Premium Um país distante

As aves migratórias percorrem anualmente milhares de quilómetros em busca de alimento e de climas mais amenos, as enguias e os salmões sacrificam as últimas energias vitais para poderem desovar no mesmo local onde nasceram, só nós, humanos, nos damos ao trabalho de viajar e atravessar países e continentes em busca de um tempo perdido.

Cada um terá a sua geografia: o Algarve, as praias do Norte, o Minho, as serras da Beira, Moçambique, a Madeira ou o Brasil. O locus amoenus pode remontar à primeira infância, aos anos de escola ou à adolescência, mas para todos representa um tempo sem dor nem preocupações, um paraíso utópico, antes de mordermos a maçã, de pagarmos IRS ou de termos um plano para a reforma.

Há quem o faça anualmente e quem o tenha feito uma vez na vida, a pulsão é a mesma e o resultado igualmente dissonante, pois nenhuma distância física, por mais longa, por mais sofrida, poderá restituir o tempo em que fomos outros e olhávamos, sentíamos e amávamos de forma diferente. As casas ruíram ou foram-se degradando, as pessoas envelhecem, morrem ou partem, os nomes não correspondem à memória e os cheiros atenuam-se.

Das quatro coordenadas que balizam as nossas vidas há três que podemos controlar e uma que existe para nos fugir e sobre a qual não temos qualquer domínio. Todo o tempo é passado, bom ou mau, mas sempre fugidio. Não somos aves, nem enguias ou salmões, somos apenas homens e mulheres que ainda são meninos.

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