Premium Sensibilidade e bom senso - no fogo e além dele

"Bem se vê que quem faz estas leis não sabe o que é o campo." "Só quem nunca viu o vento a fazer o fogo saltar nem um coelho desesperado a fugir em chamas e a pegar o lume a tudo por onde passa é que acha que fazer uns carreiros resolve alguma coisa." "Esta lei é criminosa. Está a destruir a floresta e a prejudicar a vida de muita gente que ainda por cima é ameaçada com multas astronómicas."

Assim se reagia, longe da cidade, à estratégia que o governo traçara para impedir que se repetisse a tragédia de Pedrógão Grande. Não era um ou dois velhos do Restelo, eram centenas de pares de ombros encolhidos pela certeza de que os planos gizados na capital não seriam capazes de impedir que a coisa se repetisse pelo país profundo, mais cedo ou mais tarde, por condições naturais ou com ajuda (sejam doentes, gananciosos ou meros criminosos).

Longe do que se ouve quando se deixa a cidade para trás, a opinião de António Costa é clara: o que vemos em Monchique é "a exceção que confirma o sucesso da operação de combate aos fogos". Disse-o o primeiro-ministro na tarde do sexto dia de chamas, assumindo em simultâneo que sabe ser esta apenas a "primeira prova" de um verão que ainda mal começou e acredita que este fogo que engoliu as praias algarvias numa garganta de fumo levará dias - e custará muito mais hectares - até se conseguir apagar.

Desta vez, felizmente, não aconteceu a tempestade perfeita que levou à horrível morte de duas centenas de pessoas no ano passado. Mas o primeiro-ministro - que era ministro da Administração Interna em 2005, o ano em que houve mais incêndios e com maiores perdas económicas (o pior em área ardida foi 2003, com Figueiredo Lopes na pasta) - já podia ter entendido que há assuntos que requerem uma certa sensibilidade. É certo que António Costa já evita chamar infantis aos jornalistas e iludidos aos portugueses que não aceitam que não haja "soluções mágicas" para situações que obviamente "vão repetir-se". Mas continua a não ser grande política dizer que o inferno vai continuar, provavelmente repetir-se, a quem vê as chamas à janela e no próprio momento em que famílias são retiradas das suas casas à força - para as proteger do fogo que já está mesmo ali ao lado para lhes destruir tudo o que têm, apesar de terem cumprido as ordens que lhes disseram que as protegeriam.

Este não é o tempo de criticar, é o de fazer, o de ajudar, o de impedir que aconteça o pior. Mas as palavras também queimam - e um chefe de governo tem de o saber.

Quanto aos que ficarão ali depois de o fogo ser apagado e de os turistas terem levado a onda de que tantos se queixaram para outras paragens, o que será deles? Teremos aprendido que os seus problemas estão apenas a começar?

Não são apenas os pulmões pesados e a boca que permanece seca de fumo durante demasiado tempo. É que depois das chamas vêm as noites ao relento (ainda há quem as tenha em Pedrógão, quase um ano depois), a necessidade de reconstruir uma vida a partir da cinza, de encontrar um trabalho que tenha sobrevivido ao fogo, de recuperar a terra ardida e depois ensopada, de garantir que ali voltam a pegar as árvores que são a subsistência de muitos (alguém sabe como estão os campos de cerejeiras, nogueiras a norte? Se há menos desolação no Pinhal de Leiria?), de assegurar que o chão não se desfaz em lama às primeiras chuvadas...

Não, não são os governos que ateiam os fogos. Mas é dos governos a obrigação de trabalhar para os prevenir, para evitar que quando sejam inevitáveis se transformem em tragédias, para garantir que as vítimas não continuam a sê-lo muito tempo depois de se apagarem as chamas. É isso que não podemos deixar de exigir - não podemos virar a cara e fingir que, depois de apagado o incêndio, já se pode voltar a encher as redes sociais de fotografias de pés bronzeados com vista de mar. E já agora, podemos pedir um bocadinho de sensibilidade para com o sofrimento alheio.

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