Trump, falsidades e a importância da universidade

Catarina Carvalho

Talvez não seja suficiente. Talvez seja, até pelas razões erradas, demográficas, por exemplo. Mas vamos focar-nos nas coisas positivas: é ótima a notícia de que mais de metade dos jovens com 18 anos estão na universidade - ou outro tipo de ensino superior que genericamente designamos por esse nome.

É a primeira vez que isto acontece e só por isso já podíamos dizer que esta será uma geração melhor do que as outras - e, esperemos, pior do que se lhe seguir. Porque frequentar o ensino superior pode não ser a panaceia, mas augura muita coisa boa - segundo dados objetivos que hoje publicamos. Desde logo, uma vida melhor, com melhor salário, menos desemprego .

Isto é ainda mais verdade em Portugal, onde a pobreza é larga e a desigualdade a acompanha. E onde a ascensão social, ou, vá, a mobilidade social, depende objetivamente mais do ensino do que de outra variável qualquer. Até pelas condições, piores, das gerações anteriores - o que é basicamente uma tautologia: é na faculdade que os que não têm pais ou famílias onde beber a sapiência vão buscar a maior parte do seu conhecimento.

O que fazem com esse conhecimento é verdade que é outra conversa. Mas desenganem-se os que confiam ainda no mito do self-made man ou woman e perseguem esses sonhos irrealistas. O mundo está complexo, em vários sentidos. E não há empreendedor, inventor, líder, de startup ou de grande empresa, pessoa que possa crescer e atingir o sucesso, sem estudar - e muito.

Esta noite foi muito importante para os que chegaram até aqui - e será uma das mais importantes das suas vidas. Esta é também uma época muito importante na vida do ensino - um recomeço das aulas é altura para finalmente falar do que importa mesmo. Dos estudantes em vez dos professores. Do ensino em vez das escolas. Ou das greves - a não ser que haja um Orçamento complicado para negociar. Das ideias em vez da politiquice. Os dados que hoje divulgamos mostram porque seria tão importante reverter estas prioridades mediáticas - e qualquer jornalista deve fazer um mea culpa sobre este assunto.

Até porque há algo mais importante do que meras histórias individuais de sucesso para a necessidade de continuar a alargar e a democratizar o ensino de alta qualidade, e a sabedoria das universidades. Raramente como hoje a informação esteve tão difundida, e raramente como hoje foi tão necessário distinguir o conhecimento da informação.

O trigo do joio, a verdade da mentira, ou, como diz um profundo conhecedor da matéria, o fundador da Wikipédia, Jimmy Wales, em entrevista, separar a verdade dos factos das irrealidades e misticismos. "Todos temos de desempenhar o nosso papel", diz ele. E o das universidades - e das escolas - é enorme.

É por tudo isto estranho e desanimador que qualquer negociação relativamente à educação no Orçamento do Estado se limite a esticar, ou não, o valor da progressão nas carreiras dos professores. Progressão essa que é sempre feita apenas por antiguidade - que ninguém se engane com os arremedos de avaliação que resultam numa banalização dos bons e na quase inexistência de notas mais baixas.

Neste que se anuncia como o braço-de-ferro mais difícil do outono de negociações, era refrescante ver algo de criativo a pesar no investimento, algo que verdadeiramente tivesse como objetivo melhorar o ensino e a aprendizagem, algo que oleasse o elevador social - e tivesse como objetivo o progresso e o saber.

Nada devemos tomar por garantido, e é essa a maior lição do que está a acontecer do outro lado do Atlântico. A disrupção provocada por uma presidência caótica e um presidente com pouca aderência à realidade e respeito pelos factos atinge todos os setores da sociedade. A ciência, o ensino e, até, o próprio sistema democrático.

Aquilo que nesta semana veio escrito no artigo do funcionário anónimo da administração Trump é a mais perfeita descrição de um golpe de Estado. O facto de o desculparmos por acharmos que estamos do lado certo desta história não nos deve senão inquietar ainda mais.