Primeiro negro de Nova Iorque era português e primeiro hispânico também

Encontros e Encontrões de Portugal no Mundo, editado pela Desassossego, fala de figuras, umas bastante célebres outras nem por isso, que deixaram marcas em dezenas de países. Da autoria de Leonídio Paulo Ferreira, subdiretor do DN, o livro está cheio de histórias curiosas em que portugueses, a bem ou a mal, se fizeram notar noutras paragens. O caso de Jan Rodrigues, que foi contado em primeira mão numa reportagem no jornal em 2016, é um bom exemplo do que contém o livro e por isso merece destaque nesta pré-publicação.

Tirando o mural com heróis afro-americanos, nada justifica uma ida ao enclave do Harlem River Park mesmo junto ao rio, no nordeste de Manhattan, com acesso pela Rua 135. Para lá chegar é preciso atravessar uma via rápida, a passagem aérea está cheia de lixo, dezenas de sem-abrigo arrumam a um canto os colchões, a relva está pouco cuidada e no parque só se vê uma ou outra pessoa a passear o cão. Mas mesmo neste cenário desolador, ou até por causa dele, é impressionante a figura de Jan Rodrigues, pintado, com cabelo e barba negros, de tronco nu parcialmente coberto por um manto azul e com uma pequena sacola amarela presa ao pescoço.

Tem alguns anos este mural dedicado à história negra nos Estados Unidos. Harriet Tubman, organizadora da fuga de escravos durante a Guerra Civil, é a vizinha da esquerda de Rodrigues, que tem do outro lado um poema de Langston Hughes. Para que não restem dúvidas sobre quem é a figura musculosa, lá está o nome, numa das variantes possíveis, Jan Rodrigue

Foi em 1613 o primeiro habitante não índio de Nova Iorque. Os negros reclamam-no como o primeiro afro-americano da cidade, mas há também quem o identifique como pioneiro dos hispânicos. Todos têm razão, afinal Jan Rodrigues nasceu em Santo Domingo, na atual República Dominicana, e tinha mãe africana. O que é meio esquecido é que o pai era português e que criou o filho na comunidade portuguesa (10% da população da colónia) até este, poliglota e marinheiro, ter começado a trabalhar para os holandeses, que lhe chamavam Jan. Assim, há um João Rodrigues mulato, que também é chamado de Juan Rodriguez, outras vezes de Jan Rodriguez, mas que para a história ficou conhecido como Jan Rodrigues.

Intérprete e comerciante

"Pelo que sabemos, Jan Rodrigues foi a primeira pessoa tanto de origem africana como europeia, ele tinha ambas, a instalar-se permanentemente na área que viria a ser Nova Amesterdão e depois Nova Iorque. A mãe era africana e o pai português. Foi criado na colónia espanhola de Santo Domingo, que tinha uma significativa comunidade portuguesa na época e era multilingue", explica ao DN Alan J. Singer, autor de New York and Slavery. Nesse livro também fala, já no tempo dos holandeses, a partir de 1625, da chegada dos primeiros escravos, gente com nomes como Paul d'Angola ou Anthony Portuguese, o que revela donos anteriores portugueses.

Jan Rodrigues, fosse qual fosse o tom da pele, é dado como provado que viveu como homem livre, primeiro como intérprete da marinha holandesa e depois como comerciante na ilha a que os índios chamavam Mannahatta, hoje Manhattan. "Acreditamos que tenha formado família com uma mulher da tribo dos Lenape", acrescenta o professor da Hofstra University, em Long Island. Sobre se falaria português, Singer é explícito: "Tendo em conta a origem do pai, é quase certo que Jan Rodrigues falava uma versão de português, mas não seria fácil de compreender hoje."

Não longe do mural do Harlem River Park, no cruzamento da Avenida Malcolm X com a Rua 135, está sediado um ramo da Biblioteca Pública de Nova Iorque, especializado em estudos afro-americanos. Nas prateleiras, nenhum livro sobre Jan Rodrigues, mas a consulta no computador permite localizar que no ramo do Bronx está disponível Juan Rodriguez and the Beginnings of New York, escrito em 2013 por Anthony Stevens-Acevedo, professor da City University of New York.

Pergunto a uma das funcionárias do Schomburg Center of Research in Black Culture se já ouviu falar deste pioneiro entre os nova-iorquinos. "Claro", é a resposta. "Era negro e das Caraíbas. Os dominicanos dizem que era do país deles, mas não se sabe ao certo. E a verdade é que o nome é Rodrigues com "s" e não com "z". Porque o pai era português", afirma Doris Lango-Leak, que admite, porém, que não é figura assim tão conhecida dos afro-americanos. Testo esta tese no outro lado da rua com um casal que vai a passar junto ao Hospital do Harlem. "Jan Rodrigues? O nome não me diz nada", responde Ron. Mostro no telemóvel uma fotografia do mural e abana a cabeça. Mas a namorada reage: "Ah! Esse! Dizem que foi o primeiro a viver aqui, mas não me lembrava do nome." Também não diz o dela.

Jan Rodrigues tem direito a uma entrada na The Encyclopedia of New York City, em que surge com o apelido à portuguesa e é referido como um comerciante de peles que terá ajudado a negociar a venda de Manhattan aos holandeses. Também surge no Dictionary of Caribbean and Afro-Latin American Biography com o nome de família a terminar em "s". Ao DN, o editor Steven J. Niven, professor em Harvard, nota que na documentação holandesa Jan Rodrigues é referido como "espanhol" e "negro insolente", neste último caso talvez devido aos problemas que teve a bordo de um navio e que poderão explicar porque foi deixado na atual Governors Island, ilhota não longe da ponta sul de Manhattan. Niven admite ser "provável" que o mulato (nascido em 1590?) tivesse pai português.

Um ícone dos imigrantes

Quem não tem dúvidas em chamar a Rodrigues o primeiro hispânico de Nova Iorque é José Tomás Paulino, vice-cônsul dominicano para as Relações Públicas. "Juan Rodriguez é um ícone do fenómeno migratório dominicano. Na República Dominicana não existe ainda um conhecimento pleno da figura, mas há historiadores interessados no tema das migrações que lhe dão agora grande importância", explica o diplomata, que quando tirava o curso de Relações Internacionais na Fairleigh Dickinson University, em Nova Jérsia, fez uma investigação sobre "o primeiro imigrante dominicano nos Estados Unidos".

Que Rodrigues seja considerado tanto hispânico como negro não surpreende Paulino. "Não temos raças puras na República Dominicana. Somos uma mistura", acrescenta. E à volta, no rosto das dezenas de dominicanos que acorrem ao consulado no quarto andar do edifício na Broadway onde fica o Hard Rock Café, está a prova do que diz o diplomata: há negros, mulatos de todos os tons, brancos, uma loira, até.

Há dois anos os dominicanos tornaram-se a maior comunidade hispânica de Nova Iorque, mais até do que os porto-riquenhos, que a história tornou cidadãos americanos. São 800 mil e neste ano esperam que Nova Iorque eleja senador Adriano Espaillat, que seria o primeiro com raízes dominicanas no Congresso. "A comunidade está bem integrada. É gente trabalhadora. E de todo o género. Há advogados e médicos de origem dominicana. Até diretores de hospitais", sublinha Paulino, relembrando que Thomas Perez, secretário do Trabalho na Administração Obama, é filho de dominicanos.

Washington Heights, na parte noroeste de Manhattan, é zona de concentração de dominicanos, basta ver os cartazes a anunciar a música de Zacarias Ferreira. A ponto de em 2013, quando a cidade celebrou os 400 anos da chegada de Jan Rodrigues, o mayor ter atribuído o nome do imigrante à parcela da Broadway que cruza o bairro. Assim, entre as ruas 159 e 218, existe hoje uma Juan Rodriguez Way. "Juan Rodriguez é um herói nosso. É dominicano", diz Javier Durán, de 64 anos, há meio século nos Estados Unidos. "Trabalhei numa fábrica de papelão, mas estou reformado", explica, enquanto espera que fique verde e possa atravessar a Broadway junto à Rua 167. Foi aqui que a câmara colocou a primeira placa Juan Rodriguez Way.

Inspiração para musical

Washington Heights conta com muitos negros também. Aponto para a placa com o nome do pioneiro e pergunto a Josh se sabe quem é. "Nem pensar. Não faço ideia", responde. Está sentado junto a um quiosque de venda de jornais, de dono dominicano. Este também desconhece quem seja Juan Rodriguez. Diz nunca ter reparado que a Broadway tinha outro nome.

No restaurante 809, na Dickman Street, quase no topo de Manhattan, costumam reunir-se muitos dominicanos. Pela comida típica, como rabo encendido, acompanhado de feijão vermelho e arroz branco, mas também porque funciona como centro cultural informal. Manoel Muñoz é o subgerente, um jovem de 29 anos que veio há seis para os Estados Unidos e que já se apresenta como Manny Muñoz. É um dos que conhecem a história de Juan Rodriguez, mesmo que só a tenha descoberto em Nova Iorque, pois "na escola nunca falámos dele". Ouve-se música em espanhol e pergunto se é algum cantor dominicano. "Não. É o chileno Ricardo Arjona. Além de dominicanos, recebemos aqui outros hispânicos e é bom ter uma atitude aberta", responde. Confesso que além de Zacarias Ferreira, recém-descoberto, só conheço Juan Luís Guerra. Ri-se. "Já tem uns anitos. É merengue", sublinha, falando do estilo, mais popular ainda do que a salsa ou a bachata.

Passo no Museu del Barrio, perto de Central Park. Ali, celebraram-se os quatro séculos da chegada de Jan Rodrigues com uma peça teatral intitulada I Am New York: Juan Rodriguez. Os cartazes mostravam um homem de tez morena, muito diferente do que surge no mural no Harlem. Talvez mais próximo do que seria o filho de um português e de uma africana, mas tudo não passa de imaginação do artista.

Jan Rodrigues teve direito há pouco também a um conto escrito por John Keene. Numa passagem pode ler-se "Jan - que era como o capitão Mossel e a tripulação do navio lhe chamavam, ou Juan, como era conhecido em Santo Domingo, ou João, como em tempos tinha sido chamado pelo pai, um marinheiro lusitano, e aqueles como ele entre os quais trabalhava, os reinos da Ibéria sendo um só naqueles dias". Ora aqui está. Jan Rodrigues muito provavelmente nasceu João Rodrigues.

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