Os trunfos de Putin

Olhando para o desempenho das economias e para o nível de gastos em armamento, a disputa hoje pelo papel de potência dominante no mundo só pode ser entre os Estados Unidos e a China. A vantagem, recorrendo de novo ao PIB e ao orçamento em defesa, é ainda claramente americana, mas os chineses há quatro décadas que vão reduzindo o fosso.

Contudo, e em vésperas de se assinalar os 30 anos da desagregação da União Soviética, a Rússia surge como um ator internacional de respeito, capaz de preocupar os Estados Unidos e os seus aliados europeus de uma forma persistente, como agora se vê com o acumular de tensão por causa da Ucrânia.

Uma Rússia que é bem mais frágil do que os Estados Unidos e do que a China do ponto de vista económico e militar (o PIB é 13 vezes menor do que o americano e dez vezes menor do que o chinês, o orçamento de defesa 12 vezes inferior ao americano e quatro vezes inferior ao chinês) mas que sabe jogar os trunfos com inegável mestria. E por trás da mestria está sem dúvida Vladimir Putin.

Líder incontestável desde 2000, pois mesmo quando cedeu a presidência ficou primeiro-ministro durante quatro anos, o antigo agente do KGB bate em experiência tanto Joe Biden como Xi Jinping, apesar de o americano até ser mais velho e o chinês ter mais ou menos a mesma idade. É verdade que Biden e Xi são igualmente veteranos da política, até foram ambos vice-presidentes, mas número um só desde este ano para o presidente americano, e desde 2012 para o líder chinês.

Quais são os trunfos de Putin? Vários, desde a chantagem do corte do gás natural se os membros europeus da NATO o desafiarem demasiado até à ameaça de mobilização das comunidades russas em várias das repúblicas ex-soviéticas, com a Ucrânia como caso evidente, mas também com Estónia e Letónia na mira, para não dizer mais. O presidente russo também tem sabido usar o direito de veto no Conselho de Segurança da ONU (um legado da União Soviética) para defender a sua política externa e proteger aliados como a Síria, e a própria parceria atual com a China, apesar dos atritos históricos, baseia-se na necessidade mútua de Moscovo e Pequim de manterem pressão sobre Washington. E é preciso não esquecer que a Rússia continua a possuir um arsenal nuclear só equiparável ao dos Estados Unidos, outro legado da União Soviética e o maior testemunho do tempo durante a Guerra Fria em que foi uma da duas superpotências (a China, então, era um país em busca de rumo, disponível até para se aliar aos americanos apesar da ideologia comunista partilhada com os soviéticos).

Apesar de considerar o desaparecimento da União Soviética uma tragédia, Putin não ambiciona recuperar o protagonismo global desta, até porque não pode. Falta-lhe uma ideologia para exportar, mas sobretudo meios para poder ser decisivo em sítios tão distintos como Cuba ou o Vietname, como era possível a Moscovo no tempo do comunismo. É certo que intervém na Síria, tenta fazer sentir a influência na Líbia ou na República Centro-Africana, mas a prioridade é a vizinhança próxima, muitas vezes chamado de espaço ex-soviético, na realidade o antigo território do império czarista.

Putin sabe que a NATO até pode ser um produto da extinta Guerra Fria, mas para ele os sucessivos alargamentos desta a Leste põem em causa algo muito anterior, e no caso da Ucrânia até o território que os russos veem como ancestral, por causa do chamado Rus de Kiev, uma confederação eslava que existiu em redor do ano 1000. Ora, mesmo que muitos ucranianos vejam com bons olhos maior ligação ao Ocidente, via União Europeia e NATO, o leste do país parece pensar de outra forma e daí o separatismo que se seguiu à própria anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, prova da determinação de Moscovo, já exibida em 2008 na Geórgia quando também esta outra antiga república soviética se sentiu tentada pelo Ocidente.

Biden, e com claro apoio dos parceiros europeus da NATO, já deixou claro que duríssimas sanções serão aplicadas se houver intervenção russa na Ucrânia. Mas convém não descurar o quanto está em causa para Putin, e do ponto de vista do sentimento de segurança, para a própria Rússia. Um Putin que, aliás, abre muito menos o jogo do que o presidente americano, o que desde logo o põe em vantagem numa disputa que parece pura teoria geopolítica mas pode ter efeitos terríveis, sobretudo para o povo ucraniano.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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