Falta alojamento para estudantes e o governo não quer saber

Já imaginou que queria ir estudar para o ensino superior e lhe pediam 500 euros por um quarto? Não precisa de imaginar. É isto que está a acontecer em Lisboa e no Porto sem que o governo tenha feito alguma coisa em três anos.

Aliás, o governo até fez. Propaganda e anúncios. Primeiro com uma linha de financiamento no Orçamento do Estado para 2018 que supostamente permitiria às instituições de ensino superior construir e requalificar residências estudantis, mas que não passou de uma norma do Orçamento do Estado. E em maio deste ano quando lançou um plano nacional de alojamento no ensino superior com a medida de haver alienações de edifícios a reabilitar a um fundo, que se mantém na categoria dos anúncios de intenções sem quaisquer concretizações.

Enquanto isso, chumbaram uma medida do PSD que propunha, além da construção e da requalificação de residências estudantis, a contratualização com autarquias, privados e demais entidades do arrendamento de espaços que já existam para esse efeito. Ou seja, para dar resposta à falta de camas para os estudantes deslocados no ensino superior.

Estudos apontam para que Lisboa tenha em falta dez mil camas e o Porto 3500. A consequência desta carência de camas em residências estudantis e da subida constante e tão a pique dos preços das casas e dos quartos nos grandes centros urbanos é que todos os anos alunos continuam a abandonar o ensino superior. Sem dinheiro para o alojamento, faz-se da mobilidade social, que em teoria deveria estar fortemente ligada à educação, uma utopia sem relação praticamente nenhuma com a realidade do país que temos. Faz-se do material de que é feito o nosso berço ou faz-se do tamanho da carteira dos nossos pais fatores que condicionam aquilo que cada um de nós poderá fazer ou realizar com os seus projetos de vida.

Daí que seja incompreensível que o governo nada faça para resolver esta situação, ao fim de três anos em funções. Fosse através da contratualização com as câmaras municipais ou com privados, mediante o pagamento das respetivas rendas, permitindo que mais camas pudessem ser disponibilizadas. Fosse baixando drasticamente a tributação dos senhorios, incentivando não apenas a que mais casas fossem colocadas legalmente no mercado de arrendamento, como a preços mais comportáveis do ponto de vista financeiro. São várias as soluções possíveis e que os próprios estudantes têm avançado, como foi o caso no último Encontro Nacional de Direções Associativas. Mas é fundamental que exista vontade política do governo para resolver, ou pelo menos mitigar, este flagelo que é não ter dinheiro para estudar no ensino superior.

Numa altura em que se prepara a apresentação do próximo Orçamento do Estado, em que diariamente se vê o leilão eleitoralista de medidas que estão a ser negociadas pelos parceiros do governo, ainda nada se ouviu sobre o alojamento para os estudantes no ensino superior. A ver vamos se continuaremos a ver as políticas do governo nesta matéria reduzidas a propaganda e a anúncios que nunca saem do papel.

Presidente da JSD

Ler mais

Exclusivos

Premium

Margarida Balseiro Lopes

Falta (transparência) de financiamento na ciência

No início de 2018 foi apresentado em Portugal um relatório da OCDE sobre Ensino Superior e a Ciência. No diagnóstico feito à situação portuguesa conclui-se que é imperativa a necessidade de reformar e reorganizar a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), de aumentar a sua capacidade de gestão estratégica e de afastar o risco de captura de financiamento por áreas ou grupos. Quase um ano depois, relativamente a estas medidas que se impunham, o governo nada fez.

Premium

Opinião

Angola, o renascimento de uma nação

A guerra do Kosovo foi das raras seguras para os jornalistas. Os do poder, os kosovares sérvios, não queriam acirrar ainda mais a má vontade insana que a outra Europa e a América tinham contra eles, e os rebeldes, os kosovares muçulmanos, viam nas notícias internacionais o seu abono de família. Um dia, 1998, 1999, não sei ao certo, eu e o fotógrafo Luís Vasconcelos íamos de carro por um vale ladeado, à direita, por colinas - de Mitrovica para Pec, perto da fronteira com o Montenegro. E foi então que vi a esteira de sucessivos fumos, adiantados a nós, numa estrada paralela que parecia haver nas colinas.