Argentina Santos: "Tinha de fazer a comida. E depois descia para cantar"

Argentina Santos é a voz mais antiga do fado. Agora vive na Casa do Artista, com mais tempo para recordar os dias na sua Parreirinha de Alfama e como se fez fadista por acaso, entre a cozinha e o palco.

Porque é que a Argentina Santos fecha completamente os olhos quando canta? A resposta vem evasiva, cortante: "Normalmente canta-se com os olhos fechados." Pouco convincente. Repete-se a pergunta, na segunda visita à Casa do Artista, onde vive. "Era para me concentrar. Fosse onde fosse. Não via ninguém."

Argentina Santos, 94 anos, é hoje a mais antiga voz do fado e o eterno rosto da Parreirinha de Alfama, onde ainda se ouve fado e o jantar é feito "à moda da tia Argentina". Por ali passaram Amália Rodrigues, Marceneiro, Lucília do Carmo ou Celeste Rodrigues. É provável que quem já a escutou cantar fados como Duas Santas ou Vida Vivida se espante ao ouvir que antes daquele dia na Parreirinha, em que soltou a voz numa desgarrada - "cantei por cantar", recorda -, nunca antes tinha cantado. Como se pode ter aqueles agudos e não saber deles?

"Não dava tempo. Nunca pensei vir a cantar." Não dava tempo porque aos "8, 9 anos" Argentina já trabalhava. Deixou a Mouraria para ir sozinha para Alfama. "Foi uma vida de trabalho. Fazia aquilo que me mandavam fazer, o que eu podia fazer. Lavar a loiça, arrumar uma casa, pôr as coisas nos seus lugares. Eu passava mal." Como não pôde ir à escola, foi analfabeta até aos 18 anos. "Aprendia as letras. Liam-me e eu aprendia, olhava para as palavras." Começou a interessar-se pela leitura? "Não, não, era só para o que precisava." Era rápida a decorar os poemas. "Cheguei a apanhar letras uma hora antes de as cantar."

Muitas das letras que cantou foram escritas pelo seu companheiro, Alberto Rodrigues, dono da Parreirinha desde os anos 1950, e a quem a fadista haveria de suceder à frente da casa em 1963, depois da sua morte. "Quem mais escrevia para mim era o homem com quem eu vivia, ele escrevia muito bem. Lia-me a letra e eu dizia: "Esta não dás a mais ninguém, é para mim.""

A rotina da Parreirinha

Só teve dois grandes amores, diz. Alberto e o homem com quem viria a casar-se depois, que não gostava que Argentina Santos cantasse. "Era um feitio que não se compreende." Mas ela cantava, e fazia-o o mais das vezes na Parreirinha de Alfama, o seu palco por definição, onde vinham para a ouvir e para comer o que cozinhava.

Pedimos-lhe que fale da relação entre as duas coisas, o fado e a cozinha. "É o nosso espírito. Sinto muito a cozinha. Fico radiante quando canto e levo palmas e fico na mesma quando cozinho bem. Cheguei a ter casa cheia e eu a cozinhar. Depois descia para cantar, e voltava. Para se fazer uma casa tem de se trabalhar muito. E tem de se ter muito cuidado para não a deixar estragar-se. Trabalhei muito ali." No dia seguinte à noite de fados, de manhã bem cedo, saía de casa para o Mercado da Ribeira. Fazia questão de ser ela própria a escolher tudo, da fruta ao peixe. Dormia um pouco à tarde. E depois recomeçava tudo outra vez.

"As pessoas iam lá para me ouvir e isso fazia-me confusão: como é que iam lá só para me ouvir?" Porquê confusão? "Era a pouca vivência que eu tinha com o fado. Dava gosto, mas eu chegava a chorar com medo de me enganar ou de não estar bem. [Às vezes] ia muita gente para me ver e eu não cantava. Nem todos os dias a gente tem espírito para cantar. Tinha medo de não estar bem, e dizia que não estava bem. Escusavam de teimar comigo que eu não cantava."

Já cozinhar era diferente. Cozinhava sempre, e entre uma coisa e outra se fez fadista. Fez-se? "O fado nasce com a gente, e depois ganha-se calo, como noutra coisa qualquer, como cozinhar, como uma boa modista, que pensa sempre em fazer melhor." Seria fácil pensar na própria Argentina Santos em Vida Vivida: "Volta atrás vida vivida/ Para eu tornar a ver/ Aquela vida perdida/ Que nunca soube viver." Perguntamos-lhe se aquele fado fala de si. Abana a cabeça, mas ressalva: "Gostava de todos os fados que cantei."

Argentina Santos costuma dizer: "Não sei se canto se rezo." Pedimos-lhe que explique: "É a maneira de cantar. Eu só cantava aquilo que me dizia qualquer coisa. Muitas vezes cantava com vontade de chorar, sentia-o como se fosse meu." E continua: "Quando eu sentia mais agarrava-me ao falsete e ia por aí fora." Ninguém lhe ensinou a fazer aquilo. "Não, era eu que sentia." Diz que é religiosa e perguntamos-lhe se vê o cantar como um dom. "Vejo. Sempre trabalhei muito, e era triste." E a cantar não? Abana a cabeça.

Apesar de a Parreirinha ter sido sempre o seu núcleo, Argentina Santos pisou outros palcos, bem maiores, como do Coliseu dos Recreios. Deve-o em parte ao seu grande amigo Carlos do Carmo, que conheceu criança. Atuou em diferentes palcos mundo fora. Aliás, conta a sobrinha Elisabete que recentemente encontrou o fadista Hélder Moutinho, que recordava o dia em que, por causa de um concerto em Itália, Argentina Santos comeu pela primeira vez um hambúrguer e gostou.

E Celeste Rodrigues, que até à sua morte, em agosto último, era a voz mais antiga do fado? Além do convívio na Parreirinha, participaram no espetáculo Cabelo Branco É Saudade, dirigido por Ricardo Pais, também com Alcindo de Carvalho e Ricardo Ribeiro. "Convivia muito bem com ela e gostava mais dela como pessoa do que como fadista", responde. Uma vez disse temer que o fado desaparecesse, quando quem o cantasse já não sentisse o que dizia. "Agora não acho isso porque o fado levou uma volta e apareceram umas pequenas a cantar fado e a cantar bem." Pedimos nomes. Vamos por tentativas. Carminho é uma delas. Nas vozes masculinas, Camané.

Argentina Santos diz-se contente com a carreira que fez. "Nunca aproveitei as palmas que me deram, as coisas que diziam de mim, nunca aproveitei; porque as pessoas falavam de mim e diziam coisas bonitas, mas para mim era igual", diz. Qual era a coisa mais bonita? "Era dizerem bem do que eu cantava."

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