermos conhecimento e lhe juntarmos a nossa criatividade, estamos posicionados para nos lançarmos novamente, como na epopeia renascentista. Basta olhar para o mapa, ver a posição de Portugal no hemisfério norte: isto tem de dar dinheiro numa sociedade de hipermobilidade e de hipercomunicação. É sempre tudo complicado em Portugal porque a nossa classe política capturou o país, os cidadãos, e com isso capturou também a energia do país. Isto tem de mudar. Eu só faço o que posso, mas aproveito as oportunidades.

Quando está a dançar o importante é a técnica ou há um lado de felicidade?

Quando estou a dançar tenho duas fases. A fase de antes de entrar no palco e os primeiros dois ou três minutos, em que estou aterrorizado e penso - o que estou a fazer aqui? Até porque em grande parte do meu solo estou em cuecas, tenho uma exposição total. Depois daqueles primeiros minutos, eu sou um tipo mesmo muito feliz e vivo aquela comunhão, aquela noção de arte ao vivo, da live art, que é uma coisa bestial. Pode correr mal, pode cair, pode haver qualquer coisa que não funcione, posso esquecer-me, com a idade que tenho posso magoar-me. Essa beleza de poder ser a última vez dá muita força ao que eu faço hoje. Não acho que a arte tem de ser sacrificial, que temos de sofrer, para mim é um momento de hedonismo, mas claro que há um elemento de autocontrolo que me dá uma enorme força. Voltar ao palco foi a melhor decisão que tomei nos últimos anos. Passei tantos anos a criar para os outros, por uma vez crio para mim. Não é fácil porque criei para os melhores intérpretes da minha geração - bailarinos como a Olga Cobos, o Peter Mika, o Anton Skrzypiciel, atores como o Pedro Gil. Tive a sorte de pôr no palco os melhores entre os melhores. Pôr-me lá é quase um exercício de desfaçatez, num sítio onde pus outros que eram muito melhores do que eu. Ter de considerar esse passo foi difícil. Mas o que me surpreende é que continua a girar, as críticas são fantásticas, as pessoas vão ver e eu vou ter de parar o solo só porque o meu corpo há de dizer "para". Não sei se voltarei a estar no palco, porque me apetece imenso voltar mas não sei como. Já não tão fisicamente.