E uma explicação séria?

Nesta altura, o mínimo que podemos exigir é que todos os responsáveis tenham a dignidade de nos dizer que erraram gravemente e que não venham mais atirar-nos areia para os olhos.

A esmagadora maioria das decisões políticas dizem respeito à forma como os nossos representantes gerem o dinheiro que lhes pomos à disposição para que eles façam o melhor pela comunidade. É também, em larga medida, em função das opções que fazem ou se propõem fazer, nesse capítulo, que os elegemos.

Bem sei, La Palisse não diria melhor. No entanto, há, claro está, outros fatores que entram em jogo quando se tomam decisões políticas. O caso BES é um bom exemplo disso.

O anterior governo com a prestimosa colaboração do Banco de Portugal e a pressão do BCE preferiu deixar implodir o BES a estudar qualquer outro tipo de solução que permitisse a sua sobrevivência.

Já ninguém se lembra do "ring-fence" - que ia evitar que as empresas do universo GES afetassem mais a atividade do banco -, do misterioso desaparecimento da garantia do Estado angolano, foi varrido da memória, das garantias que nos foram dadas pelos anteriores primeiro-ministro, Presidente da República, governador do Banco de Portugal, especialistas em análise económica, conselheiros de Estado, empresas de auditoria, CMVM (alguém se recorda do aumento de capital pouco tempo antes da derrocada e que teve responsáveis políticos como quase agentes publicitários da ação?) e comentadores televisivos, todos eles batiam no peito afirmando que não só o banco era sólido como também que era fundamental para a economia nacional.

Literalmente, de um dia para o outro já não havia nada a fazer que não fosse uma solução mal-amanhada, nunca experimentada e tomada à pressão.

Esqueçamos por evidente insulto à inteligência declarações em que se assegurava que a aplicação da medida de resolução era um simples empréstimo que até ia dar dividendos ao Estado e que, se corresse mal, ia ser a banca privada a pagar os custos - o liberalismo de badana em todo o seu esplendor.

Fazer uma injeção de fundos sob condições bem definidas pelo Estado - administração, procedimentos, estratégia - nunca foi opção. Nacionalizar e executar um plano que permitisse com tempo recuperar o banco foi hipótese rapidamente abandonada - o que levou à saída de Vítor Bento, que, seja-lhe feita justiça, previu bem o que ia acontecer.

A nacionalização temporária para reprivatizar à pressa e sem que o banco estivesse minimamente equilibrado acabou por ser uma rega de gasolina num incêndio.

Lá está, decisões políticas. O poder político da altura pensou que era melhor para a comunidade acabar com o banco como existia mesmo sabendo que ia custar muito mais dinheiro aos cidadãos.

Claro que na altura o discurso não foi esse. Havia eleições próximas e tomar uma decisão que implicasse naquela altura custos para o Estado não daria o melhor cartaz eleitoral. Ou seja, trocaram-se votos por encargos que vão levar mais de uma geração de portugueses a pagar.

Pode evidentemente haver outra explicação. A recusa absoluta de que o Estado ajude uma atividade privada mesmo que isso resulte em custos elevados para os cidadãos. Uma espécie de pureza ideológica, a tal versão liberal de badana dos amanhãs que cantam.

Do que não restam dúvidas hoje a ninguém é que a decisão foi absolutamente ruinosa e que qualquer outra forma só muito dificilmente resultaria pior.
Chegamos então à segunda decisão: a da venda à Lone Star, a que vem na sequência da tal reprivatização às três pancadas.

O atual governo podia ter optado por não a fazer e tentar prorrogar ainda mais o prazo, mostrando os mais do que evidentes erros de decisão política anteriores. Aliás, parte de um erro de base que foi aceitar liquidar o banco se não fosse conseguida a venda. Ora, até o mais humilde merceeiro sabe que essa operação envolveria custos tão gigantescos que poria em causa toda a economia nacional.

Vender à pressa é sempre passaporte para um péssimo negócio. Aceitou-se dar garantias de 3,9 mil milhões e sonhou-se que quem comprou não as ia exigir. Ou seja, estamos perante, no mínimo, uma incompetente inocência. Mais, não houve especialista (não seria necessário) que não garantisse que evidentemente a Lone Star as ia cobrar. O interesse do fundo é limpar o mais rapidamente o banco para melhor o conseguir vender - a Lone Star é um fundo de investimento, não um operador bancário.

Mário Centeno, com o maior desplante, diz que os portugueses não irão pagar. Pois, pois. A CGD, que tem parte importante do fundo de resolução, não é pública, os bancos privados não serão atingidos e não passarão esses custos para os cidadãos e esses 3,9 mil milhões cairão do céu aos trambolhões.

Há graduações de culpa dos atores políticos - não será preciso abordar o que fizeram os anteriores proprietários do banco e do grupo Espírito Santo -, que fique claro. Este governo errou de forma grave, mas o início do processo foi o pecado original e esse tem protagonistas conhecidos: Maria Luís Albuquerque, Carlos Costa e Passos Coelho, sem esquecer o BCE.

Nesta altura, o mínimo que podemos exigir é que todos os responsáveis tenham a dignidade de nos dizer que erraram gravemente e que não venham mais atirar-nos areia para os olhos.

Tomás Correia e os amigos
Tomás Correia decidiu que a Caixa Mutualista deve pagar as custas e as multas decorrentes da sua gestão. É assim como comprar uma carta de indulgência plena sobre a sua verdadeiramente extraordinária conduta enquanto responsável máximo da instituição. De cada vez que sai uma notícia de mais uma diatribe de Tomás Correia lembro-me daquele magnífico grupo de apoio de Tomás Correia aquando da sua última candidatura à Caixa Mutualista. Sendo boa parte dessas pessoas figuras públicas - políticos, artistas, comentadores, gestores -, é relativamente fácil ir acompanhando o que dizem sobre diversos assuntos. O que mais impressiona são os comentários moralistas e de bons costumes que proferem sobre outras pessoas e a indignação que mostram de cada vez que alguém tem uma conduta que acham errada. Mas será que não há uma alma sequer que agora os confronte com as mais que evidentes, digamos, irregularidades e atos menos próprios de Tomás Correia? Talvez ajudasse a melhorar o ambiente e a percebermos quais as verdadeiras motivações de muitos deles.

Cataplana e arroz de atum
Não estou minimamente interessado nas qualidades culinárias de António Costa ou de Assunção Cristas. Deles espero outro tipo de qualidades. Não tenho dúvidas nenhumas de que quando vão a programas de televisão falar da sua vida pessoal e fazer uns cozinhados não será por acharem divertido. Tem, obviamente, objetivos políticos. A imagem que pretendem passar é a de pessoas com histórias iguais às de qualquer outro cidadão e dessa forma tornarem-se mais próximos dos seus concidadãos. No fundo, tentar fugir da lógica reinante de "eles, os políticos". Nada de mal, pelo contrário. Como nada de errado existe em políticos que não se sentem confortáveis neste tipo de cenários. Confundir esta tentativa de obter popularidade com fenómenos populistas é mais do que um erro, é não perceber minimamente o que é o populismo.

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Técnicos e juízes receiam ataques pelas suas decisões

É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.