Tratar do nosso brexit

Aconteça o que acontecer, o Reino Unido vai mesmo sair da União Europeia. E não é completamente certo que seja a bem. Para lá da conversa sobre como é que foi possível, como é horrível e um triste sinal dos tempos, convinha adotar alguma dose de realismo e tratar, finalmente, de ver quais são e como se defendem os nossos interesses no fim deste processo. É tempo de ser pragmático como os britânicos, e de pensar em nós, como eles. Em Bruxelas tem-se feito isso. Em Lisboa, também tem de se fazer.

Se houver acordo entre a União Europeia e o Reino Unido, o brexit pode ser suave, com a legislação da UE a aplicar-se na Grã-Bretanha e Irlanda do Norte por quase mais um ano, com tempo para fechar um acordo de livre-comércio (que, em todo o caso, tem de ser negociado) e com margem para garantir alguns interesses. Mas se tudo se precipitar, se a saída for sem acordo sobre o divórcio e, menos ainda, sobre a relação futura, então tudo se pode complicar. Quem presta atenção às notícias tem razões para acreditar que ambos os caminhos são, ainda, possíveis.

Durante o verão, a Comissão Europeia publicou umas notas que explicam, setor a setor, das telecomunicações à indústria, da energia à agricultura, do emprego à banca, o que é que acontece dia 30 de março, caso haja ou caso não haja acordo sobre a saída. Na próxima semana, lá para quarta-feira, vai atualizar parte desta informação. Ao lado do debate político sobre o significado e implicações profundas deste processo, existe a realidade dos empregos, das exportações, da economia, que convém acautelar.

Em Bruxelas, Jean-Claude Juncker teve a inteligência de, ao nomear Michel Barnier para liderar as negociações, fazer um cordão sanitário à volta do tema, impedir que contaminasse o dia-a-dia da Comissão Europeia e mostrar aos britânicos que eles eram tão livres e independentes na negociação da saída quanto a Europa.

No início do brexit soube-se que o Ministério dos Negócios Estrangeiros tinha criado uma equipa, liderada pelo embaixador João Valera, para reunir informação sobre quais eram os nossos interesses e como os deveríamos acautelar. A seis meses do fim, é tempo de saber a que conclusões chegou, que prioridades tem, quais são as suas linhas vermelhas e aquilo em que estamos interessados em ceder. Não será irrazoável que esta conversa não possa ser tida em público, de portas abertas. Afinal, sempre se trata de uma negociação. Mas como, apesar de ser liderada por Bruxelas, tem de ter o acordo unânime dos Estados membros, o resultado final passa por aqui.

A título de um pouco mais que curiosidade, os deputados à Assembleia da República não quererão saber como correram os trabalhos desta comissão? O que dizem as empresas e associações empresariais? Que contas estão feitas e que interesses defendemos no acordo final? Parecem minudências, quando comparadas com a discussão de grandes questões como o destino do mundo, mas convinha que nos interessássemos por elas. A vida das pessoas e das empresas está muito dependente de minudências.

Consultor em Assuntos Europeus

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