O melhor da rentrée literária há de vir lá para novembro

A falta de leitores não impede a multiplicação de novos livros a pensar no Natal, mas a aposta em ficção nacional fica-se pelos registos e nomes tradicionais. Na ficção estrangeira, há duas esperanças e ambas chegam em novembro: o inédito de Lucia Berlin e a tradução de Jonathan Littel.

João Céu e Silva
Hélia Correia© Orlando Almeida/Global Imagens

Um Bailarino na Batalha, Editora Relógio d´Água

Hélia Correia e o expatriamento

Tudo leva a crer que o romance de Hélia Correia seja a leitura marcante da rentrée literária nacional. Romance tão contemporâneo como intemporal, no qual se narra a travessia no deserto que, segundo a autora, é a tragédia do expatriamento a que o mundo assiste nos anos mais recentes. A perda do chão natural e a reconstrução possível da vida surgem na narrativa crua de Um Bailarino na Batalha, numa leitura quase bíblica dos acontecimentos.

Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco, Porto Editora

O novo romance de Richard Zimler

Duas personagens que escaparam ao Holocausto confrontam-se com fantasmas que os atormentam em seis situações. Segundo o autor, é uma ode à solidariedade, ao heroísmo e ao tipo de amor capaz de ultrapassar todas as barreiras.

Outras novidades, Várias editoras

Livros de repetentes anuais e bissextos

O regresso periódico dos autores portugueses tanto pode ser anual como mais bissexto. Entre os primeiros, Afonso Cruz vai publicar um novo romance, ainda sem título, sobre um pai que conta a sua vida a uma filha que não conhece nem fala a sua língua. Alexandra Lucas Coelho edita A Nossa Alegria Chegou, sobre um pacto entre amigos para fazer uma revolução num tempo futuro. Em outubro é a vez do regresso do escritor António Lobo Antunes, com A Última Porta antes da Noite, leitura de um crime que aconteceu em Portugal. Entre os mais bissextos, destaca-se o regresso do vencedor do Prémio Leya Afonso Reis Cabral, com o romance Pão de Açúcar, recriação ficcionada de um caso de violência juvenil. Dulce Maria Cardoso volta com Eliete, uma história em torno da protagonista que dá título. Djaimilia Pereira de Almeida lança o romance Luanda, Lisboa, Paraíso, em que trata da identidade e das relações familiares. Entre os autores lusófonos, Pepetela publica Sua Excelência, de Corpo Presente, que refaz os pensamentos de um ditador africano no seu velório.

Uma Velha História, Editora D. Quixote

Jonathan Littell refaz original de 2012

Após o sucesso mundial de As Benevolentes, Jonathan Littell pega numa sua curta narrativa de 2012 e reescreve-a sob forma obsessiva em sete capítulos, sempre com o mesmo início de um narrador que sai de uma piscina, variações em torno do mesmo tema. Um nadador que entra num corredor obscuro e enfrenta os seus pesadelos familiares ou sociais. Devastador.

Anoitecer no Paraíso, Editora Alfaguara

Mais 22 inéditos de Lucia Berlin

Em Manual para Mulheres de Limpeza já se reunia o melhor da obra de Lucia Berlin, mas o filho fez uma nova escolha no baú - muito criteriosa, dizem - e em novembro sairá a edição portuguesa (e mundial) de Anoitecer no Paraíso, com uma recolha de duas dezenas de novas histórias passadas entre o Chile e Nova Iorque sobre o tema que a celebrizou: mulheres a olhar para os casamentos, a luta das mães jovens, maridos a abandonar a casa... É a segunda recolha de uma escrita expressiva e original.

Outras novidades, Várias editoras

O último de Modiano e mais boas leituras

Não falta boa ficção estrangeira. É o caso de Javier Marías num triplo lançamento: Berta Isla, que retrata a transformação devido ao amor, as crónicas em Juro não Dizer nunca a Verdade e Vidas Escritas; Se Esta Rua Falasse permite ler James Baldwin e a questão da injustiça na justiça; Margaret Atwood terá dois romances, Chamavam-lhe Grace e A Odisseia de Penélope; regressa James Salter com Brincadeira e Divertimento, relato de uma aldeia francesa; em O Caso Sparsholt, de Alan Hollinghurst, faz-se o relato de um grupo de amigos em várias gerações; há mais um volume sobre as estações de Karl Ove Knausgard, desta vez é O Verão; o finalista do Man Booker de 2017, Jon McGregor, apresenta-se com Reservatório 13; sai o segundo volume da tetralogia de Ali Smith, intitulada Inverno. Não servindo ao paladar de muitos leitores, o último romance do Nobel Patrick Modiano vai finalmente ter a sua edição portuguesa: o muito bom Lembranças Adormecidas.


Fascismo - Um Alerta, Editora Clube do Autor

Albright crucifica o autoritarismo

O título Fascismo - Um Alerta pode parecer estranho aos leitores portugueses por alegadamente ser coisa do passado, mas este ensaio histórico sobre os políticos e os regimes autoritários surge numa época em que o modo de governação de Trump exige, afirma a ex-secretária de Estado de Bill Clinton, Madeleine Albright, uma grande preocupação. A autora escreve de forma muito direta e interessante e o que se fica a saber sobre o autoritarismo mostra que a palavra fascista está mesmo na moda nos Estados Unidos.

O Capital de Karl Marx, Editora Almedina

150 anos depois, o balanço marxista

As datas certas da publicação de O Capital e do nascimento de Karl Marx têm gerado muitas obras, mas o destaque vai para O Capital de Karl Marx - 150 Anos Depois, no qual vários autores estudam o filósofo sob três ângulos: contextualização histórica, filosofia e legado, em capítulos escritos por uma dúzia ​​​​​​​de especialistas de renome.

Outras novidades, Várias editoras

Katutami e estudos sobre Portugal

Melhor do que a área da ficção na edição portuguesa está a da não ficção e até ao fim do ano surgirão livros muito importantes para quem quer compreender o mundo. É o caso da conhecida crítica literária norte-americana Michiko Katutami, que tem finalmente uma obra traduzida, mesmo que seja sobre a era Trump. Trata-se de A Morteda Verdade, que analisa, segundo a autora, "como se perdeu o sentido da realidade e porque a verdade científica é constantemente contestada". Ainda deverá sair um outro livro sobre a presidência Trump, o polémico relato de Bob Woodward. A Praça e a Torre, de Niall Ferguson, é outra obra de referência, em que se questiona sobre o quanto estará errada a História escrita. A questão Israel regressará com Caros Fanáticos, de Amos Oz. Sobre Portugal, não faltam bons trabalhos: A Primeira República, de Fernando Rosas, Lisboa Nazi, de Sérgio Luís de Carvalho, e Fátima e a Cultura Portuguesa, de Miguel Real.

Espaço para Sonhar, Editora Elsinore

A cobiografia de David Lynch

A jornalista e crítica Kristine McKenna conhece melhor do que ninguém o realizador David Lynch, daí que o projeto conjunto - Espaço para Sonhar - de uma biografia sobre o homem por trás da câmara que filmou desde Eraserhead até Twin Peaks - O Regresso seja de grande interesse para os cinéfilos. O trabalho pode ser descrito como uma narrativa híbrida entre a biografia e a memória e não faltam revelações, até enigmáticas.

Cadernos de Lanzarote VI, Porto Editora

A biografia do ano 1998 de Saramago

O diário que faltava aos Cadernos de Lanzarote vai sair no dia 8 de outubro, dia em que há 20 anos foi conhecido o facto de José Saramago ter vencido o Prémio Nobel da Literatura. O escritor continuava a descrever o seu dia-a-dia como nos cinco volumes anteriores mas o anúncio virou a sua vida do avesso. Decerto que as entradas até ao dia anterior seguirão a linha habitual dos anteriores volumes, mas a partir daí haverá palavras para todas as interpretações. Saber o que ali está é a grande questão a saber.

Outras novidades, Várias editoras

Um Salazar intenso e outras vidas

Intitula-se A Queda de Salazar (título provisório) e é de autoria de José Pedro Castanheira, António Caeiro e Natal Vaz. Trata-se de uma investigação jornalística que, não sendo uma biografia, se transforma numa espécie de, pois faz o relato intenso de dois meses da História de Portugal: entre a queda da cadeira de Salazar e a chegada ao poder de Marcelo Caetano. Claro que já se sabe o final, uma frustrada Primavera Marcelista que acabou em fanicos com o 25 de Abril. Tão importante é a biografia do nem sempre lembrado rei D. Dinis, que vai ter mais umas páginas, 180, de José Jorge Letria. Com um tema mais universal, surge a biografia do astronauta Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua. Chama-se O Primeiro Homem - A Vida de Neil A. Armstrong e é de autoria de James R. Hansen.