EDP aponta o dedo ao governo e à ERSE pela queda a pique nos lucros

De acordo com a EDP, entre decisões da regulação e alterações legislativas, a empresa já sofreu cortes de 320 milhões de euros,

Os resultados líquidos da EDP desceram 74% nos primeiros nove meses de 2018, de 1147 milhões para 297 milhões de euros, no acumulado até setembro, por comparação com igual período do ano passado. A EDP espera agora encerrar o ano com resultados líquidos entre os 500 e os 600 milhões de euros.

Miguel Stilwell de Andrade, administrador financeiro da EDP, justifica os maus resultados da elétrica com as decisões tomadas pela ERSE e pelo governo. "O tema dominante este ano é o impacto que temos tido em Portugal por via da regulação e das alterações legislativas. No total são cortes de cerca de 320 milhões de euros, o que leva a que tenhamos registado apenas 18 milhões de euros de resultados líquidos em Portugal. Se juntarmos as renováveis, passa para 16%", disse ao Dinheiro Vivo Stilwell de Andrade. As operações em território nacional dizem assim respeito a apenas 6% dos lucros da EDP. "Temos 84% do resultado líquido a vir de operações fora de Portugal, sobretudo de Espanha e do Brasil", explicou o administrador.

A queda a pique já era esperada pelos analistas e justifica-se pelo ganho extraordinário de 560 milhões de euros que a empresa registou em 2017 com a venda da Naturgas em Espanha, um encaixe que não se repetiu este ano, mas acima de tudo com o registo nas contas da elétrica de uma provisão extraordinária de 285 milhões de euros diretamente relacionada com o despacho do ex-secretário de Estado da Energia, Jorge Seguro Sanches, que identifica este valor como uma alegada sobrecompensação por via dos custos de manutenção do equilíbrio contratual (CMEC).

Com Seguro Sanches entretanto afastado por António Costa, João Galamba é agora o novo titular da pasta da Energia, que migrou do Ministério da Economia para o Ministério do Ambiente e Transição Energética. O administrador da EDP não quis para já comentar para já estas mudanças governamentais.

"Os resultados do grupo EDP no terceiro trimestre de 2018 foram fortemente penalizados pelo efeito do despacho do Senhor Secretário de Estado da Energia de 29-Ago-18, que quantificou em 285 milhões de euros o impacto financeiro da alegada sobrecompensação dos CMEC. A EDP foi notificada pela DGEG sobre esta decisão a 26-Set-18 e, apesar de considerar que não existiram quaisquer aspectos inovatórios ponderados nos ajustamentos anuais ou no ajustamento final dos CMEC, tendo apresentado uma reclamação graciosa; a EDP registou uma provisão de 285 milhões no terceiro trimestre. O impacto desta provisão não recorrente no resultado líquido da EDP ascende a 195 milhões, traduzindo-se num resultado líquido do grupo EDP de 297 milhões de euros nos noves meses de 2018", pode ler-se no comunicado enviado à CMVM. Em cima da mesa está ainda a possibilidade de o governo exigir à EDP mais 72,9 milhões de euros relativos aos CMEC.

Stilwell de Andrade acrescentou ainda: "Depois de termos analisado o despacho estamos a contestar porque continuamos a acreditar que não há base técnica, económica nem legal para o corte de 285 milhões. Por prudência, temos de reconhecer isso nas contas e foi isso que fizemos. Estamos a contabilizar já neste trimestre a provisão extraordinária dos tais 285 milhões que têm a ver com o despacho do secretário de Estado da Energia sobre a alegada sobrecompensação dos CMEC. Estamos a refletir isso nas contas já neste trimestre".

"Como consequência, as amortizações, imparidades e provisões aumentaram 100% face aos primeiros nove meses de 2017, para 572 milhões de euros até setembro de 2018", lê-se no comunicado. Quanto ao lucro recorrente (excluindo efeitos extraordinários) o administrador confirmou que aumentou 2%, de 558 para 570 milhões de euros. A queda sentiu-se também nos resultados operacionais que recuaram 26% nos três primeiros trimestres do ano para cerca de 2,4 mil milhões de euros. Em termos recorrentes, as operações desceram 6%.

A empresa destaca os fracos resultados em Portugal, que dizem respeito a apenas 18 milhões de euros, ou seja, 6% do resultado líquido da empresa, muito por via dos custos relacionados com a regulação, que já ascendem a 320 milhões de euros. Em sentido contrário, a empresa tem um investimento que já ascende a 10 mil milhões de euros, frisou Stilwell de Andrade. "Gostava de destacar os dados de Portugal porque têm bastante impacto neste ano e neste trimestre em particular. O resultado líquido das atividades tradicionais em Portugal - distribuição e geração - é de 18 milhões de euros, representa 6% do total do resultado líquido da EDP este ano. Só 6%. E é muito penalizado pelo tema da regulação, em cerca de 320 milhões de euros relacionados com a revisão na área da distribuição, mecanismo clawback, custos inovatórios, entre outros".

Com as operações em Portugal penalizadas, em Espanha os resultados operacionais da EDP subiram 8% e no Brasil 19%. Já as renováveis, diz o administrador financeiro, "desceram 12% devido ao trimestre com pouco vento, que impactou o negócio".

"Estamos a aumentar o investimento em 30% face ao ano anterior para 1,4 mil milhões de euros. Dois terços disto em renováveis nos EUA e Brasil", disse Stilwell de Andrade. "Estamos a manter a nossa expetativa de ter entre 500 e 600 milhões de euros de lucros no final do ano, incluindo já os efeitos extraordinários. O resultado operacional deverá ser de 3,4 mil milhões e a dívida rondará os 14 milhões ou ligeiramente abaixo", rematou. De acordo com o relatório entregue ontem à CMVM, a EDP dava conta até setembro de uma dívida de 14,5 mil milhões de euros, menos 4% face a 2017.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".