Venezuela: os clubes são o refúgio da comunidade portuguesa

É o local de fuga de um dia-a-dia pesado, cheio de afazeres e contrariedades. Mas não deixa de ser uma elite. É só para quem pode.

São vários os centros portugueses espalhados pelo país. Estão até organizados numa estrutura comum, a Federação de Centros Portugueses na Venezuela - Feceporven, sediada em Puerto Ordaz, no estado Bolívar. Sempre foram, mas na atual conjuntura tornam-se ainda mais, os refúgios da comunidade lusa. É o local de convívio, de desporto (desde o ginásio à prática de várias modalidades), de lazer. É onde se organizam as festas, sejam temáticas, casamentos, aniversários ou batizados. Sentem-se bem, em segurança. É o local de fuga de um dia-a-dia pesado, cheio de afazeres e contrariedades. Mas não deixa de ser uma elite. É só para quem pode. É preciso pagar a ação inicial e as quotas, ordinárias e extras, que só são acessíveis a quem tem um bom pé-de-meia.

Centro Português de Caracas, uma referência

O mais conhecido dos clubes é o Centro Português de Caracas (CPC), uma infraestrutura cuidada, com vários bares, restaurantes, piscinas, campos para várias modalidades desportivas, ginásio, salas de jogos, estacionamento, espaços verdes e capela. Fica numa encosta sobranceira à capital. O atual presidente do CPC, Rafael Gomes, nasceu já na Venezuela, numa família oriunda de Espinho.

Há dois anos na presidência, está há oito na direção (já foi responsável pela área do desporto, secretário e vice-presidente). É a altura de passar o testemunho, mas reconhece que, agora, é mais difícil encontrar gente disponível. A situação económica, política e social do país é extremamente preocupante. Há muita gente a passar fome. Há portugueses com muitas necessidades, dificuldades que aumentam a cada dia que passa. O que ganham não dá para comer.

"Há elementos da comunidade que já gastaram as poupanças que tinham e não conseguem regressar a Portugal." As viagens, pagas em euros, estão excessivamente caras.

Rafael Gomes conta que, um dia, uma das funcionárias do clube desmaiou quando trabalhava. Foram ver o que se passava e concluíram que o pouco que a rapariga havia comido já tinha sido há mais de 24 horas, desde o meio-dia da véspera. Não tinha nada para comer em casa. A direção do CPC deliberou, então, fornecer uma refeição por dia aos cerca de cem funcionários do clube. "É um esforço grande, mas disponibilizamos nem que seja uma sopa. É a nossa gente."

O presidente do CPC aproveita para lançar um apelo à solidariedade às várias entidades da Madeira e do país. "Agora é que é a altura de ajudar." Fica também a sugestão, os outros clubes da Venezuela podem funcionar como uma rede de entreajuda. Muitos elementos da comunidade gastaram já as poupanças de uma vida e "não têm condições para voltar" para Portugal.

Duzentos sócios deixaram o clube

Mesmo assim, muita gente está a deixar o país - o que tem consequências também na vida do clube. Nota-se uma diminuição do número de frequentadores. "Cerca de duas centenas deixaram o Centro Português de Caracas nos últimos tempos. Os pais ainda se mantêm no país, mas os filhos, os jovens, esses têm saído", explica. O clube tem cerca de dois mil sócios, o que envolve perto de dez mil pessoas que eventualmente o frequentam.

Também por questões de segurança, quem vai ao clube sai mais cedo, antes do entardecer. Há sempre receio de um assalto durante o percurso. Tem acontecido. Exemplo do que se passa é o principal restaurante do clube. "Num fim de semana aqui havia filas para o almoço. Agora sobram lugares." A crise no país ainda vai durar, mas continua a acreditar no futuro. "A Venezuela é um grande país. É uma terra santa que está a atravessar um momento duro. Tem de haver uma solução", conclui.

Falta de manutenção das infraestruturas públicas

Os arranjos e os cuidados permanentes nos vários clubes da comunidade lusa contrastam claramente com o que se passa no resto do país. É um mundo à parte, de dedicação e esforço de muitos. Um dos problemas graves do país é, de facto, a falta de manutenção das infraestruturas públicas. Com consequências a vários níveis, a começar pela distribuição de água potável. É frequente a falta de água na capital e noutras cidades. Há hora marcada para a distribuição, mas por pouco tempo. Não é raro o abandono do posto de trabalho para ir a casa aproveitar o precioso líquido para os afazeres domésticos atrasados.

Nas estradas, só com muita perícia se consegue evitar os buracos, por vezes verdadeiras crateras, mesmo no centro de Caracas. Muitas vezes é necessário invadir a faixa contrária para poder circular. Num dos viadutos da capital é possível ver os andaimes improvisados colocados de modo a evitar a queda de materiais que se vão desprendendo sobre as viaturas que circulam. A equivalente local à Ordem dos Engenheiros já lançou um alerta para a necessidade de manutenção da rede viária, como as juntas de dilatação, as pontes, os viadutos e outras situações consideradas graves e que podem pôr em risco a segurança de condutores e passageiros.

Este texto foi originalmente publicado no Diário de Notícias da Madeira.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".

Premium

António Araújo

Virgínia, a primeira jornalista portuguesa

Estranha-se o seu esquecimento. É que ela foi, sem tirar nem pôr, a primeira jornalista portuguesa, a primeira mulher que exerceu a profissão de repórter nos moldes que hoje conhecemos. Tem o seu nome nas ruas de algumas localidades (em Lisboa, no bairro de Caselas), mas, segundo sei, não é sequer recordada pela toponímia da sua terra natal, Elvas, onde veio ao mundo às cinco da madrugada do dia 28 de Dezembro de 1882. Seu pai era oficial de Cavalaria, sua mãe doméstica (e também natural de Elvas), seus irmãos militares de fortes convicções republicanas; um deles, Carlos Alberto, chegou a estar na Rotunda em Outubro de 1910 e a combater as tropas de Couceiro por bandas de Trás-os-Montes.

Premium

Marisa Matias

É ouro, senhores

Chegar à União Europeia não é igual para toda a gente, já se sabe. Em vários países da União Europeia - treze mais em concreto - ter dinheiro é condição de porta aberta. Já se o assunto for fugir à morte ou procurar trabalho, a conversa é bem diferente. O caso a que me refiro é o dos vistos gold. Portugal integra a lista de países com práticas mais questionáveis a este respeito. Não sou eu quem o diz, os dados vêm do Consórcio Global Anticorrupção e da Transparency International.

Premium

Germano Almeida

Parlamentares

A notícia segundo a qual dois deputados nacionais ultrapassaram a fase dos insultos verbais e entraram em desforço físico junto ou dentro do edifício do Parlamento correu as ilhas e também pelo menos a parte da diáspora onde chegam as nossas emissões, porque não só a Rádio Nacional proporcionou ao facto abundante cobertura, como também a televisão lhe dedicou largos 22 minutos de tempo de antena, ouvindo não só os contendores como também as eventuais testemunhas da lide, e por fim um jurista, que, de código em punho, esmiuçou a diferença entre uma briga e uma agressão pura e simples, para concluir que no caso em apreço mais parecia ter havido uma agressão de um deputado a outro, na medida em que tudo levava a crer ter havido um único murro. Porém, tão bem aplicado e com tanta ciência, que não houve mais nada a fazer senão conduzir o espancado ao hospital para os devidos curativos. E para comprovar a veracidade do incidente mostrou, junto a uma parede, uma mancha de sangue que por sinal mais fazia lembrar o local onde uma galinha poderia ter sido decapitada.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Desta vez Trump tem razão

A construção de uma Europa unida como espaço de paz, liberdade, justiça e prosperidade sustentável foi o maior projeto político da geração a que pertenço. É impossível não confessar a imensa tristeza que me invade ao observar mês após mês, ano após ano, como se caminha para aquele grau de exaustão e fadiga que faz pressentir a dissolução final. O que une, hoje, a Europa é a mais elementar pulsão de vida, o instinto de autossobrevivência. Não dos seus governantes, mas dos seus mais humildes cidadãos. O tumultuoso Brexit mostra bem como é difícil, mesmo para um grande país com soberania monetária, descoser as malhas urdidas ao longo de tantas décadas. Agora imagine-se a tragédia que seria o colapso da união monetária para os 19 países que dela participam. A zona euro sofreria um empobrecimento e uma destruição de riqueza exponenciais, como se uma guerra invisível, sem mortos nem ruínas, nos tivesse atingido. Estamos nisto há dez anos. Os atos políticos levados a cabo desde 2008, nada mudaram na gravidade dos problemas, apenas adiaram o desfecho previsível. Existe uma alternativa minimalista ao colapso. Implicaria uma negociação realista baseada nos interesses materiais concretos dos Estados, como aqueles casais que coabitam, mesmo depois do divórcio, para nenhum deles ter de ir morar na rua. A prioridade seria uma mudança das regras absurdas do tratado orçamental, que transformam, por exemplo, os 2,8% da derrapagem orçamental francesa prevista para 2019 numa coisa esplêndida, e os 2,4% solicitados pelo governo de Roma num pecado mortal! Contudo, os mesmos patéticos dirigentes políticos dos grandes países europeus que economizaram nos atos potencialmente redentores do projeto europeu, não nos poupam à sua retórica. A evocação do primeiro centenário do fim da I Guerra Mundial ultrapassou os limites do aceitável.