Descrentes em Trump, republicanos viram-se para o Senado

Senadores e doadores afastam-se do candidato presidencial e tentam manter o controlo da câmara alta do Congresso. No entanto, as sondagens não são favoráveis e até dez lugares podem passar para os democratas.

Nas eleições de 3 de novembro os eleitores de 33 estados são também chamados a decidir o destino de 35 assentos no Senado: 33 decorrentes do desfasamento do sistema eleitoral (a Câmara dos Representantes e o Senado são renovados de forma parcial), para o mandato de 2021-2027, e dois para preencherem as vagas de John McCain (morto), do Arizona, e de Johnny Isakson (demitiu-se por razões de saúde), da Geórgia.

O Senado tem importância capital no sistema político norte-americano. A destituição do presidente Trump, por exemplo, aprovada pela Câmara dos Representantes, não teve consequências porque a maioria republicana impediu a condenação e perda de mandato. Mais recentemente, o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, sinalizou que vai fazer tudo ao seu alcance para que a juíza indicada por Trump para o Supremo, Amy Coney Barrett, esteja em funções no rescaldo das eleições, tal como o presidente quer. Trump continua a dizer que está a decorrer uma enorme fraude eleitoral e prevê que o escrutínio seja decidido no Supremo.

Se o nova-iorquino perder as eleições e a Câmara dos Representantes continuar com maioria democrata, como as previsões indicam, o Senado será o local onde os republicanos podem aquartelar-se e combater as políticas dos democratas.

No entanto, as sondagens indicam que os republicanos podem ganhar num estado (Alabama), mas perder no Alasca, Arizona, Texas, Colorado, Iowa, Geórgia (dois lugares), Carolina do Sul, Carolina do Norte e Maine.

A novidade, nos últimos dias, é o distanciamento ou o silêncio de cada vez mais republicanos face a Trump, algo que se agravou na sequência do debate com Biden, em especial a sua colagem às milícias de extrema-direita, a forma como está a lidar com a covid-19 e o dossiê do pacote de estímulos para a economia.

A tendência não é de agora: em maio, já o Daily Beast dava conta de que vários candidatos republicanos ao Senado, que antes se mostravam junto do presidente Donald Trump, apareciam sozinhos nos anúncios e cartazes da campanha.

Um exemplo: em janeiro, um anúncio do senador da Carolina do Norte Thom Tillis defendia Trump do processo de destituição e elogiava os seus feitos em relação aos acordos comerciais. Seis meses depois, os anúncios deixaram de ter imagens ou mencionar o presidente.

Senadores entre silêncio ou críticas a Trump

Mais recentemente, a senadora do Arizona Martha McSally, durante um debate com o candidato Mark Kelly, recusou dizer se tem orgulho em apoiar Donald Trump - algo impensável há meses. "Estou orgulhosa por estar a lutar pelos habitantes do Arizona em coisas como cortar os vossos impostos", disse a ex-piloto da Força Aérea.

O senador do Texas John Cornyn, que está numa corrida taco a taco com a democrata MJ Hegar, disse que Trump "baixou a guarda" e criticou a sua abordagem relativamente à pandemia. "Penso que o maior erro que as pessoas cometem na vida pública é não dizer a verdade, particularmente em algo com tanto interesse público como este, porque sabem que a verdadeira história vai ser revelada", disse o texano.

Mais vozes no Senado mostram-se críticas de Trump. Por exemplo, Lindsey Graham, um homem que de crítico de Trump passou a ser um dos maiores aliados no Senado, disse na quarta-feira que discordou com a decisão de Trump de parar as negociações sobre o pacote de estímulos com a presidente da Câmara dos Representantes Nancy Pelosi até depois das eleições.

"Recomendo vivamente a todos os meus colegas e ao presidente Trump que olhem para o pacote de estímulo bipartidário de 1,5 biliões de dólares", escreveu Graham. "Tem muitas coisas boas para as pessoas e para as empresas." De forma surpreendente, Graham aparece nas sondagens com o lugar pela Carolina do Sul em risco.

A senadora do Maine Susan Collins, também com a reeleição em risco, graças à candidatura da democrata Sara Gideon, secundou Graham. "Esperar até depois das eleições para chegar a um acordo sobre o próximo pacote de ajuda covid-19 é um enorme erro", disse Collins.

Trump afunda-se nas sondagens

O que aconteceu? As sondagens apontam cada vez com mais solidez para uma vantagem da candidatura de Joe Biden. Depois do debate entre ambos, caiu o apoio a Trump, com a sondagem da NBC/Wall Street Journal e a da CNN a darem margens recorde (14 pontos na primeira, 16 na segunda).

Segundo a média das sondagens nacionais analisadas pela RealClearPolitics, o democrata leva uma dianteira de 9,7 pontos percentuais. É a maior distância na média de sondagens de candidaturas presidenciais neste século. E desde Bill Clinton que nenhum candidato apresenta, em outubro, uma percentagem tão elevada (51,3%).

A isto juntam-se sondagens a nível estadual, em estados considerados decisivos, como a Pensilvânia e o Arizona, a darem vantagem clara ao ex-vice-presidente.

Já o FiveThirtyEight, especializado em previsões eleitorais, dá agora uma margem recorde de probabilidades de vitória de Biden: 84 em 100.

Mapa sombrio

Ou seja, neste momento, para os senadores de estados com resultados em aberto, e para os doadores republicanos, Trump é o anti-Midas.

"O mapa do Senado está com um aspeto extremamente sombrio", disse um doador do Partido Republicano, Dan Eberhart, à AP. Em 2016, os candidatos ao Senado republicano perderam em todos os estados em que Trump perdeu e ganharam onde o candidato à Casa Branca venceu.

"Há fendas e fissuras por todo o gelo", comenta ao The Washington Post o consultor Rick Tyler. "O presidente passou meses a ignorar o vírus e a falar sobre o ressurgimento da economia. Mas quando o presidente apanha o vírus e a economia não recupera, o que é que se faz? Tenta-se sobreviver", diz Tyler, um republicano crítico de Trump.

Um alto funcionário do Partido Republicano recordou o momento com a publicação da cassete do programa Access Hollywood, em outubro de 2016. Na altura, muitos republicanos distanciaram-se de Trump, ao ouvirem o então participante em reality shows a gabar-se de apalpar as mulheres.

"A situação está a piorar cada vez mais", disse o funcionário ao Post. "Isto é como o Access Hollywood, porque todos nós estamos a ver números terríveis nas sondagens. Não pensávamos que fosse assim tão mau nesta altura. Todos se perguntam onde está o fundo, e estão a calcular o que precisam de fazer", disse.

Nessa altura, vários republicanos apelaram para o partido se unir em torno dos candidatos do Congresso dada a vitória certa de Hillary Clinton.

Desta vez, lembra o Daily Beast, a base de apoio financeiro de Trump é "indiscutivelmente mais substancial". Além dos mais de 400 milhões de dólares angariados através da sua campanha até agosto, Trump é também apoiado por dois comités que podem angariar quantias ilimitadas (os chamados Super PAC).

Só que a candidatura de Biden ultrapassou a de Trump na recolha de fundos, o que se acentua desde agosto. Só no dia do debate, Biden recebeu 31 milhões de dólares, e em setembro a sua campanha terá batido todos os recordes, avança a Associated Press.

Em contrapartida, Trump abandonou a campanha publicitária na TV em vários estados para dar prioridade a outros.

"Os republicanos têm de trabalhar para manter o Senado e negociar a agenda de Biden, resume Rory Cooper, um republicano, que recorda que "três em cada quatro eleitores discordam da sua resposta à covid, o que significa que isso inclui também os seus próprios apoiantes", e, mesmo assim, Trump insiste numa abordagem impopular.

"Não há discussão entre os doadores sobre dar dinheiro ao presidente", disse um doador do Partido Republicano ao Daily Beast. "A discussão entre doadores e coordenadores gira em torno dos lugares no Senado", conclui.

À mesma publicação, um lobista republicano afirma que as empresas têm investido cada vez mais na tentativa de manter o controlo do Senado pelo Partido Republicano por receio de legislação proveniente da Câmara que implique aumento de impostos. "Um governo dividido é bom para a maioria dos doadores e para a maioria das empresas na América", disse.

Com os doadores republicanos virados para os candidatos da Câmara e do Senado e novos fundos é de prever a multiplicação de publicidade na TV, como o anúncio televisivo na Carolina do Sul, que mostra imagens dos democratas Chuck Schumer (líder da minoria do Senado) e de Nancy Pelosi (presidente da Câmara dos Representantes) e no qual se diz "o liberal Jaime Harrison é o homem deles, não o nosso."

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