República Centro-Africana: militares portugueses com treino reforçado de tiro e combate

"O que motiva os militares é a proteção dos mais frágeis e indefesos", garante ao DN tenente-coronel Óscar Fontoura, comandante do quarto contingente que partiu para a RCA.

Valentina Marcelino
 | foto Direitos Reservados
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Os militares portugueses que partiram nesta semana para a República Centro-Africana (RCA) - onde integram uma missão de paz das Nações Unidas - tiveram treino reforçado de tiro e combate. O último contingente, que regressou na passada quinta-feira, sofreu quase duas dezenas de ataques de grupos armados e a preparação do novo grupo força teve isso bem presente.

"O que foi diferente na preparação desta 4.ª Força Nacional Destacada para a RCA foi o facto de o processo ter sido conduzido sabendo que a probabilidade de fazer uso da força é mais elevado do que noutros aprontamentos para outros teatros de operações", explicou ao DN o tenente-coronel Óscar Fontoura, que assume o comando das operações (ver entrevista em baixo). Nesse sentido, sublinha, "o foco na mentalização dos militares para potenciais ações de combate foi mais persistente, assim como o treino de técnicas, táticas e procedimentos de combate, incluindo o tiro operacional, foi mais intenso e mais realista".

Os 119 militares, a maior parte das forças especiais de paraquedistas, que partiram nesta quinta-feira vão juntar-se aos 40 operacionais deste quarto contingente, que se encontra já no terreno desde agosto, com Óscar Fontoura, integrando um destacamento avançado.

A força que agora finalizou a sua missão esteve envolvida em cerca de duas dezenas de confrontos (18 ao todo) com elementos dos grupos armados: na cidade de Bangui, nomeadamente na área mais crítica, que é o terceiro distrito; nos graves incidentes na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, a 1 de maio; e na cidade de Bambari, a 400 km da capital, onde foi empenhada por diversas ocasiões em defesa de civis e de elementos das Nações Unidas, região onde os confrontos com os grupos armados que tentam controlar a cidade foram dos mais violentos.

"A missão dos militares portugueses tem vindo a destacar-se pelas ações meritórias, reiteradamente reconhecidas publicamente pelas autoridades na Republica Centro-Africana, como têm ajudado as Nações Unidas e as autoridades locais a emergir de uma séria crise e a construir um novo futuro para a segurança e a prosperidade daquele país, contribuindo para um mundo melhor, mais seguro e mais justo", destaca fonte oficial das Forças Armadas.

Constituem a Força de Reação Rápida da missão das Nações Unidas na Republica Centro-Africana (MINUSCA)

Óscar Fontoura tem 47 anos e 27 de serviço. Comanda o 2.º Batalhão de Infantaria Paraquedista e já esteve na Bósnia, em Timor-Leste e no Afeganistão.

Que preparação especial fez para esta missão, diferente de outras em que tenha participado?

A preparação desta Força Nacional Destacada para o Teatro de Operações da RCA teve aspetos comuns a qualquer outra que se prepara um qualquer teatro de operações. Aqui incluem-se os aspetos ligados à preparação administrativa e logística e também aspetos técnico-táticos, permitindo assim aos militares destacados, individual e coletivamente, fazer uso da força de forma eficaz e eficiente se necessário. Isto é um principio sempre válido para a preparação de qualquer força militar a projetar. O que foi diferente desta vez foi o facto de o processo ter sido conduzido sabendo que a probabilidade de fazer uso da força é mais elevado do que para outros teatros de operações. Nesse sentido, o foco na mentalização dos militares para potenciais ações de combate foi mais persistente, assim como o treino de técnicas, táticas e procedimentos de combate, incluindo o tiro operacional, que foi mais intenso e mais realista. Em suma, embora a força de manobra seja constituída por militares do 2.º Batalhão de Paraquedistas, aos quais já é exigido, todos os dias e em qualquer circunstância, estarem preparados para o combate, a grande diferença residiu na forma como foi conduzido o treino operacional, baseado em operações que aconteceram na realidade no terreno, permitindo que cada militar ficasse ciente de que no combate com os grupos armados a sua grande vantagem reside na confiança que deposita no treino que possui e na motivação para o pôr em prática, quando assim a situação o exigir.

Quais os conselhos que recebeu do tenente-coronel João Bernardino, que passou os últimos seis meses em cenários bem complicados com vários ataques aos seus militares?
Do tenente-coronel Bernardino recebi toda uma experiência acumulada durante seis meses. Destaco os conselhos para trabalhar de forma harmoniosa num ambiente internacional, no âmbito das Nações Unidas e com países maioritariamente africanos, uma permanente atenção às informações, à persistência em esclarecer muito bem a situação antes de atuar e a manutenção constante de planos de contingência para as mais variadas situações não previstas ou planeadas, embora muitas vezes, segundo os nossos padrões militares, nos possam parecer impossíveis de acontecer.

Quais as suas principais preocupações?
São garantir, permanentemente, que cada militar e a força no seu conjunto se mantenham com elevados níveis de concentração nas tarefas a executar, manter elevados níveis de segurança e de proteção e cumprir integralmente as missões que recebermos do escalão superior.

Que palavras tem para motivar os seus militares que vão para um cenário tão perigoso?
As palavras que mais motivam os meus militares têm a ver com a nobreza da missão que vamos cumprir, cuja principal premissa é a proteção e a segurança das populações da RCA, em especial dos mais frágeis, desfavorecidos e indefesos; proteger o próximo e fazer o bem. Esta é a nossa maior motivação. Noutro patamar de motivações, é evidente que o facto de representar as Forças Armadas Portuguesas e Portugal numa missão de tão elevada relevância é um fator importantíssimo. Mais internamente, mas muito importante, não posso deixar de referir, com palavras altamente motivantes, o lema de sempre dos paraquedistsa portugueses e o que representa para nós: "Que nunca por vencidos se conheçam."

As medidas de proteção dos militares - equipamento e/ou forma de atuação no terreno - vão ter algum reforço ou mudança?
Está em processo a possibilidade de a força vir a receber viaturas blindadas, o que, caso se verifique, significa um aumento de proteção e um aumento de flexibilidade para o comandante para resolver determinadas situações mais perigosas que, porventura, venham a acontecer.

O tenente-coronel de Infantaria Paraquedista Óscar Fontoura é desde 5 de setembro de 2017 comandante do 2.º Batalhão de Infantaria Paraquedista. Foi promovido ao atual posto com data de 1 de janeiro de 2017. Em 1993 ingressou na Academia Militar, tendo terminado em 1998 a licenciatura em Ciências Militares - Infantaria.

Após a conclusão da Academia Militar, em 1998, foi colocado na Área Militar de São Jacinto, desempenhando as funções de segundo-comandante da Companhia de Comando e Serviços na Bósnia e Herzegovina e comandante de pelotão de paraquedistas e, em acumulação, segundo-comandante da Companhia de Paraquedistas 23 em Timor-Leste.

De 2003 a 2008 desempenhou funções de comandante das companhias de paraquedistas 21, 22 e 23 e posteriormente no Comando e Estado-Maior do 2.º Batalhão de Infantaria Paraquedista para as funções de oficial de pessoal, oficial de operações, oficial de logística e
segundo-comandante.

No âmbito das Forças Nacionais Destacadas desempenhou ainda funções nos cargos de officer mentor na 2.ª, 5.ª e 8.ª operational mentor and liaison team no Teatro de Operações do Afeganistão.