Venezuela: A crise separou muitas famílias mas também uniu quem ficou

A crise revitalizou a Casa Portuguesa do Estado de Arágua. Um centro muito frequentado onde é possível conviver, partilhar a vida, praticar desporto e a solidariedade, aprender línguas, participar num grupo coral, almoçar e até rezar.

Ganhou uma nova dimensão nos últimos tempos este centro que rivaliza com o de Caracas. É o ponto de encontro da comunidade lusa, a grande maioria de origem madeirense. Até dos jovens que há alguns anos estavam arredados desta cidadezinha dentro da cidade. Dada a falta de alternativas para as saídas à noite, por causa da grande insegurança, os jovens acabam por ir com frequência ao centro.

É por excelência o local de convívio, de encontro de gerações, onde os empresários falam de negócios, onde não faltam alternativas de lazer, prática desportiva e iniciativas culturais e até de culto religioso, pois não falta um grupo de oração. Além do ginásio, por exemplo ao fim da tarde, são muitos os que aproveitam para fazer uma caminhada, por razões de saúde. É muito mais seguro. No campo desportivo, destaque para a equipa de futebol que está na terceira divisão e participa no torneio nacional federado.

A Casa Portuguesa do Estado de Arágua foi fundada há 53 anos e acolhe atualmente mais de 1700 sócios. Ou seja, envolve diretamente, se olharmos aos agregados familiares, cerca de sete mil pessoas. Várias salas de festas, parque infantil, biblioteca, sala de espetáculos, campos desportivos para diversas modalidades, incluindo um grande campo de futebol, piscinas, uma delas olímpica, bares e restaurantes, compõem este centro que tem ainda anexos, com a forma típica das casas de Santana, que podem ser alugados para pequenos convívios familiares, onde não falta o local para fazer a tradicional parrilla. Uma das casas chama-se precisamente Santana, outra Funchal, mas há outras localidades referenciadas como Lisboa, Porto, Faro ou Ponta Delgada.

Claro que há atrasos nos pagamentos das quotas e ações do clube à venda. Gente que saiu ou pensa deixar o país. A crise separou muitas famílias, mas também uniu ainda mais a comunidade que ficou. E que até ver fica. São várias as iniciativas culturais e desportivas, concertos, comemorações de datas festivas que vão animando a Casa Portuguesa. Há também várias ações de solidariedade, entre elas as que procuram fundos para apoiar o lar de terceira de idade que acolhe cerca de 40 idosos, alguns sem capacidade económica. A Academia do Bacalhau assume também, neste capítulo da solidariedade, um papel fundamental. Mas, como foi dito, há agora menos gente nestas iniciativas, há menos dinheiro disponível e as carências são cada vez maiores. O custo de vida atingiu um nível insuportável.

Inserido numa cidade, Maracay, com cerca de um milhão de habitantes, o centro, dizem os estatutos, além de ser um lugar recreativo e de lazer é uma forma de difundir e manter a cultura do país natal. Por esta razão persegue fins sociais, culturais, desportivos, assistenciais e filantrópicos, assim como o estreitamento de vínculos entre a comunidade portuguesa e o povo venezuelano. Agora mais do que nunca.

Este texto foi originalmente publicado no Diário de Notícias da Madeira

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