Premium O Bolso ou a Vida

Por mais que procure, não encontro melhor espelho para um sentimento que gostava de evitar: por estes dias, dói-me o Brasil. Impressiona-me, com susto e com desgosto, o apoio popular ao vencedor da primeira volta das eleições presidenciais, Jair Bolsonaro. Faz-me pensar, a (quase) bipolarização de um putativo colosso a que, para dia 28 próximo, são deixados apenas dois caminhos - de um lado, a escolha de um homem de extrema-direita, adepto (e praticante?) da tortura, em tempos defensor das bombas para resolver uma questão salarial nas Forças Armadas, alguém apostado em não deixar escapar todas as hipóteses de reverter todos os passos de progresso civilizacional que o Brasil foi dando em questões que parecem tão óbvias como a raça, o género ou a opção sexual; do outro, o prolongamento no poder de um partido que se deixou tentar por todas as maquiavélicas seduções que se abrem a quem o exerce, esquecendo-se sempre, até agora, de apresentar desculpas pelos desvios ou de fazer uma autocrítica pelos excessos. Nenhuma destas opções será, porventura, a ideal para que se acabe de uma vez com a ideia do "país adiado". Mas, ainda assim, também me parece bizarro que se equiparem estas duas hipóteses.

Confesso, tive pena de não ser brasileiro para poder viver por lá (no Rio de Janeiro, para ser rigoroso), com a intensidade recomendável, todos os passos que conduziram à democracia, algo que a idade me não permitira no nosso 25 de Abril

Visitei o Brasil pela primeira vez em 1984, levando comigo paixões construídas à distância e que, de então para cá, foram crescendo sem esmorecimento: a música, a literatura, o cinema e o teatro, a televisão, o futebol e as pessoas. Sempre com vantagem sobre o - extraordinário - conjunto de belezas naturais e sobre algumas maravilhas da responsabilidade dos humanos. Pude assistir, e participar, num par de manifestações que se subordinavam à urgência do grito "diretas já". Assisti a concertos convocados expressamente em nome da mudança desejada. E, confesso, tive pena de não ser brasileiro para poder viver por lá (no Rio de Janeiro, para ser rigoroso), com a intensidade recomendável, todos os passos que conduziram à democracia, algo que a idade me não permitira no nosso 25 de Abril. Fui seguindo, do outro lado do mar, a festa das transformações, gostando mais (Fernando Henrique Cardoso, o Lula dos primeiros tempos) ou menos (José Sarney, Fernando Collor de Mello) dos protagonistas. Nunca me passou pela cabeça, se calhar porque a democracia é crente e otimista, que se chegasse a um momento como aquele que se vive hoje numa terra que me fascina e me desafia e me inspira e me acompanha, mesmo à distância.

Custa mais perceber, mesmo em plena era do crescimento dos populismos, que o voto dos brasileiros possa premiar quem representa um claro retrocesso, quem nem sequer esconde os seus propósitos para espartilhar, condicionar, dirigir à lei da bala a sociedade brasileira

Vamos sabendo, com maior ou menor profundidade, o que é a história sobressaltada da América Latina. Mas impressiona esta hipótese, cada vez mais próxima, de um homem como Jair Bolsonaro chegar a chefe de Estado pela via democrática. Espera-se, talvez de forma errada, que os ditadores e autocratas cheguem ao poder, pelo menos nesta região, sustentados pelas armas e pelas fardas. Custa mais perceber, mesmo em plena era do crescimento dos populismos, que o voto dos brasileiros possa premiar quem representa um claro retrocesso, quem nem sequer esconde os seus propósitos para espartilhar, condicionar, dirigir à lei da bala a sociedade brasileira. Mais uma vez, o primado da economia (e aí Bolsonaro ainda nem sequer se explicou convenientemente) apareça estupidamente como o argumento, até porque o antigo capitão teima em passar a imagem de um candidato antissistema quando, na verdade, é deputado federal desde 1991. E a velha, muito velha e gasta ideia do "haja quem mande" poderá assumir consequências que será muito complicado reverter ou minorar. O programa eleitoral, chamemos-lhe assim, do candidato concentra muito do que é indesejável para um povo que já deu exemplos vários de que gosta de pensar pela sua cabeça - mas é o mesmo que parece ter moldado Bolsonaro como um Sassá Mutema à escala nacional e contemporânea.

Vivemos na época, medíocre e enviesada, de Trump e de Putin, de Nicolás Maduro (um fantasma para esta eleição brasileira) e de Viktor Orbán. O caso de Jair Bolsonaro, potencialmente mais radical e explícito, toca-nos mais porque - com acordos ou sem eles - no Brasil se fala a nossa língua. De caminho, parece justo separar as águas e evitar confusões: há mais de trinta anos, Portugal viveu uma segunda volta presidencial que, com menos talento e aplicação de vencedor e vencido, poderia ter sido muito mais fraturante. Mas não se confunda nunca Freitas do Amaral com Bolsonaro - com este na presidência, ganhará novo alcance o título de uma enorme canção de Milton Nascimento: Nada Será como antes. Passe o trocadilho, fácil, e fique a ideia, confrangedora, mas apetece dizer que, a 28 de outubro, os brasileiros vão ter de confirmar ou desmentir a escolha entre o Bolso(naro) e a Vida. E, ao que se sabe, no Brasil não há ninguém que recomende aos eleitores que fechem os olhos no momento de votar, engolindo o sapo de um mal menor.

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