Carta a Denise, a idosa que cedeu o lugar nos cuidados intensivos

Aconteceu em março, num hospital francês com a unidade de cuidados intensivos à beira do colapso: Denise, idosa, com um estado de saúde já frágil antes da infeção por covid-19, decide não ocupar a última cama disponível, acabando por morrer dias depois. A sua decisão marcou profundamente a equipa que a assistiu, como testemunha a carta aberta que foi publicada nesta semana no Le Monde.

"Para a Denise, que não chegará a ler esta carta", assim iniciam três médicos e uma socióloga o relato de uma experiência limite vivida em março, quando uma mulher de idade avançada, infetada com covid-19, decidiu não ocupar a última cama disponível numa unidade de cuidados intensivos.

Publicada na segunda-feira no jornal Le Monde, a carta, assinada por Elie Azoulay, Sadek Beloucif, Matthiey Le Dorze (todos especialistas em medicina intensiva e reanimação de hospitais na região de Paris) e Nancy Kentish-Barnes, a trabalhar na área da sociologia da saúde em meio hospitalar, dá conta do impacto ético que a decisão de Denise teve sobre a prática profissional de cada um deles: "Temos pensado muito em si desde essa noite de março em que a senhora chegou às urgências quase sem fôlego, com todos os sintomas de infeção por SARS-CoV-2. Nem o seu velho cancro quase superado, nem a sua insuficiência cardíaca, nem sequer a sua idade avançada teriam impedido a sua admissão nos cuidados intensivos. Foi a senhora que tomou essa decisão, que exprimiu as suas preferências."

Publicada no espaço de debate do Le Monde, esta carta vem ao encontro de uma preocupação que se tornou evidente logo na primeira vaga da pandemia, quando se tornou evidente em vários países que o número de ventiladores não chegaria para todos os doentes em estado crítico transportados para as urgências. A quem caberia tomar a dramática decisão de escolher quem vive (ou, pelo menos, quem tem uma oportunidade) ou quem morre? Uma situação que mais parece própria de livros como A Escolha de Sofia, de William Styron, de repente, tomava forma real, diante dos nossos olhos, atónitos.

Em Portugal, este debate foi lançado pelo ex-Presidente da República, António Ramalho Eanes, 85 anos, que dizia em entrevista dada à RTP, a 1 de abril: "Nós - e eu falo porque sou um velho -, nós, os velhos, temos de pensar que a nossa situação é igual à dos outros e se alguma coisa há é a obrigação suplementar de dizer aos outros que isto já aconteceu, que se ultrapassou, vai ser ultrapassada e nós, os velhos, vamos dar o exemplo. Não saímos de casa, respeitamos os conselhos médicos e, se for necessário, chegamos ao hospital e oferecemos o ventilador ao homem que tem mulher e filhos." As reações, muito díspares entre si, não se fizeram esperar.

As recomendações éticas

A pensar na eventualidade deste cenário, o Conselho de Ética e Deontologia da Ordem dos Médicos divulgou, a 9 de novembro, um conjunto de recomendações éticas sobre as opções que estes profissionais poderão ter de tomar se o país chegar a uma situação limite, em que faltem camas nas unidades de cuidados intensivos, ventiladores ou recursos humanos por doença ou quarentena.

Assim, se for necessário estabelecer prioridades na triagem de doentes, os médicos, afirma a Ordem, devem maximizar os benefícios da ventilação assistida - ou seja, devem reservar os recursos para quem tem maior probabilidade de sobrevivência após o tratamento. A idade, porém, não pode ser critério, tal como não o será a ordem de chegada às urgências. O que o parecer recomenda é que cada doente seja avaliado de forma individual e, por isso, a presença de outras doenças prévias - as chamadas comorbilidades - e o estado funcional dos órgãos devem ser cuidadosamente avaliados, a par da idade.

As recomendações da Ordem dos Médicos acrescentam ainda que, "no caso de decisões de suspensão de atitudes curativas, o médico não pode abandonar nenhum doente que necessite dos seus cuidados, devendo sempre garantir acompanhamento paliativo adequado" e que, se for previsível "um período agónico a curto prazo, deve considerar-se a transferência para um ambiente fora da UCI e tanto quanto possível respeitador da sua intimidade".

Uma situação que foi salvaguardada no caso de Denise, como a carta aberta publicada no Le Monde evidencia. Mas a serenidade da doente que escolhera o seu destino não tranquiliza inteiramente os médicos, que escrevem: "Lembro-me do nosso encontro, do seu olhar, do seu pudor e dignidade quando a examinei sob o olhar inquieto da médica intensivista, ao verificarmos os seus níveis de oxigénio. A senhora não se lamentou, o seu sofrimento era silencioso. Tentámos compreender juntos como poderíamos melhorar a sua situação com meios simples, respeitando a sua decisão. Sabíamos que a ventilação não permitiria restituí-la à sua vida normal. Seria assim mesmo que não estivéssemos num contexto sanitário de tensão." E acrescenta: "Estas reflexões fazem parte do quotidiano dos médicos que trabalham nas unidades de cuidados intensivos."

E, no entanto, o que tornou Denise tão inesquecível aos olhos destes profissionais?

"Pensaremos em si em cada situação em que uma decisão difícil terá de ser tomada. Recordar-nos-emos das suas palavras e da necessidade absoluta de ir sempre ao encontro de cada paciente para avaliar a sua situação em toda a sua singularidade. Lembrar-nos-emos desse momento de discussão com os nossos colegas das urgências, e da necessidade de nos concertarmos antes de decidir (...)." E continua: "Recordar-nos-emos da necessidade de pensar que a prioridade dada a um indivíduo pode ser suplantada pela prioridade dada ao coletivo na condição de preservar os princípios fundamentais e os valores do cuidado."

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