Da democracia ateniense à UE, pistas para compreender a Europa

Não é o continente maior mas será aquele em que coexistem mais culturas e línguas diversas entre si. O que, na sua milenar história, não raras vezes conduziu à guerra, mas também a saltos civilizacionais que mudaram o mundo.

Democracia ateniense
Platão era um homem sábio, mas a democracia da sua Atenas natal não o convencia. Por volta de 500 a. C. fora criado, na mais sofisticada cidade-estado do seu tempo, um novo sistema político que se propunha ser uma alternativa à tirania, aumentando a participação de cada um nas decisões que afetavam a vida de todos. Assim foi criado um termo para a eternidade: demos (Povo) associado a kratos (poder) origina democracia, o que, sendo uma revolução de monta, não deixava, porém, de excluir as mulheres, os estrangeiros (ou metecos) e os escravos.

Rede viária romana
Dotados de um notável sentido prático, os romanos viajavam regularmente, da Lusitânia à Síria, graças a uma notável rede de comunicações que incluía uma rede viária que chegou a atingir 400 mil quilómetros de estradas. Por elas passaram generais como Júlio César à frente das suas legiões, viajantes como o geógrafo Estrabão ou simplesmente os comerciantes que levaram o gosto da vinha e do azeite mediterrânicos a quem nunca os tinham provado. Por essas estradas (mas também por pontes e aquedutos, alguns dos quais ainda utilizados em pleno século XXI) viajaria também, na bagagem dos funcionários imperiais, o direito romano, cuja influência nos mais diversos sistemas jurídicos perduraria por muitos séculos.

Catedrais góticas
Diz a lenda que Afonso Domingues permaneceu em vigília sob a abóbada da Sala do Capítulo da sua principal obra, o Mosteiro da Batalha, para demonstrar que, ao contrário do que muitos temiam, esta não desabaria. Aos seus contemporâneos, a ousadia de tal arquitetura parecia coisa sobre-humana. Mas a Batalha era apenas o corolário do que, desde o século XIII, era construído por exércitos de operários na Europa Central e na Europa Ocidental. Entre os exemplos mais notáveis deste estilo contam-se o Duomo de Milão, as Notre-Dame de Paris e de Chartres, as catedrais de York (Inglaterra) e Colónia (Alemanha) ou Santa Maria del Fiori, em Florença.

Universidades
Ao fundar, em 1288, os Estudos Gerais de Lisboa, o rei D. Dinis dava, uma vez mais, prova do seu claro entendimento dos tempos que vivia. Entre 1200 e 1400, reis e cardeais fundaram 52 universidades, de que se destacaram Bolonha, Paris, Oxford, Salamanca ou Montpellier. Pela primeira vez na história da Europa, a formação de nível superior (destinada sobretudo à preparação de altos funcionários da administração régia) saía da esfera de grandes abadias, como a de Claraval ou Santa Cruz de Coimbra, para se tornar mais secular.


Descobrimentos
Consagrado há séculos pela historiografia, o termo "descobrimentos" tem vindo a ser contestado nos últimos anos. Com justiça, refira-se. Mas tal contestação não nos pode fazer esquecer todos os conhecimentos científicos adquiridos nessas viagens cheias de perigos reais e imaginários. Com os descobrimentos, a Europa mudou-se e mudou os outros continentes. No bojo das naus iam as armas da dominação do homem branco, mas também a língua e muitas vezes a religião que se tornariam parte indissociável das identidades de futuros países. O português, por exemplo. Língua materna de mais de 250 milhões de pessoas, hoje serve de elo de união em países como Angola ou Moçambique, onde coexiste com centenas de idiomas locais.

Renascimento
"Vi, claramente visto, o lume vivo", escreve Camões no Canto V dos Lusíadas ao referir-se ao fogo de santelmo que muitos tinham na conta de alucinação. Mais do que um jogo de palavras, o poeta exprime aqui a importância que o homem erudito do Renascimento atribui à experiência e ao saber fazer. Por oposição à cultura escolástica medieval, surgem artistas como Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Botticelli, mas também humanistas como Erasmo de Roterdão, Thomas More ou André de Gouveia, que não hesitam em ver no mundo a sua "oficina". Nestes tempos em que tudo é posto em causa em prol de mais conhecimento, a Reforma Protestante abala até aos alicerces, e de forma irreversível, a Igreja de Roma.

Iluminismo
Diz-se que Maria Antonieta era uma grande admiradora da obra pedagógica de Jean-Jacques Rousseau. O que ela não poderia antecipar é que os escritos desse seu autor de eleição, além dos de Voltaire, Diderot, Montesquieu e do próprio movimento enciclopedista, cheios de ideais de aspiração ao conhecimento, à dignidade e à liberdade individual, tornariam tragicamente obsoleta a monarquia absoluta ungida por Deus de que ela era peça fundamental. A Revolução Francesa, que, em 1789, depõe de forma violenta a dinastia dos Bourbons, não teria sido possível sem esse autêntico rastilho de insubmissão que foram obras como Cândido ou O Contrato Social.

Industrialização
Quando, em meados do século XIX, a linha férrea traçou um longo sulco na paisagem americana, índios e colonos apanharam o susto das vidas deles. O "cavalo de ferro", como lhe chamaram, era a face mais visível da industrialização que, da Europa, atravessara o Atlântico. A Revolução Industrial, é sabido, iniciou-se na Inglaterra, na segunda metade do século XVIII, quando a máquina de fiar hidráulica alterou o setor têxtil nas suas ancestrais formas de trabalhar. Em breve, este esforço galgaria fronteiras geográficas, áreas de produção e formas de distribuição, num ímpeto irresistível que alteraria para sempre a face da Terra.

Código Civil napoleónico
"A minha verdadeira glória não é ter vencido 40 batalhas, o que viverá eternamente é o meu Código Civil." Estas palavras escritas no final da sua atribulada existência demonstram que a lucidez não abandonara o deposto Napoleão. Na bagagem dos seus exércitos tinham viajado o saque e a destruição, mas também os ideais da Revolução Francesa e a semente de uma nova ordem mundial. Entre eles, o Código Civil (um dos primeiros do mundo) que se tornaria a base dos sistemas legais modernos de Portugal, Espanha, Itália, Bélgica ou Países Baixos.

Lifestyle
Dos tempos em que a boneca Pandora mostrava ao mundo o que se vestia nas cortes mais refinadas às influencers de hoje, o princípio é sempre o mesmo: nada, no gosto ou nos sonhos do consumidor, bate o prestígio do made in France ou do made in Italy. Tal como um certo modo de saber estar em sociedade (a chamada etiqueta, que vai do uso dos talheres à mesa, criado na Itália do Renascimento, à receção de visitantes em casa) foi exportado e adotado por figuras tão distantes como o imperador do Japão.


Revolução Russa
Ao morrer em 1883, Karl Marx decerto não imaginaria que a revolução, protagonizada pelas classes trabalhadoras, ocorria, não em Inglaterra ou noutro país industrializado, mas na distante Rússia, onde, em 1917, uma ampla maioria da população continuava a viver da agricultura, nas condições medievais descritas por escritores oitocentistas como Tolstoi ou Dostoievski. Em outubro de 1917, os bolcheviques tomaram o poder (depondo o governo provisório mais moderado de Kerensky, no poder desde a deposição do czar Nicolau II em fevereiro desse ano). Doravante, o dramatismo dos acontecimentos seria tal que a opinião pública mundial ficaria irremediavelmente dividida entre os que se horrorizaram e os que, pelo contrário, aplaudiram.


Modernismo
"Basta pum basta! Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi."Assim abre o Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros. Datado de 1915, chocou a intelligentsia nacional no modo como zurzia uma das suas eminências pardas. Essa era a própria essência do modernismo na literatura, na música e nas artes plásticas. Desconstruir o academismo vigente para construir algo de moderno e vital. Entre os seus maiores nomes estiveram Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Amadeo de Souza-Cardoso, Santa Rita Pintor e, internacionalmente, Picasso, Braque, Apollinaire, Stravinsky, Marinetti ou Maiakovski.


Fascismo
A Europa não inventou os regimes autoritários mas criou, nas águas envenenadas do pós-Primeira Guerra Mundial e do Tratado de Versalhes, essa espécie particular de ditadura chamada fascismo. Ao marchar sobre Roma, a 28 de outubro de 1922, à frente dos seus fascios, Benito Mussolini fazia uma demonstração de força perante o país e o rei, que não tardaria a encarregá-lo de formar governo. Servido por uma poderosa máquina de propaganda, sustentada em veículos tão modernos e populares como o cinema ou a rádio, o fascismo não tardaria a conquistar seguidores. O seu maior aliado seria o Partido Nazi, de Adolf Hitler, fundado em 1920 e no poder desde 1933. Unia-os o exercício violento do poder que não hesitava em eliminar fisicamente qualquer adversário interno ou externo. De vez em quando ameaça renascer das cinzas.


União

Europeia

Não será a federação a que alguns aspiravam, mas vai muito além dos propósitos meramente económicos de outras organizações intergovernamentais como o Mercosul. Fundada em 1950 como Comunidade Europeia do Carvão e do Aço por Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos, daria lugar, sete anos depois, à Comunidade Económica Europeia (CEE), fundada pelo Tratado de Roma. Transformada em União Europeia em 1992, consagra a livre circulação de mercadorias, de serviços, de pessoas e de capitais no seu espaço. Hoje, com 27 Estados membros, está longe de corresponder às aspirações de boa parte dos seus cidadãos, mas não é de descurar o contributo dado à manutenção de 75 anos de paz na Europa Ocidental. Desde o século XIV, quando a Inglaterra e a França se envolveram na Guerra dos Cem Anos, que os europeus não viam tal coisa.

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