O CDS que não pode morrer

Há claras ameaças ao espaço de centro-direita em Portugal e a sua possível implosão é o maior risco para a nossa democracia.

Não há quem não conheça o costume português de elogiar quem já não conta. No entanto, é da mais elementar justiça realçar o papel que o CDS teve na construção e na consolidação da democracia portuguesa. Desde a tarefa que o professor Freitas do Amaral desempenhou na construção democrática integrando as partes da população que apoiavam o antigo regime, com a sua presença no Conselho de Estado - onde teve uma atividade muito esquecida, diga-se, mas vital para a transição pacífica para a democracia -, até à institucionalização de uma direita muito conservadora, há muito para agradecer aos centristas.

Aliás, com outros contornos e dimensões, podia-se dizer a mesma coisa do PCP. O estertor dos dois partidos nos extremos do cenário partidário não trarão nada de bom à nossa comunidade, bem pelo contrário.

Seja como for, o CDS como partido relevante, como instituição que conta nas decisões importantes para a nossa comunidade, acabou. Pode continuar a apresentar-se a eleições, poderá até manter uma organização, mas já só faz parte da história da nossa democracia e não contará para o seu futuro.

O CDS deixou de conseguir agregar as várias tendências que tinha dentro de si. Durante muito tempo, fruto de lideranças fortes e de causas definidas, elas foram coexistindo em razão de um bem maior. Se não havia poder, havia essa expectativa e, no fundo, era esse o cimento que colava os setores conservadores, liberais e democratas cristãos. Por outro lado, iam sendo escolhidas causas que traziam ou conservavam eleitorado. Foi o partido eurocético, o dos lavradores, o dos contribuintes, o dos pensionistas.

O euroceticismo arranjou melhores campeões, a lavoura tem meia dúzia de eleitores e o governo Passos-Portas tratou, justa ou injustamente, de acabar de uma vez por todas com as bandeiras da defesa do contribuinte e do pensionista.

Sem um líder forte (Assunção Cristas será uma política competente mas não foi uma líder capaz de mobilizar, mudou demasiadas vezes de rumo e deslumbrou-se com os resultados das autárquicas em Lisboa) e sem uma ideia agregadora, o CDS viu as lutas internas que sempre teve tomarem proporções que não permitem a coexistência das suas várias tendências. Para piorar, apareceram dois partidos, que obtiveram lugares no Parlamento, que ocupam espaços que o CDS representava e que conseguem, em cada um dos segmentos que ocupam, uma maior mobilização. Melhor, em parte apareceram porque o CDS ou já não os conseguia albergar ou não conseguia fazê-los coexistir. O próximo congresso arrisca-se a ser um confronto entre o Iniciativa Liberal (IL) e o Chega com pessoas que ainda estão no partido.

O CDS, repito, como o conhecíamos acabou, mas o seu património político não morre. Sobrevive através das pessoas que sempre pensaram que era possível juntar pessoas de uma determinada área política, respeitando e integrando diferenças. Enquanto o PSD foi perdendo quadros e não conseguiu trazer gente nova, o CDS conseguiu recrutar alguns excelentes quadros. Gente bem preparada politicamente, com currículos importantes na sociedade civil e que seria um crime contra a nossa democracia ficarem num partido de margem e sem hipótese de intervenção. O centro-direita não pode prescindir de pessoas como Assunção Cristas, Nuno Magalhães, Adolfo Mesquita Nunes, Francisco Mendes da Silva, Cecília Meireles e outros.

O património político que estas pessoas representam tem de ser valorizado e aproveitado. O PSD tem de fazer todos os possíveis para integrar estas pessoas. Não só é extremamente importante para o partido liderado por Rui Rio contar com a capacidade política deles - e que falta faz ao PSD gente tão qualificada - como se mostrava capacidade de diálogo e de busca de convergência que neste momento não parece ser a marca distintiva desta direção, mas que é essencial para a criação de uma alternativa credível à governação.

Para as pessoas que viriam do CDS seria uma oportunidade para fazerem o que melhor sabem e ajudar num projeto que efetivamente consiga quebrar a espécie de hegemonia que o PS alcançou e que não augura nada de bom para o país.

Não há, nos mentideros políticos, quem não tenha ouvido falar de uma possível fusão entre o PSD e o CDS. Mas essa possibilidade só faria sentido se a solução que saísse do próximo congresso do CDS fosse a que integrasse pessoas como as referidas ou as suas conceções políticas. A questão é que não parece ser esse o caminho que vai ser percorrido. No entanto, o resultado final seria o mesmo. A fusão com o PSD afastaria as pessoas que querem um caminho IL ou Chega e, se o CDS optar por um desses caminhos, seriam os moderados que sairiam pelo seu pé do CDS.
Há claras ameaças ao espaço de centro-direita em Portugal e a sua possível implosão é o maior risco para a nossa democracia. O perigo de que constantes desaires eleitorais empurrem os eleitores para soluções radicais que já estão a ter uma grande visibilidade é evidente, a possibilidade de um revés do PSD nas próximas autárquicas empurrar o partido para caminhos distantes do seu património político é um cenário plausível.

É urgente que seja criada e que se consolide a perceção de que há uma alternativa séria no centro-direita. O CDS através dos quadros que criou e do património político que elas carregam é fundamental para esta tarefa vital para a nossa democracia.

Estão a sair da toca

A excelente peça jornalística do DN que, para quem tivesse dúvidas, prova de forma cristalina que André Ventura não passa de um aldrabão teve várias repercussões. A mais interessante foi a de ter mostrado que há várias pessoas que suspeitávamos de simpatia por as coisas que o Ventura agora defende, mas que disfarçavam. O que foi de "ah pois, mas só se investiga aquele", de "ah mas que político não é aldrabão" e de, claro, ataques ao jornal e à pessoa que tinha cometido o pecado infame de fazer um ótimo trabalho jornalístico.

De todas as defesas ao deputado do Chega, a melhor foi a do ideólogo do Observador, Rui Ramos. Vale a pena ler o seu texto "O escândalo do século: André Ventura afinal não é racista". Tem de ser reconhecido, pelo menos, um mérito à entrada do político do Correio da Manhã na política: fez cair o disfarce a muita gente.

Teresa Leal Coelho

Já discordei muitas vezes de Teresa Leal Coelho e até já lhe dediquei palavras pouco agradáveis. Nunca deixei de lhe reconhecer coragem e uma capacidade sempre louvável de pensar pela sua própria cabeça.

Como vereadora da Câmara Municipal de Lisboa, achou que devia votar a nomeação de Manuel Salgado para a Sociedade de Reabilitação Urbana num sentido e a concelhia do PSD de Lisboa achava que ela devia votar noutro. Li que a estrutura local do PSD (e não o PSD, como errada ou maliciosamente alguma imprensa escreveu) lhe teria retirado a confiança política. Apesar de a relevância desta infeliz decisão ser nenhuma, se o fez, fez mal.

Teresa Leal Coelho é a representante de quem nela votou, não é uma marioneta de uma máquina partidária. A vereadora estaria a trair os eleitores dela e do próprio partido se votasse contra a sua consciência e contra o que acha justo e coerente. É de pessoas assim que os partidos precisam, não de paus-mandados.

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