Premium O som do silêncio

Na praia da Barra, onde morei durante quatro anos, era o vento, o grasnar das gaivotas e, de vez em quando, o mar.

Em Florença, onde fiz o doutoramento, chegava dos sinos distantes, das vozes estranhas e desesperadas do hospital psiquiátrico em frente e dos comboios a passar (aprendi que até os comboios podem transportar silêncios).

Em Lisboa o silêncio esconde-se, mas anda por aí, nos pássaros que debicam a nespereira do vizinho, nos rádios sintonizados em estações distantes, nos pés que se arrastam lentamente pelo soalho, nas asas dos pombos, nos gatos que são silêncios de quatro patas. A vizinha suspira, ou sou eu que invento o suspiro, alguém canta ou sou eu que invento melodias.

Nuno Camarneiro

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Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

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Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.