Uma rotação e meia e lá vai o disco, Daisy

Ana Sousa Dias

Esta manhã vou estar à frente da televisão às oito e meia, esperando Liliana, Daisy e Irina. Vou torcer para que passem à final do lançamento do disco dos Europeus de Atletismo. Liliana e Irina porque são portuguesas, corajosas, ótimas no que fazem. E Daisy porque quando foi agredida no bairro onde mora, perto de Turim, se aguentou firme apesar de ter ficado com a visão afetada.

Teve ordens para descansar, descansou q.b., mas não se coibiu de denunciar o gesto de quem a atingiu: "Foi um ato racista", declarou perante câmaras de televisão. Os italianos respiraram fundo, uns porque gostam dela, outros porque não gostam de ser representados por uma mulher preta. A atleta também respirou fundo: passaram duas semanas e está a competir em Berlim.

Daisy tem 22 anos, é a mais nova das minhas preferidas do lançamento do disco neste momento. Imaginem que eu ainda me lembro com orgulho da Adília Silvério, do rosto decidido, do corpo robusto. Pensando melhor, ainda me lembro da Lídia Faria, a espantosa atleta que chegou em vão ao Benfica, em 1955, para perceber que tinham chamado um tal Lídio e não havia secção de atletismo para mulheres. O Sporting abriu-lhe a porta e Lídia abriu caminho para Adília, que durante 20 anos foi uma grande campeã. Adília abriu caminho para muitas atletas das várias especialidades em que competiu e ainda deu ao atletismo a filha Sara, que teve com Raposo Borges, outro grande campeão.

Liliana, Irina e Daisy não têm o problema de não serem reconhecidas como mulheres desportistas, e chegam depois de mais de 50 anos de história, com muitas outras já consagradas - Rosa Mota, Aurora Cunha, Patrícia Mamona (hoje triste pois não passou às finais do triplo salto), Inês Henriques, recém campeã europeia da marcha.

Eu gosto de ver provas de atletismo. Encanta-me a fulgurância dos dez segundos dos 100 metros, a elegância da curva dos 200, o cálculo instantâneo da décalage dos 400, o equilíbrio improvável quando galgam as barreiras. O esforço gigante de todos os saltos, voos extraordinários de quem não precisa de asas. Dos lançamentos aprendi a gostar como quem educa o olhar. É verdade, não sou fanática das provas de fundo, perdoem-me os aficionados.

Sei que tanto Irina Rodrigues como Liliana Cá chegam aos Europeus com melhores marcas do que Daisy. Liliana, 31 anos, é quase uma veterana. Parou cinco anos, o tempo de ter filhos, e voltou ainda melhor. Irina, de Leiria, tem 27 anos e é a campeã nacional de hoje. As duas lançaram nos últimos meses acima dos 60 metros, estão bem colocadas para tentar medalhas.

Às oito e meia vou estar à espera dos lançamentos de Daisy, vou observar o seu rosto de menina e as suas trancinhas. É mais do que uma prova atlética, é uma declaração de resistência. Liliana e Irina, estou realmente a torcer para vos ver com medalhas, e se puderem deem por mim um abraço à miúda que ainda está a começar.

É que não há meio de abrandar isto da xenofobia, do racismo, da violência sobre as mulheres. Há sempre alguém pronto a atirar seja o que for à cara de uma rapariga de pele escura. Que ela se mantenha de pé é uma fonte de orgulho. Atira o disco bem longe, Daisy.