Irão é aposta das empresas portuguesas. Mas sanções de Trump complicam a tarefa

Os EUA prometem retaliar contra quem faça negócios com o Irão, um mercado que está a ser alvo da aposta de empresas portuguesas.

Em 2016 abriu-se um novo mercado ao mundo, uma oportunidade que as autoridades e as empresas portuguesas tentaram aproveitar. Mas pouco mais de dois anos depois do levantamento das sanções ao Irão por parte da União Europeia e dos EUA, a aposta nesse mercado corre o risco de poder vir a ser um dano colateral na guerra diplomática entre a administração americana e Teerão.

Donald Trump considera que o Irão não cumpre com as promessas que fez no acordo nuclear de 2015 e decidiu reintroduzir sanções ao país do Médio Oriente. Algumas começaram já a ter efeito nesta semana. O presidente americano ameaçou ainda quem pretende fazer negócios com Teerão. "Quem fizer negócio com o Irão não o fará com os EUA", disse no Twitter.

Desde 2014 o número de empresas com exposição a uma das maiores economias do Médio Oriente mais que duplicou. São 183, segundo dados da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

Uma má notícia para quem tem apostado no mercado iraniano para diversificar vendas. Foi o caso das empresas portuguesas. O número de entidades a vender no Irão tem subido. Desde 2014 o número de empresas com exposição a uma das maiores economias do Médio Oriente mais que duplicou. São 183, segundo dados da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP). O volume de exportações cresceu mais de oito vezes desde 2014 para 61 milhões em 2017.

Mas as sanções de Trump podem causar danos colaterais às empresas portuguesas, que têm tentado desbravar o mercado iraniano. "É uma má notícia", considera Bruno Bobone. O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP) diz, ao Dinheiro Vivo, que o Irão "é um mercado importante porque permite uma hipótese de diversificação e que tem características onde as empresas portuguesas têm competências acima da média".

Ficar do lado dos EUA ou da UE?

Os EUA decidiram reintroduzir as sanções de forma unilateral e sob forte oposição da União Europeia (UE). Bruxelas quer manter o acordo alcançado com o Irão e ativou nesta semana o estatuto de bloqueio. Este é um mecanismo que permite às empresas da UE recorrerem a tribunais europeus para exigir indemnizações a Washington pelos danos causados pelas sanções e que anula decisões judiciais que possam existir nos EUA sobre o não cumprimento de sanções por parte das empresas europeias.

Ainda assim, Paulo Nunes de Almeida, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP), considera que, "apesar da posição de força da União Europeia em aplicar o acordo, podem existir empresas com presença também nos EUA que possam ter receio de sofrer retaliações se continuarem a fazer negócio".

Paulo Nunes de Almeida observa que "há empresas europeias no Irão que podem também ser potenciais clientes de empresas portuguesas e que vão reduzir investimento, o que resultaria numa descida das encomendas

Além de prometer apoio às empresas, o estatuto de bloqueio da UE tem outro efeito: proíbe empresas da UE de cumprirem as sanções americanas caso não tenham autorização de Bruxelas. Mas, entre enfrentar a ira de Washington ou penalizações de Bruxelas, muitas multinacionais europeias preferem bater em retirada do Irão.

"O estatuto de bloqueio não é uma panaceia. Estamos a tentar minimizar o impacto. Mas as empresas que continuarem a investir no Irão estão a correr riscos", admitiu um responsável da UE citado pelo Financial Times. No caso do setor financeiro, a própria Comissão Europeia admite que o mecanismo tem um efeito muito limitado para bloquear as sanções de Trump.

Empresas como a Daimler, PSA, Renault e Total, por exemplo, indicaram à Reuters que vão refrear a atividade no Irão para cumprir com as sanções americanas. E esse pode ser mais um dano para as entidades portuguesas que entraram neste mercado.

Paulo Nunes de Almeida observa que "há empresas europeias no Irão que podem também ser potenciais clientes de empresas portuguesas e que vão reduzir investimento, o que resultaria numa descida das encomendas. Vemos com alguma preocupação que isso possa acontecer".

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