Os fabulistas

O chefe Kiko inventou um concurso gastronómico da NASA que teria ganho, foi desmascarado e continuou a mentir. Não ter ganho um concurso que não existiu não faz dele um cozinheiro nem pior nem melhor do que já era. Desde logo era sobre a melhor comida para os astronautas comerem em Marte, e dificilmente o homem irá a Marte, pelo menos tão cedo. Aliás, a inventona é totalmente irrelevante e até bem consistente com a ideia que tenho do mundo da cozinha, alta ou média, onde a maioria dos prémios são falsos, as críticas parciais, as reportagens quase todas fruto de compadrios e simpatias.

Ao menos a mentira do chefe Kiko foi estratosférica, talvez em homenagem àquela época não muito distante em que culinária era esferificar, agora menos do que em tempos, já não se usam tanto as esferas de pastel de bacalhau, esfera de água das pedras, esfera de esfera. E como disse o Ricardo Dias Felner, esse sim, um (hoje o único?) crítico gastronómico do lado do bem, analisando os posts do Facebook do tal chefe Kiko, as pessoas queriam acreditar naquilo do concurso da NASA e portanto pouco importa que o concurso da NASA nunca tenha existido. Tal como nunca ninguém realmente se preocupou que Baptista da Silva não fosse do PNUD porque era aquilo que queriam ouvir.

É fácil exagerar, e não há mentira sem ponta de verdade. Sempre que vou a Washington janto num restaurante - que não tem esferas de picanha, mas bifes daqueles grossos e suculentos - onde em 2013 estive por momentos, junto ao bar, ao lado de Marion Barry, o mítico mayor negro de DC, que morreu em 2014, depois de ter estado morto politicamente nos anos noventa. Com esses minutos de proximidade física podia dizer que o conhecia, que éramos amigos, que ele me tinha dito isto e aquilo - mas nada falámos. Foi mayor de 1979 a 1991, foi filmado a fumar crack com uma prostituta, condenado e preso, perdeu as eleições e voltou a ganhar em 1995, ficando até 1999 (Washington estava falida, não se recandidatou) - um dia quis atirar um pisa-papéis aos jornalistas. Guardo desse jantar as boas memórias de bons amigos, um deles entretanto foi andando para o Céu. Lembro-me de nesse jantar termos falado de como Washington tinha mudado, a desgraça que era e a cidade agradável que estava.
Em 2013, DC já não era a cidade dos Jimmys. A 28 de setembro de 1980, o Washington Post publicou a história de Jimmy (Jimmy's World), um menino de 8 anos, toxicodependente, agarrado à heroína, filho e neto de heroinómanos, fruto de uma violação da mãe pelo padrasto dela, uma mãe que deu à luz deprimida que nem nome escolheu para a criança, Jimmy foi ideia da irmã que gostava de Jimmy. Jimmy ficava por casa, uma casa de drogados e traficantes, no fim do dia davam-lhe sempre a sua dose, injetada pelo namorado da mãe. Jimmy era uma das muitas crianças dependentes daquela Washington, ia pouco à escola, mas quando ia a matéria que mais gostava era Matemática (foi citado a dizer isto), a mais importante para quem quer ser um dealer como ele, disse ao jornal. Janet Cooke, a jornalista que fez a reportagem sobre o mundo de Jimmy, uma jovem negra, esfusiante, ganhou o Pulitzer em abril do ano seguinte com a história. Foi, tanto quanto as coisas podiam ser, viral. A polícia tentou encontrar Jimmy para o salvar.

O problema é que Jimmy nunca tinha existido, nem a mãe, nem o padrasto, nem a casa. Janet Cooke tinha inventado todo aquele mundo. Confessou e devolveu o Pulitzer, num dos maiores escândalos do jornalismo, pelo menos até à época das fake news. Marion Barry chegou a dizer numa conferência de imprensa que não estavam a conseguir encontrar Jimmy e que a história lhe parecia ter metade de mito, metade de verdade, até porque, disse na altura, ninguém acreditava que uma mãe deixasse um jornalista ver o filho de 8 anos a ser injetado. E eu não sabia disto, naqueles minutos em que estive ao lado de Barry, porque se soubesse era disto que lhe tinha falado, de como isto é belo, de como só um político supremo, dos que conseguem ganhar uma eleição depois de um vídeo daqueles, tem o instinto de lince, de ver as fronteiras do real e do fabricado. É verdade que Jimmy não existiu, mas existiu Marion Christopher Barry, o seu filho, que em 2016 morreu de overdose (uma das drogas encontradas no seu sangue, PCP, estava também na inventada casa de Jimmy), dois anos depois do pai. A epidemia dos opiáceos e das drogas sintéticas de 2016 é mais grave do que aconteceu nos anos 1980, mas a história aí era mais colorida, hoje mais silente.

García Márquez logo nos anos oitenta escreveu no El País que Jimmy é uma metáfora, e que a metáfora é sempre de certa forma verdade (Sontag talvez discordasse) e que Janet Cooke, se não merecia o Pulitzer do jornalismo, merecia sem dúvida o da literatura. Não merecia, porque o artigo não tem essa qualidade, os lugares-comuns abundam, o estilo não é o melhor. Mas não importa, acreditemos que sim, que merecia, que é uma boa maneira de acabar este texto.

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